quinta-feira, 12 de março de 2009

O passado não é um lixo

Há uma hipocrisia reinante por aí. Confesso, ando com nojo. Nojo das escolhas estúpidas. Nojo do egoísmo. Nojo da falta de reflexão. Nojo dos joguinhos e manipulações. Nojo da pseudo-autenticidade. Nojo de uma liberalidade que por vezes é perversa e asquerosa.
Estamos em uma era do quanto pior, melhor. É a pós-modernidade da exaltação ao nada e ao lixo. Tudo vale. Nada é concreto. Nada é de verdade. Todas as coisas são dinâmicas. Viva o novo! O passado possui muitos aspectos negativos, que devem ser substituídos, mudados para melhor. Disso não tenho dúvidas. Mas o que se está fazendo, na prática, com o passado, é amassá-lo, fazê-lo de bolinha e jogá-lo no lixo. Em troca de nada. Em uma troca pelo nada. E o passado também possui coisas positivas, que deveriam ser mantidas. O passado possui um certo romantismo, o passado possui uma certa pureza, meio safada, meio ingênua, e por essa dubiedade, um tanto atraente.
Os dias de hoje são de um escancaramento (i) moral sujo, mesquinho. Liberdade não é sinônimo de vulgaridade. E tudo é vulgarizado, em nome de uma nova moral desprovida de qualquer base normativa. A sociedade está ficando meio que debilóide, retardada. A racionalidade humana vai sendo trocada por uma animalesca satisfação de vontades. Claro que satisfazer-se é bom. Desde que feito de uma maneira minimamente romântica, um pouco teatral, até.
Estamos virando, progressivamente, animais irracionais. Alguns dos valores mais nobres da humanidade, como honestidade, lealdade, amor, solidariedade, vão ficando melacolicamente esquecidos em algum porão empoeirado, sem nostalgia, como meras barreiras que impediam a satisfação humana, vista como finalidade última e implacável.
Minha intenção aqui não é ser moralista. Apenas acho que ser humano está virando uma banalidade, sem graça, sem o desafiante e muitas vezes doce desvendamento do oculto. Claro, avanços devem acontecer, e são muito bem-vindos. Mas tudo deve manter um certo limite, uma certa graça, um certo flerte entre o sujeito e suas vontades. Seres humanos precisam ser um pouco estimulados a fazer algo, a encontrar brechas, atalhos, possibilidades, que possam ir além da truculenta e impensada ação. Do contrário, voltaremos, tristemente, ao desafio de se descobrir o fogo e redescobrir a essência humana.

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