segunda-feira, 9 de março de 2009

Educação e individualismo

Alguns debates acadêmicos proporcionam momentos de reflexão importantes, interessantes, instigantes. Hoje presenciei, em uma das cadeiras, um debate acerca da educação, do "como fazer". Alguns pontos realmente merecem uma avaliação mais ampla. Não tenho o intuito de propor dogmas, mas apenas de pensar sobre esses aspectos.
Primeiramente, veio à tona, e até mesmo é questionada, a centralidade da educação para se fazer uma mudança de vida das crianças de periferia. O argumento para tais contestações reside no fato de que o indivíduo é que faz sua vida, não a sua educação. Nessas horas, utilizam-se alguns exemplos, com destaque para Lula, caso sempre citado, por mim, inclusive. Mas o que deve ficar claro é que esses casos são exceções das exceções. Um discurso que remeta a um individualismo exarcebado é absolutamente deletério e legitimador de desigualdades de tratamento entre classes. Afinal, nessas horas inclusive a classe torna-se elemento secundário.
Daí, surgem, também, radicalizações do tipo "qual o problema de se transgredir? Faça tudo que quiser." A questão é que na prática não é assim que as coisas funcionam. Uma sociedade em que não se cumpra regras mínimas, aceitas pela ampla maioria dos cidadãos, é utópica, e jamais vai existir. Porque para se viver em sociedade, e civilizadamente, tem de haver uma base regulamentar mínima. O que pode ser questionado é QUAIS são essas regras. Mas o que se deve ter claro é que tal conjunto de regras deve ser minimamente consensual, e aceito, por consequência, pela maior parte dos sujeitos. Disso não se pode fugir. Querer estabelecer regras alternativas e minoritárias é impossível, chegando a ser uma estupidez antidemocrática.
Voltando ao início da discussão: a educação é, sim, fundamental para o desenvolvimento de bons cidadãos. A forma como ela é realizada é que muitas vezes não surte efeitos maiores. Preliminarmente, acredito que se deva partir de uma base comum, que seja aplicável à maioria e estimulante. Feito isso, deve-se partir para as individualidades, porque, de fato, nem todos vão gostar das mesmas coisas e desenvolver os mesmos talentos e potencialidades. Mas um parâmetro minimamente comunal é indispensável para se dar um chão às atividades educativas que venham a ser desempenhadas. Talvez o grande lance seja não se limitar a este patamar inicial, fazer as coisas se desenvolverem de forma a abranger, factualmente, a esmagadora maioria. Acreditar em vias diferentes da educação para se mudar a vida de crianças em situação de risco é pensamento mágico. E pensamentos mágicos geralmente não se aplicam na prática.

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