sábado, 14 de março de 2009

Baixaria

Viva a baixaria! Estamos de volta dos nossos comerciais! Vem cá, ô Feijó, mostra a cara daquele vagabundo que atropelou a velhota! Mostra! Mostra a cara desse safado! Canalha, safado, pilantra! Me deixa falar! Me deixa falar! Esse vagabundo tem que ouvir, doa a quem doer! Diretor, você quer assumir aqui? Eu tenho que defender o povo! Não tô nem aí! Que direitos humanos, o quê? Esses intelectuaizinhos não sabem o que dizem! Viva a baixaria! Mostra agora a cena do estupro, Feijó! Mostra, mostra! É a realidade! Olha o que esse vagabundo fez!
Quem nunca ouviu um discurso demagógico destes na televisão? Estamos realmente num momento de vazio cerebral preocupante. A desgraça dos outros está na pauta do dia. A violência, pessoas drogadas, estupros, tudo isso são resultados de uma estrutura social perversa. Mas estes programas, e alguns jornais impressos, como o Diário Gaúcho, se prestam apenas a focalizar o efeito, e não suas causas.
Tudo isso direciona para a criação de uma sociedade abobalhada, que não consegue distinguir o que é importante e o que não é. Que não consegue vislumbrar as verdadeiras causas das mazelas sociais. O povo não tem tempo pra pensar! Precisam de algo rápido e que não exija raciocínio. Essa é a desculpa para as práticas manipulatórias da televisão e de parte da imprensa escrita. Bundas, mostrem bundas! Bunda é bom. Mas um jornal que objetive ter um mínimo de credibilidade não pode colocar como capa uma bunda. Ou então o esgoto estourado em Viamão. Ou ainda o assassinato de alguém por aí. São fatos ou irrelevantes para a informação do cidadão, ou supervalorizados, tirando a dimensão macro da pauta. Porque se ocorre o assassinato na favela, é por causa da existência de uma estrutura social ampla, de desigualdades, pobreza, corrupção política, fragmentação, desmanche de valores, que propicia tais acontecimentos. Mas o Diário Gaúcho não está nem aí. Mantenha-se o povo castrado da realidade, da profundidade de tudo que acontece. Deixa esse Zé Povinho olhando somente a superfície e sendo submetido ao domínio ideológico das elites.
Esses assuntos podem ser tratados. Tanto as amenidades quanto as micro-realidades. Mas, quando se trata de dar as informações, de ser um veículo cultural, abordar as coisas de forma assimétrica e desproporcional é grave. Porque o que não existe no jornal, não existe para as massas. Formas alternativas de informação são importantes. O primeiro passo para a libertação das pessoas é o acesso à informação e o desenvolvimento da sua capacidade crítica. São estas as principais ferramentas para a ação libertadora.

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