sexta-feira, 27 de março de 2009

Por vós esperamos

O filme "Nós que aqui estamos por vós esperamos" é marcante. Trata-se de um filme sobre a história do século XX. Porém, passa longe de uma ótica positivista de abordagem. Ali, grandes e pequenos nomes da história recente da humanidade se confundem. Esse tipo de enfoque é especialmente interessante, porque nele nos vemos como sujeitos, talvez até mesmo agentes, da história.
A história não é feita pelos indivíduos, ela parece se sobrepor, transcender essa dimensão, ser maior, não tangível. Porém, o filme mostra como a história é movimentada pelos indivíduos, dentro de seus respectivos contextos. É a coletividade de particularidades que faz as coisas acontecerem. Antes de qualquer coisa, somos sujeitos históricos. Não há como flutuarmos sobre os períodos históricos que vivemos. Estamos inevitavelmente inseridos neles. De certa forma, somos a história. Existem indivíduos com mais ou menos poder de movimentação e transformação histórica, disso não se duvida. Mas sem as massas, a história não existe.
Nesse sentido, a modernidade entra com seus paradoxos e contradições. A massificação parece fazer contraponto a um individualismo exarcebado. Creio que não há contraponto, não há excludência. Há, isso sim, complementação. O fenômeno que ocorre é uma massificação ou uniformização de indivíduos atomizados, fragmentados. Dito de outra forma, verifica-se uma massificação do individualismo. Todos parecem buscar o bem-estar próprio e dos mais próximos, de maneira desconfiada em relação aos outros, configurando um familismo amoral outrora definido por Banfield. Existe uma crença generalizada de independência e autonomia, que esconde a crescente uniformidade social. O admirável mundo novo está aí. Podemos contemplá-lo ou modificá-lo. Tal nível de massificação é reversível, à medida que não adotemos a perspectiva de história linear. Caso contrário, estamos condenados aos nossos futuros códigos de barras controladores de desvios ao padrão de atitude de uma coletividade de seres humanos sem autonomia, enganados como robôs que pensam estar vivos e donos de seus destinos, e que até mesmo pensam que pensam.
O mais perturbador é que tudo se torna mais veloz e líquido, como diria Bauman. O tempo para reação e decodificação dos símbolos modernos é progressivamente suprimido. O que é já deixa de ser a partir do momento em que é. Utilizando a expressão de Marx: "tudo o que é sólido se desmancha no ar". A velocidade e a fugacidade das informações provenientes da globalização impede uma percepção minimamente refinada do que é verdade e do que é mentira. A verdade do minuto anterior torna-se uma ridícula e patética anedota, porque tudo é simplesmente despejado, sem reflexão, sem peneiras. E nós, sujeitos históricos, fazemos uma história dentre tantas existentes, com uma montagem própria, com um ajuntamento quase que aleatório das memórias, daquilo que escolhemos, ou que nos escolhe, para a montagem de nosso livreto.
A tendência é de que esse acúmulo de choques nos torne sujeitos blasé, tal qual na perspectiva de Simmel. Trata-se da perda de nossas percepções do que é ou não importante, em última análise, do que é ou não histórico. O bizarro já não mais o é. Acostumamo-nos a todo tipo de fenômeno outrora espantoso, que, por sua repetição, já não é mais decodificado. Os choques, por mais diferentes que sejam, tornam-se uma grande e abrangente categoria, menos peneirada, mais embrutecida. A velocidade torna-se inércia. Ficamos meio apatetados, vendo tudo acontecer, fazendo parte cenograficamente, violentados por uma multiplicidade de tempos simultâneos e atordoantes.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Escolas itinerantes

A medida do governo Yeda de acabar com o funcionamento das escolas itinerantes no estado é um absurdo injustificável. Para quem não sabe, as escolas itinerantes são aquelas destinadas à educação dos filhos dos trabalhadores sem terra. Esse mecanismo permite que os sem terra lutem por seus direitos, justíssimos, diga-se de passagem, e ao mesmo tempo tenham seus filhos educados onde quer que estes estejam.
O ato do governo estadual é claramente político. PSDB e MST nunca caminharão na mesma direção. Isso é óbvio. Yeda tenta exercer retaliação contra um movimento social que confronta tudo aquilo que a direita sempre defende apaixonada e dogmaticamente: a propriedade privada desmesurada como direito de apenas uma classe, uma educação acrítica e "neutra", os latifúndios absurdamente demarcados e as desigualdades sociais.
Pode-se discutir muitas questões numa análise mais complexa do MST. Mas não se pode negar que é um movimento de lutas, um movimento de classe, contra-hegemônico. E o governo Yeda pressiona esse movimento da forma mais suja e covarde que se pode imaginar: afetando os filhos dos sem terra. Estas crianças não tem o direito à educação? Os pais delas teriam que parar de lutar? Isso é o que o governo do PSDB gostaria. Tal medida, se vista por determinada ótica, é inclusive anti-constitucional. Mas não é novidade esse tipo de coisa na atual administração gaúcha. O governo Yeda tem verdadeira ojeriza a qualquer tipo de movimento ou manifestação classista. Não esqueçamos que este mesmo governo mandou bater em professores, como se estes fossem bandidos por reivindicar direitos.
Não só Yeda, como a mídia de direita também procura deslegitimar e marginalizar os movimentos sociais, em especial o MST, perante o grande público. A luta dos movimentos sociais não é apenas uma luta macrossistêmica. É uma luta cotidiana. É a luta para sobreviver como uma chama de resistência na busca de uma sociedade em que as desigualdades não sejam tão gritantes. Uma chama de esperança contra os atentados da direita contra a dignidade humana. Os filhos dos sem terra tem direito à educação. Tá na constituição.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Superficialidades

Não acredito nisso. Não acredito em nada disso. Há dias em que tudo, absolutamente tudo, soa ridículo, soa um tanto hipócrita. À minha volta, tudo o que vejo é mediocridade. Viva as fórmulas prontas! Viva o não ser!
O que fizemos, afinal, para estarmos aqui? Tudo é uma grande palhaçada. Um circo que não tem graça nenhuma. Fale! Participe! Do quê? Pra quê? Tudo que ouço é um blá blá blá insuportável. Nada disso faz sentido algum. Todas as coisas são inócuas, e eu quero dormir. A superficialidade se espalha como água na enchente.
Riam! Deleitem-se! Pisem em cima das diferenças! Imponham as suas pseudo-autonomias! Ou me dizem o que já sei, ou me dizem o que não quero saber. Cada segundo configura um novo desgaste. As coisas passam em um slow motion nojento. Sinto vontade de vomitar, e vomitar, e vomitar.
Todos se divertem aqui. Todos gostam de estar aqui. Menos eu. Qual é a graça de passar por um túnel que não nos deixa nada? Qual é o atrativo de estar sempre entre a dor e a insipidez? O que mais dói é que não existe oposição simértica à dor. Tudo o que se pode alcançar é a não-dor.
Por que o tempo não acelera? Por que o tempo não passa? Por que nós não passamos, de uma vez? Talvez seja só um dia. Talvez seja só um momento. Talvez seja só hoje. Talvez seja só agora. Não importa. Quando estamos mergulhados na angústia amarga, a sensação parece atemporal, por mais demarcada no tempo que ela esteja.
A estupidez de quem pensa que sabe é a pior. Todo saber é relativo, porque cada saber tem um valor que somente a subjetividade individual pode mensurar. Por isso que saberes podem, e devem, ser debatidos, confrontados, de forma verdadeira. Não defendo o jogo de cena e de pseudo-discordâncias reinantes. Falo de debates que possam chegar às verdadeiras raízes do saber. E tais debates não passariam, a princípio, de meros exercícios. Mas exercícios que podem dinamizar a vida. Exercícios que nos façam mais humanos e menos fantoches.

terça-feira, 17 de março de 2009

Liberdade

O conceito de liberdade é humanamente desejável. Intrinsecamente é positivo, pois só sob a condição da liberdade uma pessoa pode tentar atingir sua plenitude, que é, aprioristicamente indeterminada e, por consequência, ilimitada. O grande problema é que as classes dominantes, enquanto detentoras do poder sobre os meios de comunicação de massa, apropriam-se deste conceito e de todo seu potencial positivo, subvertendo-o, transformando em enlace teórico para o exercício de sua dominação.
As elites apodrecem a palavra liberdade. Deixam-na embebida em sua nojenta ganância, adestram as classes mais baixas. Já disse Marx que o trabalhador livre assim é chamado por estar livre do poder sobre os meios de produção. A liberdade proposta pela classe dominante, fervorosamente defendida pela mesma quando se fala de Cuba, por exemplo, é a liberdade de os patrões explorarem a mão de obra assalariada. É a liberdade do pobre de lutar contra o rico em condições absolutamente desiguais. É a liberdade de dar a Davi a oportunidade de lutar com Golias sob regras iguais. O primeiro com um estilingue; o segundo com uma AR 15.
Será essa a liberdade que realmente queremos? A liberdade enquanto conceito e ideal proposto pelas elites é uma farsa. Uma desonestidade. Uma fraude. Na sociedade ocidental contemporânea estamos muito longe da liberdade. A liberdade como exercício da plenitude humana configura-se num caminho vastíssimo, com muitos e muitos passos a percorrer, com litros de suor a serem expelidos pela nossa pele, com espinhos e percalços que talvez uma única e limitada vida humana seja incapaz de superar.
Os pobres não desfrutam do ideal de liberdade porque dela estão privados graças às distorções realizadas pela ideologia gerada pelos ricos e massificada e proliferada junto às classes populares. Os ricos são os que estariam mais próximos de gozar as benesses de algo que ao menos se aproxime do conceito de liberdade. Mais, ainda que livres, não se encontram libertos. Criaram uma teia de ganância e obtenção desenfreada de lucros que os impede de vivenciar a plenitude da existência. Dentro do mundo, por hora, não somos livres. Resta-nos a liberdade dentro de nosso mundo, que é a única que temos ao alcance das mãos. Pelo menos por enquanto.

domingo, 15 de março de 2009

Igreja caótica

Depois da excomunhão da mãe e do médico da menina de 9 anos que realizou aborto de seus gêmeos, depois de ser estuprada pelo padrasto, em Pernambuco, a igreja católica bem que poderia mudar seu nome. Igreja caótica cairia bem perante suas posturas absurdas. Detalhe: o padrasto, que estuprava a menina desde os 6 anos dela não foi excomungado. Para piorar, o arcebispo de Olinda e Recife, Dom José Cardoso Sobrinho, deu a mais do que infeliz declaração de que o aborto é mais grave que o estupro.
Muito se discute o aborto, o direito à vida, enfim, aspectos que devem ser mensurados em qualquer avaliação a respeito dos direito da mulher em realizar tal ato. Mas a igreja tomou uma posição absurda. Em defesa de vidas que ainda não existem, queria por em risco a vida de uma menina de nove anos, inocente, abusada por um padrasto canalha. Poder-se-ia discutir quando se dá a vida, se na concepção, no nascimento ou em algum momento intermediário. Minha posição a respeito: se dá no nascimento. Quando uma criança completa um ano de seu nascimento, se diz que ela tem um ano de vida, não um ano e nove meses de vida. Antes, ela é parte componente do corpo da mulher. E a mulher pelo menos em tese, deveria ter plenos direitos sobre seu corpo. De qualquer forma, o aborto só é liberado em alguns casos, como este que estamos tratando. E a igreja tomou uma posição conservadora e machista, indo contra o direito à vida de uma criança que iria gerar outras duas.
O fato é que a igreja católica, tão estagnada, parada no tempo, acumula posições infelizes. Não só em relação ao aborto, mas em outras questões centrais e indiscutíveis nos dias de hoje, como o uso de preservativos. A igreja caótica condena o uso de preservativos em um contexto em que o sexo está tão propagado como a AIDS. A igreja vive seu mundinho ideal, de fantasias, e renega a realidade. Vive sob dogmas inertes, que já não encontram correspondência com o mundo. E tenta, a todo custo, aplicá-los onde já não mais se pode. Onde não mais poderá. É essa soma de dogmas ultrapassados com o descrédito inerente, por exemplo, a casos de pedofilia acobertados, que faz com que o catolicismo vá perdendo seu espaço de forma irrecuperável. Vivemos numa sociedade mais racional. Isso não quer dizer que as religiões acabarão, porque ainda há respostas que a ciência não alcançou, e que muitas pessoas precisam para sobreviver. Mas religiões estagnadas, conservadoras, que não se atualizam e ficam com olhos e narizes voltados ortodoxamente para seus livros empoeirados tendem a perder seu espaço. É esse o caminho que o catolicismo está escolhendo para si.

sábado, 14 de março de 2009

Baixaria

Viva a baixaria! Estamos de volta dos nossos comerciais! Vem cá, ô Feijó, mostra a cara daquele vagabundo que atropelou a velhota! Mostra! Mostra a cara desse safado! Canalha, safado, pilantra! Me deixa falar! Me deixa falar! Esse vagabundo tem que ouvir, doa a quem doer! Diretor, você quer assumir aqui? Eu tenho que defender o povo! Não tô nem aí! Que direitos humanos, o quê? Esses intelectuaizinhos não sabem o que dizem! Viva a baixaria! Mostra agora a cena do estupro, Feijó! Mostra, mostra! É a realidade! Olha o que esse vagabundo fez!
Quem nunca ouviu um discurso demagógico destes na televisão? Estamos realmente num momento de vazio cerebral preocupante. A desgraça dos outros está na pauta do dia. A violência, pessoas drogadas, estupros, tudo isso são resultados de uma estrutura social perversa. Mas estes programas, e alguns jornais impressos, como o Diário Gaúcho, se prestam apenas a focalizar o efeito, e não suas causas.
Tudo isso direciona para a criação de uma sociedade abobalhada, que não consegue distinguir o que é importante e o que não é. Que não consegue vislumbrar as verdadeiras causas das mazelas sociais. O povo não tem tempo pra pensar! Precisam de algo rápido e que não exija raciocínio. Essa é a desculpa para as práticas manipulatórias da televisão e de parte da imprensa escrita. Bundas, mostrem bundas! Bunda é bom. Mas um jornal que objetive ter um mínimo de credibilidade não pode colocar como capa uma bunda. Ou então o esgoto estourado em Viamão. Ou ainda o assassinato de alguém por aí. São fatos ou irrelevantes para a informação do cidadão, ou supervalorizados, tirando a dimensão macro da pauta. Porque se ocorre o assassinato na favela, é por causa da existência de uma estrutura social ampla, de desigualdades, pobreza, corrupção política, fragmentação, desmanche de valores, que propicia tais acontecimentos. Mas o Diário Gaúcho não está nem aí. Mantenha-se o povo castrado da realidade, da profundidade de tudo que acontece. Deixa esse Zé Povinho olhando somente a superfície e sendo submetido ao domínio ideológico das elites.
Esses assuntos podem ser tratados. Tanto as amenidades quanto as micro-realidades. Mas, quando se trata de dar as informações, de ser um veículo cultural, abordar as coisas de forma assimétrica e desproporcional é grave. Porque o que não existe no jornal, não existe para as massas. Formas alternativas de informação são importantes. O primeiro passo para a libertação das pessoas é o acesso à informação e o desenvolvimento da sua capacidade crítica. São estas as principais ferramentas para a ação libertadora.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Vínculos com o passado

Fugir das repetições e dos déjà vus nem sempre é tarefa fácil. Vez por outra, nos encontramos ali, de novo, remoendo o passado, reconstruindo fatos. Ativar a nossa própria memória pode ser algo positivo ou negativo, dependendo de nossas reações àquilo que já foi. E me refiro aqui ao passado enquanto experiência afetiva e individual. Passado enquanto história, hábitos, costumes e sistemas de crença é outra coisa.
Muitas e muitas vezes nos encontramos como prisioneiros de fatos pertencentes ao passado. A força, o torque, a intensidade de tais fatos são fundamentais para a criação dessa ligação, desse vínculo inescapável, que acaba por nos guiar incessantemente, seja no presente, seja no futuro. E os flashbacks vão surgindo, se proliferando, reconstituindo, teleologizando, quase que determinando as ações a nossa frente.
Criar vínculos com o passado pode encorajar ou desencorajar. Pode indignar e estimular nossa capacidade criadora e/ou transformadora. Pode também nos atrsar, provocar refugos, nos estacionar em nossas experiências negativas. O passado é inevitavelmente contaminador, positivo ou não, ele é o que realmente é dado, o que realmente é fato, mas ao mesmo tempo é presente, permanentemente mastigado.
E o passado, além de presente, pode se tornar futuro. Um passado agudamente vivido pode endurecer o espírito humano. É uma tendência nos protegermos daquilo que faz mal. O passado pode ser a experimentação mesma do mal. Do nosso próprio mal, fique claro. Sendo uma experiência que gera certo grau de dor, o passado adestra os instintos. Cria-se uma razão da não-dor.
Em última análise, esta racionalidade congelada que os eventos passados podem criar (quase) nada tem de racional. Porque é uma razão dura, não moldável a panoramas e circunstâncias diversos. E uma razão no sentido mais detalhado da palavra presume adaptações, análises e revisões permanentes de como agir em determinados contextos.
O passado enquanto experiência individual deve ser utilizado com moderação quando tratamos do devir. Muito justo, muito correto, muito claro. Mas, como operacionalizar e medir o quanto devemos utilizar o nosso passado como manual prático, se ele é tão ligado à dimensão afetiva, incapaz de aplicar fórmulas de maneira fria? Não sei, muito provavelmente seja utópico. Mas talvez seja necessário.

quinta-feira, 12 de março de 2009

O passado não é um lixo

Há uma hipocrisia reinante por aí. Confesso, ando com nojo. Nojo das escolhas estúpidas. Nojo do egoísmo. Nojo da falta de reflexão. Nojo dos joguinhos e manipulações. Nojo da pseudo-autenticidade. Nojo de uma liberalidade que por vezes é perversa e asquerosa.
Estamos em uma era do quanto pior, melhor. É a pós-modernidade da exaltação ao nada e ao lixo. Tudo vale. Nada é concreto. Nada é de verdade. Todas as coisas são dinâmicas. Viva o novo! O passado possui muitos aspectos negativos, que devem ser substituídos, mudados para melhor. Disso não tenho dúvidas. Mas o que se está fazendo, na prática, com o passado, é amassá-lo, fazê-lo de bolinha e jogá-lo no lixo. Em troca de nada. Em uma troca pelo nada. E o passado também possui coisas positivas, que deveriam ser mantidas. O passado possui um certo romantismo, o passado possui uma certa pureza, meio safada, meio ingênua, e por essa dubiedade, um tanto atraente.
Os dias de hoje são de um escancaramento (i) moral sujo, mesquinho. Liberdade não é sinônimo de vulgaridade. E tudo é vulgarizado, em nome de uma nova moral desprovida de qualquer base normativa. A sociedade está ficando meio que debilóide, retardada. A racionalidade humana vai sendo trocada por uma animalesca satisfação de vontades. Claro que satisfazer-se é bom. Desde que feito de uma maneira minimamente romântica, um pouco teatral, até.
Estamos virando, progressivamente, animais irracionais. Alguns dos valores mais nobres da humanidade, como honestidade, lealdade, amor, solidariedade, vão ficando melacolicamente esquecidos em algum porão empoeirado, sem nostalgia, como meras barreiras que impediam a satisfação humana, vista como finalidade última e implacável.
Minha intenção aqui não é ser moralista. Apenas acho que ser humano está virando uma banalidade, sem graça, sem o desafiante e muitas vezes doce desvendamento do oculto. Claro, avanços devem acontecer, e são muito bem-vindos. Mas tudo deve manter um certo limite, uma certa graça, um certo flerte entre o sujeito e suas vontades. Seres humanos precisam ser um pouco estimulados a fazer algo, a encontrar brechas, atalhos, possibilidades, que possam ir além da truculenta e impensada ação. Do contrário, voltaremos, tristemente, ao desafio de se descobrir o fogo e redescobrir a essência humana.

terça-feira, 10 de março de 2009

Sem dó

Esperava-se um jogo de relativa tranquilidade para o Inter frente ao Brasil de Pelotas. O fato é que foi fácil demais. A expulsão no início do jogo ajudou a desgastar o já raquítico time pelotense. Mas a expulsão foi justíssima, o xavante entrou em campo meio destemperado, desesperado, cometendo muitas e duras faltas. E o Inter não teve dó. Jogou tudo que sabe, buscou os gols incessantemente, obsessivamente, e aplicou um sonoro 7 a 0. No Bento Freitas! E respeitou o adversário da maneira mais nobre: jogando tudo que sabe. Assim é o futebol. Peninha, piedade, são coisas inexistentes, e indesejáveis. Muito mais humilhante seria a sensação de que o adversário teve pena, que só não fez mais porque não quis. Respeito muito o momento triste que o xavante passa. Mas estou muito feliz com a postura vencedora e grande que o Inter apresentou em campo.
Esse tipo de jogo é absolutamente atípico. O Inter amassou o time de Pelotas, criou inúmeras chances, a ponto de o goleiro Luiz Carlos ter sido a melhor figura do Brasil, mesmo sofrendo 7 gols. Encheu os olhos a atuação colorada. Passes certos, muita marcação, intensa movimentação. O Inter demarcou bem a diferença entre as equipes. Em relação às individualidades, vou me ater a dois jogadores que são sérios postulantes a vaga no time titular. Andrezinho pede passagem, vem jogando muito. Mesmo assim, não acredito que ele deva ser titular, pelo menos por enquanto. O trio de volantes vem bem, e portanto não deve ser mexido. E D'alessandro é um extra-classe, coisa que Andrezinho não é, e por isso, não deve sair, sob hipótese alguma. Outro destaque foi o centroavante Alecsandro. Entrou muitíssimo bem, fez gol, deu assistência, tem muita presença de área, é inteligente. Trata-se da figura do centroavante, tão fundamental para fazer o que de mais importante há no futebol: gols. Alecsandro seria o nosso "fazedor de gols". Quem sairia para sua entrada? Na minha opinião, modesta e talvez polêmica, Taison seria o candidato. Nilmar se enquadra no exemplo de D'alessandro: é extra-classe. Está perdendo muitos gols, mas é inegável que se trata de um jogador acima da média. Taison, por sua vez, SERÁ um extra-classe. Mas ainda não é. Pode muito bem ser uma alternativa de luxo, junto com Andrezinho.
O importante é que temos grupo. Uma coisa é inevitável: seja qual for a escalação, grandes jogadores ficarão no banco. E isso é bom, para quem não prega uma pobreza franciscana no futebol, desde que as vaidades sejam bem administradas. Quanto mais jogadores bons tivermos, melhor. Assim, se ocorre algum aperto ou alguma lesão, sabemos que não ficaremos nas mãos (ou pés) de perebas comprometedoras. O Inter caminha inabalavelmente para o título gaúcho. É um bom começo, o cumprimento de uma obrigação, a passagem pelo primeiro teste em um ano em que voos maiores serão alçados.

Indignação

Indignar-se é quase uma arte espontânea. A indignação não pode ser pré-fabricada, enlatada, não pode surgir artificialmente, porque nesses casos, torna-se demagógica, forçada, e perde sua essência. A indignação é genuína por definição. A beleza da indignaçã0, e o bem que faz indignar-se e manifestar este sentimento, são inigualáveis. Vez por outra, a indignação é uma necessidade humana.
A vida reserva sempre suas porradinhas. Nem sempre elas são tão doloridas quando consideradas isoladamente. Mas, no conjunto da obra, geram uma ou outra explosão. Aí está a tal da indignação. E, engana-se redondamente quem pensa que indignação é somente grito, escândalo, barraco ou estardalhaço. Essas são apenas algumas das facetas da indignação, facetas que, por sinal, não me atraem. Mas a indignação pode ser muito mais prática. A indignação praticada em gestos é a mais interessante. Porque ela não precisa autodeclarar-se: "eu sou a indignação". Ela simplesmente é. Seca, direta, precisa e objetiva. A indignação pode ser pragmática.
A indignação é a manifestação de contrariedade com algo que está errado, e que é desgastante. Uma sequência de pequenas coisas incômodas, em algum prazo, que é relativo e difícil de prever, tende a desembocar numa sanguineamente verdadeira indignação. Esse ato, que demarca um limite psicológico do sujeito, pode ter duas funções ou consequências: mudar o estado atual das coisas, ou criar um novo estado de coisas. O primeiro caso é aquele em que o sujeito acredita haver reversibilidade por dentro do contexto em que está inserido. É uma indignação transformadora. O segundo caso é o bom e velho "chutar o balde". É quando se desiste de mudar algo, se joga tudo pro alto, e se busca um novo caminho. É uma indignação renovadora.
Ambos os tipos são positivos, porque são um extravasamento que por muitas vezes é necessário, até mesmo para a manutenção de nossa saúde mental. Indignar-se é querer mais, é não se acomodar, é tentar ser feliz, em última análise. Então, tudo que posso aconselhar é: indigne-se de vez em quando. Faz bem.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Educação e individualismo

Alguns debates acadêmicos proporcionam momentos de reflexão importantes, interessantes, instigantes. Hoje presenciei, em uma das cadeiras, um debate acerca da educação, do "como fazer". Alguns pontos realmente merecem uma avaliação mais ampla. Não tenho o intuito de propor dogmas, mas apenas de pensar sobre esses aspectos.
Primeiramente, veio à tona, e até mesmo é questionada, a centralidade da educação para se fazer uma mudança de vida das crianças de periferia. O argumento para tais contestações reside no fato de que o indivíduo é que faz sua vida, não a sua educação. Nessas horas, utilizam-se alguns exemplos, com destaque para Lula, caso sempre citado, por mim, inclusive. Mas o que deve ficar claro é que esses casos são exceções das exceções. Um discurso que remeta a um individualismo exarcebado é absolutamente deletério e legitimador de desigualdades de tratamento entre classes. Afinal, nessas horas inclusive a classe torna-se elemento secundário.
Daí, surgem, também, radicalizações do tipo "qual o problema de se transgredir? Faça tudo que quiser." A questão é que na prática não é assim que as coisas funcionam. Uma sociedade em que não se cumpra regras mínimas, aceitas pela ampla maioria dos cidadãos, é utópica, e jamais vai existir. Porque para se viver em sociedade, e civilizadamente, tem de haver uma base regulamentar mínima. O que pode ser questionado é QUAIS são essas regras. Mas o que se deve ter claro é que tal conjunto de regras deve ser minimamente consensual, e aceito, por consequência, pela maior parte dos sujeitos. Disso não se pode fugir. Querer estabelecer regras alternativas e minoritárias é impossível, chegando a ser uma estupidez antidemocrática.
Voltando ao início da discussão: a educação é, sim, fundamental para o desenvolvimento de bons cidadãos. A forma como ela é realizada é que muitas vezes não surte efeitos maiores. Preliminarmente, acredito que se deva partir de uma base comum, que seja aplicável à maioria e estimulante. Feito isso, deve-se partir para as individualidades, porque, de fato, nem todos vão gostar das mesmas coisas e desenvolver os mesmos talentos e potencialidades. Mas um parâmetro minimamente comunal é indispensável para se dar um chão às atividades educativas que venham a ser desempenhadas. Talvez o grande lance seja não se limitar a este patamar inicial, fazer as coisas se desenvolverem de forma a abranger, factualmente, a esmagadora maioria. Acreditar em vias diferentes da educação para se mudar a vida de crianças em situação de risco é pensamento mágico. E pensamentos mágicos geralmente não se aplicam na prática.

domingo, 8 de março de 2009

Mulheres

Hoje é o dia delas. O Dia Internacional da Mulher, carregado de simbolismo, é uma justificada homenagem àquelas que são indispensáveis para a vida dos homens. E que ganham, crescentemente, espaço em todos os campos. Se antigamente as mulheres ficavam limitadas aos serviços domésticos (que, por sinal, são duros), hoje elas são progressivamente mais completas. Trabalham, são mães, esposas, amigas. Ainda sofrem diversos preconceitos, e tem uma longa caminhada na busca de se igualarem, principalmente no trabalho, onde geralmente ganham menos do que os homens para desempenhar funções semelhantes. Mas, mais do que falar de aspectos políticos e econômicos, quero ressaltar a importância das mulheres para tentar fazer de nós, homens, menos malucos, talvez mais centrados. Claro, há mulheres e mulheres. Há Carlas Perez e Pittys; há Yedas e Heloísas Helenas. Mas, de uma maneira geral, elas dão uma cor bela para a vida dos sujeitos detentores do brinquedinho de armar. São lindas. Sim, nelas encontramos uma inspiração divina, que nos faz suportar tantas e tantas tempestades que a vida arma.
A beleza e a doçura femininas fazem os dias mais suportáveis. Nada como um gostoso beijo, um abraço, um sentir de corpo de uma mulher da qual gostamos. Elas tem o seu lado devasso, seu lado safado, e espero que, em nome de uma desobjetificação feminina, não percam esse elemento. Ah, um sorriso malicioso feminino! Ou o cheiro gostoso, o beijo no pescoço de uma boquinha de mulher, como isso é bom. Não as vejo como simples pedaços de carne. Mas, que o lado sedutor do sexo feminino é um diferencial incrível, isso é. E a maioria delas não perde a sua essência, o seu ser mulher. Elas xingam, tem personalidade, descem do salto quando precisam. Mas não perdem a sua deliciosidade (se é que esta palavra existe no dicionário de português). É por isso que eu amo as mulheres. A todas, um feliz Dia da Mulher!

sábado, 7 de março de 2009

Detectores

O caso ocorrido com a doméstica Doralice, que eu estava lendo no site globo.com, é kafkiano. A senhora teve de tirar a blusa pra passar na porta giratória de uma agência do Banco do Brasil, em Jundiaí, São Paulo. Foi desrespeitada pelos seguranças e bur(r)ocratas funcionários do banco. Tirou todos os objetos metálicos da bolsa, e mesmo assim, foi obrigada a despir-se na parte de cima.
Eu tenho sérias dúvidas sobre essas portas com detector de metais. Sou usuário do Banco do Brasil, então falo com algum conhecimento de causa. Vou com minha mochila e os mesmos objetos a duas agências diferentes. Sempre retiro tudo que há de metal (chave e celular) e já deixo no compartimeno adequado. Em uma das agências, sempre passo tranquilamente. Na outra, invariavelmente sou barrado, a ponto de ter que abrir a mochila e mostrar tudo que tem dentro dela, como se fosse um bandido. E os seguranças já conhecem bem a minha cara. Mesmo assim, sou barrado sempre. Engraçado é que assaltantes armados essas portas não detectam! Somente velhinhas e jovens estudantes!
Na verdade, eu acho que não tem rigorosamente nada de detector de metais. Não posso afirmar categoricamente, mas os indícios apontam que o que ocorre, de fato, é que os seguranças julgam pela roupa, ou por algum outro critério subjetivo, e barram ou deixam as pessoas passarem a seu bel-prazer. Os usuários que se danem. A filha de Doralice filmou tudo com o celular. Que bom! Torço, do fundo do coração, que entre na justiça, e dê um belo tufo no Banco do Brasil, por danos morais. Talvez assim o procedimento seja um pouco mais respeitoso com os clientes. E, talvez, quem sabe, o banco pode até resolver colocar portas giratórias que realmente funcionem!

sexta-feira, 6 de março de 2009

Garganta

Não adianta. Hoje não estou animado para escrever. Achar assunto quando se está com a garganta arrebentada, como estou, é difícil demais. A vontade resume-se a dormir bem e acordar plenamente recuperado.
Dor de garganta é um troço incômodo. Nos últimos dias, não tive muita sorte no quesito "estar 100% fisicamente". Durante a semana, estive com o bom e velho "churrio". Quando as questões intestinais se resolveram, a garganta resolveu incomodar. Estou engolindo giletes. Essa é a convicção que tenho.
Mas tudo vai melhorar e terei um fim de semana bem bom. Essa é a expectativa do momento. E como é importante a tal de saúde. Só vemos mesmo como ela é maravilhosa e imprescindível quando estamos debilitados. Hoje em dia, valorizo mais as vezes que estou bem, sem dores, sem nada. Me lembro de bocados nem um pouco bons, infecções de garganta, lesões no pescoço, no tornozelo, e daí valorizo os momentos em que estou pleno... É muito bom estar bem. E amanhã estarei.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Sufoco

Foi no sufoco. Mas o Inter fez o que tinha que fazer. Eliminou o União Rondonópolis, no Beira-Rio. Agora, pensa no Guarani de Campinas. Jogo duro. O Inter vai pegar um time limitado tecnicamente, mas que tem tradição. Vai ter que jogar mais do que jogou contra o time do Mato Grosso.
No jogo de ontem, a coisa começou errada na não escalação de Sandro. Jogando com dois segundos volantes, sem um cara da primeira função, o meio de campo do Inter fica perdidinho. No segundo tempo, Tite, aí sim, na necessidade de buscar gols, colocou Giuliano no lugar de Andrezinho. O garoto não foi bem, errou praticamente tudo que tentou. De positivo, fica o fato de que não se omitiu, assim como D'alessandro, que foi mal tecnicamente mas se dedicou bastante ao jogo. A pressão do Inter, partindo pra cima do União Rondonópolis surtiu efeito, com dois gols: um de Índio, o zagueiro artilheiro, e outro de Alecsandro, com muito oportunismo e mostrando que pode ser uma alternativa muito interessante. No final do jogo, mais sufoco, o Rondonópolis batendo faltas e escanteios com perigo, e a defesa tirando do jeito que dava. Mas o desfecho foi feliz para a nação colorada.
Continuamos na Copa do Brasil. Sempre digo que não tenho muito gosto por essa competição. Mas vale uma taça. Vale uma vaga na próxima Libertadores. Por isso, é a competição mais importante do momento para o Inter. E, para ganhá-la, é importante que se tenha em campo uma escalação mais racional do que a que entrou em campo ontem. A volta de Sandro no meio campo seria um bom começo...

quarta-feira, 4 de março de 2009

Descontinuidade

Hoje o Inter entra em campo para fazer o óbvio, nada mais que o óbvio: ganhar do União Rondonópolis por dois gols de diferença e garantir vaga na próxima fase da Copa do Brasil. O Inter vai passar, não consigo imaginar nada diferente, com qualquer que seja a escalação que entre em campo. Mesmo assim, sou contra a retirada de Sandro do time para a colocação de Andrezinho. Nada contra Andrezinho. Vem sendo muito importante sempre que entra em campo, ligado, presente nas jogadas. Mas a saída de Sandro desestrutura o meio-campo do Inter. E olha que aqui fala alguém que durante algum tempo defendeu que não era necessário um primeiro volante de ofício para o time.
A verdade é que Guiñazu e Magrão, que se destacam por sua dinâmica e movimentação, tanto ofensiva quanto defensiva, no meio, ficam presos, tímidos com essa estrutura tática, perdendo o que ambos tem de melhor. Sandro dá sustentação para que os outros dois volantes possam se movimentar na marcação e chegar ao ataque, sem deixar a defesa em apuros. Ainda por cima, está jogando o fino da bola. A pergunta que faço é a seguinte: Tite pretende estruturar o time da maneira que vai jogar hoje, ou a escalação é específica para a partida contra o União Rondonópolis?
Seja qual for a resposta, discordo frontalmente da postura adotada por Adenor. No primeiro caso, porque, se não vai comprometer hoje, mais cedo ou mais tarde essa escalação vai comprometer, sim, contra equipes que tenham mais velocidade e poder de penetração. No segundo caso, discordo porque não acredito que o Inter deva mudar sua forma de jogar, deixar de dar continuidade e entrosamento ao sistema tático preferencial, para enfrentar o esforçado time de Rondonópolis. Repito: seja com qual escalação que o Inter venha a jogar, vai passar pelo time mato-grossense. Prefiro que entrose a equipe, prepare-a para diferentes situações, quando tenha que atacar ou quando tenha que contra-atacar. O negócio agora é torcer para que dê certo, que essa decisão não tenha efeitos nefastos na continuidade da equipe na temporada. E vamo que vamo pra cima deles!

terça-feira, 3 de março de 2009

Transporte público

O início de fato do ano realmente se dá após o carnaval. Pode parecer clichê, mas é a mais pura verdade. A molecada volta para o colégio, o centro da cidade fica mais intensamente frequentado, os veraneios ficam guardados na memória da câmera fotográfica e os ônibus lotam. Alguns lotam mais. Um exemplo é a linha T10, da Carris.
É o ônibus que leva o pessoal da zona norte para o Campus do Vale, da UFRGS. E é um exemplo absurdo de descaso do poder público com as pessoas. Esta linha, nos horários de pico, não lota: super-hiper-ultra lota. É quase surreal. Simplesmente não há espaço, as pessoas ficam amontoadas feito bichos, lutando por um centímetro a mais no piso do ônibus.
O T10, pra agravar a situação, possui uma periodicidade bem elástica, de cerca de 20 minutos. Durante o dia, nos horários "normais", realmente não há uma grande demanda, e por isso até se justificam os 20 minutos. Mas nos horários de pico, a demanda é enorme, para poucos ônibus. Nestes horários, a Carris poderia, sim, colocar mais ônibus da linha a circular. Algumas pessoas xingam cobradores, motoristas, até mesmo outros usuários, quando o alvo deve ser os empresários do transporte porto-alegrense, que na hora de empilhar reajustes de preço nas passagens estão sempre atentos, mas quando o negócio é fazer o transporte valer o preço absurdo que se paga, dão de ombros como se não fosse com eles. Não se exige nada demais quando se reclama do descaso com a linha. É um direito nosso, enquanto cidadãos, de exigir não um lugar para sentar, nem chego a tanto, mas sim dignidade. Pagamos pelas passagens. As empresas não estão fazendo nenhum favor. Estão prestando um serviço, que como tal, deve ser de qualidade máxima no atendimento.
Somos tratados como lixos, como animais amontoados no ônibus, sem o mínimo de respeito e consideração do empresariado do transporte. Covardemente, eles até dão a entender, muitas vezes, que a "culpa" da falta de qualidade do transporte é da meia passagem paga pelos estudantes, o que é um argumento covarde e absurdo. A verdade é que, se na média o transporte público tem alguma qualidade, nas linhas periféricas essa qualidade cai muito, em contraponto à alta qualidade no serviço prestado nas linhas de bairros nobres. O tufo é invariavelmente levado por quem menos tem. E os empresários do transporte, que tanto apregoam a qualidade e a eficiência de suas empresas, devem estar andando por aí com seus carrinhos importados.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Mais uma vez

Já está virando rotina. Uma deliciosa rotina. O Inter venceu mais um Gre-Nal. Novidade? Nenhuma. Previsível e óbvia vitória vermelha. Esperado como o amanhecer do dia seguinte, como o ônibus de periferia lotado numa segunda-feira às 7 da manhã, como as Videocassetadas no programa do Faustão, ou como o gozo ao final de uma transa inesquecível. A vitória era esperada naturalmente pela nação colorada, com todo o respeito aos tradicionais rivais. Assim vem sendo nos últimos anos. Assim é denunciado quando se analisa a constrangedora disparidade técnica entre os dois times.
Claro, a arrogância tricolor não dá o braço a torcer. Esperneiam contra tudo, e, ao perder, minimizam tudo como se nada fosse com eles. Quase como um "ah, eu deixei", de um moleque de 12 anos que perde uma partida de futebol Gulliver. Mas o fato é que o Grêmio mesmo sabe que hoje está em um inferno astral. E sabe que hoje é muito menos do que o Inter em campo, tanto em termos técnicos como em termos de resultados. Talvez seja um castigo merecido para quem, ao longo de alguns anos arrotou superioridade quando ganhava títulos observado por um rival em estado de penúria.
Hoje o Inter cobra uma dívida cármica do Grêmio. O Grêmio ajudou a cavar o que passa hoje, com uma postura mesquinha de quem não sabe que a Terra gira, e que a vida é uma roda gigante. E, pra desespero tricolor, o Inter ganha e não deixa de ser Inter. Mantém um inevitável sorriso, um pouco maroto, como que puxando pela memória tudo que foi dito, coisas como "vocês nunca vão ganhar nada", "de internacional, só o nome", "fora do país ninguém nunca ouviu falar de vocês". Mas jamais sem esquecer suas raízes e tudo pelo que passou. Jamais pisando em quem está por baixo. Rindo e se deleitando, sim, mas sem esquecer o quão custoso foi chegar ao nível que chegou. Sabendo que falácias como "nada pode ser maior" jamais colarão pra nós, porque o Inter quer sempre mais. Porque no futebol se está permanentemente sujeito ao revés, a uma maré não tão boa assim, e por isso é absolutamente inútil autodeclarar-se invencível e vomitar arrogância em cima de quem está mal. O Inter ESTÁ num momento iluminado. Mas não é por decreto, por frases de efeito tipo baboseira, com salto alto e empáfia que se manterá nele. Só com luta, humildade e pés no chão a bonança perdurará. O Inter sabe. E aprendeu olhando para o vizinho.

domingo, 1 de março de 2009

Taça Fernando Carvalho

Hoje ocorre o Gre-Nal que decidirá a Taça Fernando Carvalho, primeiro turno do Gauchão. Tem tudo para ser um clássico eletrizante. Do lado azul, pra variar um pouco, muita bobagem está sendo dita, principalmente pelo técnico Celso Não-ganho-nada Roth. Mas a verdade mesmo é que o Grêmio tá louco por ganhar um Gre-Nal. Tanto que vai ao clássico com força máxima.
Do lado do Inter, o desfalque de D'alessandro é pesado. Mas entra Andrezinho, não tão brilhante, mas extremamente eficiente sempre que entra na equipe. E Gre-Nal é jogo de doação máxima. Kléber, tendo isso na cabeça, e jogando tudo que sabe, também pode fazer a diferença. Ainda tem atuações preguiçosas em campo, e precisa acordar, até mesmo porque Marcelo Cordeiro tá de olho na vaguinha do flanco esquerdo.
Certo mesmo é que teremos um grande jogo. Não tem como ser diferente. Trata-se de um dos maiores clássicos do planeta. Nem sempre técnico, nem sempre brilhante. Mas sempre emocionante. Quando a camisa vermelha e a camisa tricolor ficam frente a frente, uma espécie de eletricidade nervosa espalha-se pelo Rio Grande do Sul. E assim será, mais uma vez.