segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Dois times

Há dois times que dividem o Rio Grande do Sul, e sua capital, Porto Alegre. Desde 1909, encontram-se pelos gramados da vida. Renegados por um time, os jovens ousados irmãos Poppe resolveram montar seu próprio time. E estava escrito nas estrelas: o maior rival haveria de ser aquele que os renegara. Assim foi. O primeiro duelo proporcionou um 10 a 0 esperado. Nada surpreendente. Seria estranho se um time que jogava há 6 anos junto tivesse algum tipo de problema pra vencer o recém criado rival, inexperiente e ainda aprendendo o jogo da bola. JustificarCom o passar dos anos, aquele time vermelho e branco começou a se afirmar no cenário do futebol gaúcho. Veio o rolo compressor, que marcou época. Depois os áureos anos 70, mandando no futebol brasileiro, tri-campeão. Ali, começava a surgir um certo recalque tricolor, que até então não era absolutamente nada em nível nacional, e via o vizinho brilhando em todas as capas, em todas as manchetes.
Os anos 80 reservaram algumas viradas. Claro, houve Gre-Nal do Século, houve Taça Joan Gamper conquistada em confrontos contra o Barcelona e o Manchester, em pleno Nou Camp. Mas a década foi mais azul. O time da Azenha conquistou um título brasileiro, uma Libertadores, e uma Copa Intercontinental. Foi o estopim da criação de um monstro. A arrogância e a vaidade tricolores foram acesas. Tantas surras nas décadas anteriores foi compensada com um "se achar" meio ridículo, meio patético, por parte do tricolor.
Nos anos 90, mais títulos tricolores proliferavam, depois de uma passagem constrangedora pelo submundo da Segunda Divisão nacional, enquanto o colorado amargava uma fase de vacas magras, vacas anoréxicas, em que tudo que se comemorou foram alguns Gauchões e uma insossa Copa do Brasil, copa propícia para conquistas de times pequenos, e que não tem a dimensão do Sport Club Internacional. E o ego tricolor inflava, e inflava, e inflava. Tamanho ego gerava um pisar nos outros sem precedentes. Não era fácil ser colorado nos anos 90. E, como se o mar de rosas fosse perdurar ad infinitum, o time da Azenha arrotava uma superioridade desproporcional aos fatos históricos.
Aqui se faz, aqui se paga. Nos anos 2000, começou um calvário sem precedentes para o time tricolor. Foi rebaixado fiasquentamente, lanterna confirmado e carimbado com rodadas de antecedência. Depois tentaram transformar a vergonha da passagem por uma Série B em algo épico. E o colorado retomava o crescimento, reconquistava a hegemonnia regional, voltava a figurar em competições sul-americanas, teve um vice campeonato brasileiro que só foi vice graças a uma manobra escandalosamente descarada. E em 2006, o colorado conquistou América, conquistou Mundo. 2007 reservou uma Recopa Sul-Americana, depois em 2008 veio uma Copa Dubai, e ainda uma Copa Sul-Americana. E os confrontos diretos dos dois reservam surras, e surras, e mais surras aplicadas pelo lado vermelho. E os azuis penam, sofrem, choram, esperneiam, e não abrem mão de sua empáfia característica e ridícula. Mas eles sabem, no fundo, a dor que sentem. Eles sentem o orgulho ferido, arranhado, dilacerado, embora tentem externar uma grandeza e uma superioridade que eles próprios, nos recôncavos da alma, sabem inexistir, e, até pelo contrário, vem sendo provada dia após dia no campo, ser objeto de pertença do colorado. E o colorado, humilde, não sai por aí autoafirmando-se contra eles. Não nos importa sermos maiores do que eles. Já faz algum tempo que abandonamos esse parâmetro. Queremos ser os maiores, simples assim. Sem humilhar ninguém, sem pisar em ninguém. Apenas curtindo nossas alegrias e rindo, gostosamente, dos rostinhos frustradinhos de setores tricolores, do tipo mamãe-não-deixa-eles-ganharem-de-novo-porque-somos-imortais-e-nada-pode-ser-maior-aiiiinhê. Afinal, ganhamos, mais uma vez.

Nenhum comentário: