quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Falta pouco para 2010

Pois bem, caros leitores do DC, o ano de 2009 está de partida. Este, inclusive, é o último texto do ano por aqui, uma vez que esta tarde viajo para o litoral gaúcho com o intuito de recarregar um pouco as baterias, tomar umas biritas, e curtir o reveillon. Volto no dia 2 de janeiro. É 2010 na área!

Reflitamos, amigos, isso é fundamental. Façamos um balanço de tudo o que foi feito nesse ano. De certo e de errado. De sucesso e de frustração. Assim é a vida, e nada como a demarcação de um novo ano para que se faça toda essa "retrospectiva" com vistas a construir um 2010 ainda melhor do que foi 2009.

Mas, acima de tudo, agora, o negócio é curtir a virada do ano, tomar umas cervejas, comer tudo o que se tem direito, e comemorar, aproveitar. Muito. O único inconveniente do ano novo é a sacal corrida de São Silvestre. Que negócio mais sem sentido! Não chega nem a ser uma maratona! É um monte de cara que eu nunca (ou quase nunca) vi na vida, correndo, correndo, correndo, correndo, com uma musiquinha chata de fundo, em busca de uma vitória que dá uma grana e uma semana de matérias no Globo Esporte.

Aliás, já é de praxe: se o vencedor da São Silvestre for brasileiro, vai encher os tubos até que não suportemos mais olhar para a cara dele (e, para isso, não precisa mais do que dois dias), vai ter matéria do sujeito voltando para sua cidade, algo que geralmente é tipo Cabobó do Norte, e desfilando no carro de bombeiros para umas sete pessoas ficarem acenando. E no dia 10 de janeiro, ninguém mais vai lembrar nem do nome do vivente.

Porém, APESAR da São Silvestre, desejo a todos um feliz ano novo, cheio de alegrias, realizações, saúde e paz. Nem sempre tudo dá certo. É da vida. Mas que as coisas melhorem para todos, pelo menos nos aspectos mais urgentes. Um grande abraço! Até 2010!

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Chatos de ônibus

Há uma figura nefasta que, vez por outra, aparece nos ônibus da cidade. Aliás, das cidades. O chato do ônibus é um sujeito universal. Existe em Porto Alegre, em Belo Horizonte, em Natal e em Itapipoca.

Ele chega sempre muito feliz e disposto. Muita gente no ônibus já o conhece. Mas ninguém queria conhecê-lo. Algumas vezes ele liga seu radinho em alguma estação bem vagabunda, dessas que só tocam música ruim, e jura que está abafando.

Ah, e coitado do vivente que tiver a infelicidade de compartilhar o banco do ônibus com ele. Esse tipo de gente tem a capacidade de falar durante uma viagem inteira sobre todas as coisas desinteressantes da sua vida como se aquilo fizesse uma diferença monstruosa na vida do ouvinte.

O chato do ônibus não percebe que não está agradando. Ou talvez finja que não percebe, mas continua pelo mais puro prazer sádico. E não adianta nada o interlocutor fazer de tudo para subliminarmente mostrar que o chato é chato. Olhar para a janela com ar desinteressado? Não adianta. Só concordar e dizer "ahã"? Menos ainda.

E a maior desgraça que pode acontecer, com efeitos verdadeiramente devastadores, e que é capaz de fazer o chato do ônibus até mesmo sair conversando com você inclusive na rua, ao sair do coletivo, é emendar uma frase, QUALQUER QUE SEJA, ao "ahã". Aí, caro leitor, você estará solenemente ferrado. E digo mais: nesse caso reze, reze muito, reze fervorosamente, e com todas as suas forças, para não dar de cara de novo com o chato do ônibus. Ele vai querer ser seu padrinho de casamento!

Solução para o chato do ônibus? Até há. Mas é delicada e deveras drástica. A única esperança de se dar um jeito no chato do ônibus é a franqueza absoluta. E é algo difícil. Só mesmo falando: "cara, você é chato! Não vê que não me interessam nem um pouco as merdas que você fala e as pequenas mesquinhezes da sua vida?". Daí, quem sabe, talvez, ele se flagre e tome o prumo de suas ações. Mas esse tipo de sinceridade é algo que ainda não pratiquei. Magoar as pessoas, definitivamente, não é algo legal.

Às vezes, o mais cômodo, para todas as partes, é que se mantenha um sorrisinho de canto de boca. E torcer para não cruzar com ele, o abominável chato do ônibus.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

O reforço espetacular

O site Clicrbs insiste que o tal reforço espetacular prometido por Fernando Carvalho é Wilson Mathias, que está vindo do Monarcas Morelia, do México. Me recuso a acreditar nisso.

Não tenho nada contra o volante vindo do futebol mexicano. Para mim, é um ilustríssimo desconhecido. Por isso, não posso julgá-lo nem para o bem, nem para o mal. No entanto, uma certeza eu tenho: não é um reforço espetacular. Pode vir a ser ao longo de 2010. Mas hoje, 28 de dezembro de 2009, Wilson Mathias não o é.

Se quando Carvalho falou do reforço espetacular ele se referia realmente ao jogador do Morelia, que me desculpe o presidente Campeão do Mundo, mas é caso de internação. Primeiro, por toda a expectativa que foi gerada na torcida com a bombástica declaração. Segundo, porque o Inter tem uma Taça Libertadores da América pela frente, e pelo menos no discurso da direção, objetiva o bicampeonato. Ora, um time que quer ser Campeão da Libertadores não pode ter um discurso tão tacanho a ponto de considerar Wilson Mathias um grande reforço. Repito: ele pode vir a sê-lo. Mas terá que provar isso.

Por isso, sigo aguardando o reforço espetacular de Fernando Carvalho. Um Sóbis, um Fred, um Verón, um Tinga... Estes sim seriam reforços de impacto, verdadeiramente espetaculares. Jogadores que já chegariam nos braços da torcida, fardariam e sairiam jogando. Wilson Mathias, a princípio, é coadjuvante. Faltam os atores principais.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Deus odeia Lady Gaga (?)

No site on line da Folha, noticia-se que uma igreja estadunidense ultraconservadora emitiu um documento afirmando que a cantora pop Lady Gaga vai para o inferno, que ela lidera uma "rebelião contra Deus", e que o mesmo Deus a odeia.

Com todo o respeito que me merece todo o tipo de crença, quero deixar clara a minha opinião a respeito: é uma irresponsabilidade absurda uma igreja, que se diz de Deus, e que apregoa uma série de valores considerados "do bem", chegar a público e afirmar que Deus odeia fulano ou beltrano. Tão doentios como os idiotas que escreveram essa baboseira podem ser alguns fiéis da mesma igreja, fanáticos cegos que podem, incentivados por esse tipo de declaração de suas lideranças, vir inclusive a atentar contra a integridade física da cantora. E convenhamos: malucos fanáticos agredindo e por vezes até assassinando pessoas por serem diferentes do que pregam suas doutrinas ortodoxas não seria exatamente um fato inédito.

As pessoas tem liberdade de crença. Se quiserem acreditar que o Tiririca é a reencarnação de Cristo, acreditem, pombas! O que é de enlouquecer é o fanatismo exacerbado, o verdadeiro fundamentalismo de determinadas igrejas que se julgam as portadoras absolutas Da Verdade, e que não aceitam que há pessoas (muitas, e muitas, e muitas, por sinal) que pensam diferente.

Embebidos na fantasia doentia de algumas religiões, determinados sujeitos perdem toda a referência do racional, do bom senso. Fogem da realidade, não veem tv, não ouvem rádio, não saem para a rua. Eita Deus proibitivo, mala e rancoroso esse, henhô Batista?

Essas pessoas podem acreditar no absurdo que quiserem. Ponto. Mas não tem o direito de proibir os outros de discordar e pensar diferente. Nem melhor, nem pior. Simplesmente diferente. Do jeito que vão, algumas doutrinas ainda me farão achar que Deus na verdade é um skinhead nazista.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Ressurreição

Estou neste exato momento ouvindo "Heart-shaped box", uma das grandes músicas da trajetória do Nirvana. Por sorte, o espírito grunge, aos poucos, tem voltado a ocupar algum espaço no cenário musical internacional. Pode ser, amigos, que aí resida uma esperança de salvação do rock.

Não que não haja coisas boas no rock anos 2000. Nada na vida é tão desgracento. Bandas como Audioslave, Strokes e Kaiser Chiefs merecem respeito. Entretanto, parecem não ter suficiente carisma e explosão. Dessa forma, fato é que o rock aparece, principalmente nos últimos anos, como um triste e melancólico moribundo na UTI. Muito lixo tomou conta do cenário, principalmente com a emergência do gênero emo, que trouxe consigo uma espécie de ode a melodias pobres, vocais ridículos e letras vazias. Logicamente, há boas bandas do tipo, como My Chemical Romance e Fall Out Boy. Mas prevaleceu a "vertente simpleplainiana".

Assim, tem-se passado por um processo de forte erosão do rock na esfera mais comercial. Nos subúrbios, nos porões, o rock não morreu, e está mais forte e saudável do que nunca. Mas no âmbito mais amplo, de maior alcance, tem-se estabelecido uma hegemonia do "você foi embora e agora vou tomar um porre de Fanta Uva". Parece-me óbvio que estas bandas não possuem a mínima condição de manter-se no cenário por mais de dois anos daqui para a frente. Tal qual o axé baiano, tipo "É o tchan", isso aí tem prazo de validade, prazo este que já está expirando.

O que é de preocupar é a absoluta falta de legado na qual o rock corre o risco de cair. Que caminhos poderia seguir nosso querido e amado rock tendo esta (falta de) referências sérias? É por isso que acho louvável o brilhante ressurgimento de bandas como Alice in Chains, com o fantástico álbum "Black gives way to blue". Pearl Jam também reaparece com certa força. São essas bandas, recicladas do grunge, no qual se aprofundam os sentimentos e inquietudes humanas sem pensar na receptividade do mercado, que tem alguma chance de reassentar o rock. Essa é a essência do rock: a sinceridade.

O mercado de músicas descartáveis, no qual se incluem 95% dessas bandas que fazem lembrar de longe o rock'n'roll, é feito para vender. Nele, se compõe com o bolso, com a projeção daquilo que determinado público quer ouvir, para lucrar, só para lucrar. Isso vai contra os princípios fundadores do rock. Por isso, louve-se a expectativa de ressurreição! Tomem conta, Alice in Chains, Pearl Jam, Audioslave! Vocês são a minha esperança!

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Porcos

Os porcos vagam pelo chiqueiro. Eles esperam por ração. Olham-se. Encostam-se, por vezes. Os porcos esparramam-se pelo espaço que lhes é destinado.

O dia escurece. O dia já é noite. E lá estão eles, os porcos. Um pouco famintos. A lama cobre seus corpos. E eles se olham. Mais uma vez. Não basta serem porcos. São porcos que se olham. Parecem gostar de se olhar.

Lá vem o fazendeiro. Bondoso, caridoso fazendeiro. Ração. Água. Tudo o que eles, os porcos, precisam para sobreviver. Tudo o que eles necessitam para, talvez, serem felizes.

Linda, bela a noite. Sossego nos corações suínos. Alegres, oinc, oinc, oinc. E alegram-se com o clarear do dia. É sol. É calor. É mais um dia no chiqueiro. Oinc, oinc, oinc...

Chega o fazendeiro. Bondoso, caridoso fazendeiro. A faca no coração. Inabalável e indiscutível faca. Com ela, não há diálogo. Não há oinc oinc que a detenha. Lá estão os porcos, se olhando. Lá estão os corações suínos, sossegados, talvez mais do que nunca. No espeto.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Até quando a esquerda vai dar tiros no pé?

Quando abro os sites de algumas organizações esquerdistas brasileiras, ainda fico estupefato com a postura sectária e muitas vezes descabidamente crítica das mesmas aos governos de esquerda na América Latina, como de Hugo Chávez, Evo Morales e (em menor escala de esquerdismo, reconheçamos) Lula.

Às vezes parece que esses setores não aprenderam certas lições. E não são poucos os casos em que posturas sectárias, por vezes até mesmo entre os setores mais à esquerda da esquerda, levaram a derrotas constrangedoras, abrindo flanco para as forças reacionárias de direita.

É lógico que há arestas para se aparar. Ninguém duvida disso. A esquerda é plural. Bem mais plural que a direita. Entretanto, essa pluralidade não pode servir de entrave para o avanço daqueles que objetivam uma profunda transformação social, dirimindo desigualdades, democratizando as esferas políticas e AGINDO no sentido de melhorar a qualidade de vida da maioria da população.

Há, para mim, um grande erro estratégico dos setores radicais. Primeiro, ataca-se as demais forças de esquerda. Depois, se pensa no resto. Como se, ao abalar as estruturas da esquerda que compõe o poder, essa esquerda mais ortodoxa tivesse por si só o poder de absorver os ativistas "menos revolucionários" e travar um embate corpo a corpo sério com a direita.

Ao invés de primeiro se buscar pontos de consenso, de convergência, o que a esquerda ortodoxa, que ainda vive no início do século XX, faz, é divergir de cara, romper a priori, e lutar, batendo com a cabeça na parede, sozinha. Enquanto isso, as forças demotucanas vêem abrir-se solenemente não flancos, mas latifúndios eleitorais, ao passo que a esquerda reformista se encontra tomando porrada dos dois lados: da direita e da mídia reacionária, por um lado; e pela esquerda ortodoxa que, por vezes, parece recusar-se a entender que o panorama atual é, sim, um panorama voltado à democracia "burguesa", e é nesse cenário que a esquerda deve, pelo menos por hora, disputar espaços, por outro.

Não vejo revolução nas ruas do país. Não vejo revolução nos olhos dos cidadãos de massa. O que a esquerda deve fazer, então? Isolar-se e bater numa democracia que, em sua dimensão difusa, já criou raízes na sociedade brasileira, até que, num passe de mágica, de uma hora para a outra, as massas façam um levante orientado por forças que até então não conseguiram com elas dialogar verdadeiramente, vivendo num mundo paralelo de faz-de-conta? Ou trabalhar para ganhar espaços cada vez mais amplos no poder instituído, e corroer por dentro os próprios vícios das instituições políticas brasileiras?

Respeito opiniões contrárias. Mas estou a cada dia mais convencido de que a segunda opção é a mais plausível.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Caso Guiñazu

O caso Guiñazu vem sendo emblemático. Enquanto a imprensa paulista afirma categoricamente que há uma negociação em andamento entre o Cholo e o São Paulo, os dirigentes colorados negam não menos categoricamente tal possibilidade. Guiñazu, por sua vez, diz que "jamais faria isso com o Inter". Mas os fatos, as provas, como a procuração assinada por ele mesmo, autorizando Fabiano Ventura a negociar com a equipe paulista em seu nome, pesam, e muito, contra o argentino.

De São Paulo, chegam notícias de que Guiñazu NÃO QUER ficar no Inter, e QUER jogar no São Paulo. O problema, meus caríssimos leitores, é que ele tem compromisso com o colorado até 2012. Diz-se que talvez seja só um contrato verbal. Mesmo que seja, chegou a hora de a diretoria do Inter bater o pé, e tratar o caso com status de exemplo para todos os que vestem a camisa vermelha.

Dane-se se o Inter pode não lucrar nada com uma saída do Cholo para o São Paulo no meio do ano. Tem que bater o pé e mantê-lo, fazê-lo cumprir o contrato. Nem que seja para que ele fique mofando no Inter B. Não me importa nem um pouco. Agora, manter Guiñazu é questão de honra institucional.

Chega de ficar se curvando a vontades e manias de atletas que ganham cem mil ou mais por mês e querem "buscar a independência financeira" em outras plagas. Esse papo cheira a deboche com a cara do povo brasileiro, que tem de se sustentar muitas vezes com um salário de pouco mais de 400 reais por mês. Assinou contrato, amigão? Então cumpra! Ou pague a multa rescisória.

Essa história ainda está muito mal contada. Resta aguardar os próximos capítulos. Ver até que nível vai a falsidade, ou sinceridade, de Guiñazu; ver se a direção vai bancar a permanência do Cholo, mesmo que em forma de punição exemplar; e ver se, mais uma vez, será legitimada uma prática anti-profissional de jogador forçando saída de clube. Quem viver, verá.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

O "ídolo" e o mijo

Li um texto interessantíssimo do Régis Tadeu no site do Yahoo, no qual ele analisa de forma muito precisa a relação que alguns "ídolos" estabelecem com seus fãs. No caso, o colunista se refere a um episódio em que uma menina-fanzoca-histérica bebe (ou finge beber) a urina do baterista de uma banda emo, chamada Strike.

A mim, especialmente, chama a atenção o fato de que esses caras dessas bandas de meia pataca são os que mais gostam de adotar esse tipo de postura ridícula. É como se eles necessitassem de uma espécie de auto-afirmação. Afinal, se a música é ruim pra dedéu, e passa a uns doze mil anos-luz do rock, pelo menos a atitude tem que ser... "atitude". Só pode ser algum tipo de recalque, ou coisa mal-resolvida da infância.

Fato é que através desse tipo de conduta, o sujeito foi absolutamente congruente com o que a imagem de sua banda passa: abobalhamento, mediocridade e imbecilidade. O papel do fã, nesse caso, também não é menos patético. Não há explicação plausível para a pessoa se submeter a esse tipo de humilhação e degradação. O pior é que a menina deve ter bebido o mijo do pau (que, presumo pela atitude auto-afirmativa do sujeito, seja algo próximo do microscópico) do cara e achado uma maravilha. Deve ter sonhado a noite toda com aquilo!

É, amigos. Às vezes acho que a juventude está realmente perdida. Que futuro poderá ser construído por esses bebedores de mijo? Não sei. Abaixo, reproduzo o excelente texto escrito por Régis Tadeu, intitulado "A urina da verdade" (http://br.noticias.yahoo.com/s/21122009/48/entretenimento-urina-da.html). Ele analisou o caso de forma brilhante.

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À esta altura da semana, você já deve ter visto uma das cenas mais degradantes dos últimos tempos na TV e na internet. Trata-se de uma cena - simulada ou não - em que uma garota desprovida de qualquer traço de inteligência e bom senso expôs sua lamentável figura em uma situação absurdamente vexatória no programa "Rock Estrada", do Multishow, que abordou o cotidiano de uma banda de 19ª categoria chamada Strike (veja aqui).

No vídeo, ela aparece bebendo uma mistura de suco, gelo e urina elaborada pelo baterista, um pateta que parece ter vários cromossomos a menos em seu DNA.

Nem vou discutir se a cena é verídica ou não - isso não importa. O que vale mesmo é a intenção de mostrar qual é o apreço que o artista ou quem quer que tenha uma banda demonstra em relação ao seu fã. Claro que há exceções, mas a grande maioria dos fãs é tratada exatamente como se vê no vídeo: com desprezo, arrogância e imbecilidade.

Filmada e desmoralizada em rede nacional, a garota pagou mais que um papel de trouxa. O que ela mostrou foi simplesmente uma completa falta de respeito para consigo mesma, uma atitude que é muito comum naquele tipo de fã histérica, que suporta ser tripudiada caso isso propicie uma maior proximidade com seu ídolo.

Claro que beber urina é pouco se comparado ao ato de ouvir uma única música dessa "bandeca" do início ao fim. Claro que cada um tem os ídolos que merece. Porém, de forma lamentável, essa garota - que parece não se importar com o que aconteceu, segundo averiguei - deixou claro que elo da corrente que liga uma banda ao seu público não passa de uma maneira de se divertir às custas da imbecilidade alheia. É como se o batera e seus companheiros cúmplices dissessem "é isto que vocês, que vão aos nossos shows e compram o nosso disco, merecem - um copo de mijo bem geladinho".

E outra coisa: parte desse vexame também deve ser creditado ao diretor do tal programa. Ao permitir que tais imagens tenham ido ao ar, ele simplesmente demonstrou o que pensa a respeito do telespectador. Gostaria muito de saber qual seria a atitude do tal diretor se a garota em questão fosse a sua filha ou um parente de algum diretor da emissora...

Sinceramente, alguma coisa precisa ser feita. Caso contrário, teremos no futuro gerações inteiras de idiotas - uma olhada na comunidade da banda do Orkut dá uma boa ideia do que espera os seus filhos daqui a alguns anos. É de estarrecer os mais otimistas. A gente fica com vontade de defender a tese de que certas pessoas deveriam ser impedidas de se reproduzirem.

Tempos atrás, escrevi aqui no Yahoo! um texto que causou certa indignação por parte justamente de uma massa de pessoas pouco pensantes, que não se conformaram em ver sua idolatria ser tratada como tintas racionais. Reproduzo abaixo uma parte desse texto, que cai bem a calhar nesta história toda:

Todo fã é um idiota
Sim, é isso mesmo o que você acabou de ler aí no título deste artigo. Antes de tudo, é preciso deixar claro: fã é todo aquele ser que chora por seu ídolo, que coleciona pastas e pastas com fotos de seu objeto de desejo, que tem seu quarto forrado de pôsteres do alvo de seu fanatismo (palavra que, não à toa, originou o termo "fan" ou "fã", dando uma 'abrasileirada'), que chora na porta de camarim, que passa dias e dias na fila, esperando o momento de entrar no local onde acontecerá o show de seu "amor não correspondido". Ou seja, é o retrato nu e cru, despido de qualquer racionalidade, de um idiota.

Se você é daquelas pessoas que adora o seu ídolo de uma maneira equilibrada, que aprecia o seu trabalho quando o cara manda bem, mas reconhece as pisadas na bola e os vacilos, então você não é um fã, mas sim um admirador. Você simplesmente gosta da banda ou de quem quer que seja. Você não o ama, não chora por ele, não grita, não se desespera quando um pedido de autógrafo é recusado, não pensa em cortar os pulsos quando recebe a notícia que seu "amor" vai se casar com uma outra pessoa que não é você. Você não é um fã. Você não é um imbecil.

E a verdade precisa ser dita, mesmo que ela seja muito dolorida para quem está lendo este artigo neste exato momento: o artista também acha que o seu fã é um idiota.

Ele sabe que esse amor desmedido é uma bobagem, um transtorno hormonal muito comum em adolescentes - embora sejam frequentes os casos de pessoas mais velhas se portando como bobalhões (em caso de dúvida, vá até a porta de um hotel de luxo que esteja hospedando um artista internacional e veja com seus próprios olhos).

O artista quer que você compre o disco dele e vá aos shows, que demonstre explicitamente a sua devoção comprando a camiseta da turnê, a edição especial do CD que está sendo "trabalhado" na turnê, o chaveirinho, o imã de geladeira. Todo artista no fundo, pensa "me ame, me idolatre, compre todas as bugigangas que eu soltar no mercado, mas fique longe de mim". Lamento, mas esta é a pura verdade.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Excursões

Uma das coisas que eu mais odiava na minha infância eram as excursões escolares. Era um negócio absolutamente sem sentido. Um bando de criança idiota fazendo bagunça e todo o tipo de imbecilidade dentro de um ônibus.

E aquele clima pré-saída, hein? Mães, Marias do Bairro de todos os tipos e para todos os gostos na porta do ônibus, às vezes chorando porque seu "anjinho" ia sair... Por um dia! Era mais fácil aquelas pestes fazerem mal a alguém do que serem maltratadas! Há as exceções, lógica e obviamente. Mas são isso, e nada mais: exceções.

A verdade é que criança, principalmente guri, sempre tem uma fase de pré-adolescência insuportável. São pragas prontas para sacanear tudo e todos. Criança é pura até certa altura da vida. Depois, vira um ser absolutamente cruel e perverso, daquele tipo que dá vontade de dar uma voadora e depois uns chutes na cabeça. Também vivi essa fase, ora bolas. Falo com conhecimento de causa. Com a maturidade, as coisas se regulam. Não somos mais nem pretos nem brancos. Nem puros nem demoníacos. Nos tornamos mais equilibrados. Uns mais pra lá, outros mais pra cá, é bem verdade.

Excursões infanto-juvenis são tão somente a oportunidade do afloramento da idiotice humana. Música ruim, chinelos, chulé, pés feios, farelo nos bancos da condução, deboches grotescos, putaria... Por isso que quando passo na frente de um colégio em dia de excursão, eu penso: que bela merda!

domingo, 20 de dezembro de 2009

O Mundo é do Barça

Após três anos da frustração da perda do Mundial Interclubes para o Inter, o Barcelona conquistou, ontem, a competição frente ao Estudiantes de La Plata. O time catalão junta-se ao colorado, ao Corinthians, ao São Paulo, ao Milan e ao Manchester United no seleto grupo de clubes Campeões do Mundo FIFA.

Não foi barbada. Aliás, de uma vez por todas, os paga-pau do futebol europeu das bandas tupiniquins tem que botar na cabeça: o futebol europeu não é a oitava maravilha do mundo. Nunca ganhará de um Campeão da América no mole. A Europa tem o dinheiro. Mas a América tem uma fonte inesgotável de novos talentos futebolísticos. Vende, mas sempre cria mais gente boa.

Se olharmos o histórico dos Mundiais FIFA, veremos que, primeiramente, os dois continentes se igualam em número de títulos. São três sul-americanos (os três brasileiros, por sinal), e três europeus. E os confrontos sempre foram equilibrados. Em 2000, a final foi entre brasileiros: a Europa, representada então por Manchester United e Real Madrid, nem ciscou. Na retomada da competição, em 2005, o São Paulo superou o Liverpool por 1 a 0. Em 2006, o Inter fez o inesquecível 1 a 0 no Barça, no histórico gol de Gabiru. Em 2007, o confronto menos equilibrado: 4 a 2 para o Milan sobre o Boca; mesmo assim, quem viu o jogo sabe que a equipe italiana teve muito trabalho, e só embalou no jogo a partir da metade do segundo tempo, onde, aí sim, deu um vareio no time da Bombonera. No ano passado, o Manchester United, de fraldão, fez 1 a 0 na LDU, com gol de Rooney. Agora, o Barça venceu o Estudiantes, que até os 43 do segundo tempo era Campeão do Mundo, somente na prorrogação.

No primeiro tempo, a equipe argentina teve total controle do jogo. Apesar da maior posse de bola do time de Messi, Ibrahimovic e Henry, a área do Estudiantes foi pouquíssimas vezes adentrada. Aliás, diga-se uma coisa de passagem: se Alecsandro por aqui teve seus dias que se achava Ibrahimovic, o jogador sueco ontem teve seu dia de Alecsandro. Que atuação fraca! E foi no primeiro tempo que o time Campeão da América abriu o marcador, com o ótimo centroavante Boselli, de cabeça, no meio da zaga do Barça.

No segundo tempo, aí sim, o time espanhol passou a realmente pressionar. Pedro e Jeffrey tocaram fogo no jogo. Mas o time argentino se segurou com competência. Até os 43 minutos, quando Pedro empatou. Aí, na prorrogação, restava ao Estudiantes tentar arrastar a partida para a prorrogação. O extraordinário Veron, com 34 anos nas costas, já não conseguia ser o centro nevrálgico dos argentinos. Então, Messi, o apagado Messi, no segundo tempo do período extra, fez, de peito, o gol do título catalão. Valente, o Estudiantes ainda ameaçou nas bolas paradas, em que todo o time desesperadamente dirigia-se para a área. Em vão. O gol salvador não saiu.

O Barcelona é o novo Campeão do Mundo. Campeão do Mundo FIFA.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Lembranças

Estou num boteco da Cristóvão Colombo tomando umas cervejas e observando o movimento. Pessoas vão. Pessoas vêm. Pessoas passam, e depois voltam. Entre essas pessoas, há coisa de cinco minutos, passaram duas velhinhas de braços dados, dando passos lentos. Velhinhas. Cabelos brancos. Braços dados. Passos lentos. É absolutamente impossível não lembrar de minha falecida avó, Noely.

Indubitavelmente, ela foi uma das pessoas mais importantes da minha vida. São muitas as lembranças. Muitas mesmo. Quando eu era criança, "pequetitinho", era ela quem me cuidava para que minha mãe pudesse trabalhar e ajudar meu pai a sustentar a casa. E não posso reclamar. Enquanto pôde, cuidou-me com um carinho e uma devoção absolutamente fantásticos.

Ela andava comigo, pra lá e pra cá. Enquanto teve condições, andava comigo por todo o bairro. Andávamos bastante, íamos ao antigo Dosul, e muitas e muitas eram suas amizades. Recordo-me, a princípio, sem maiores esforços de memória, de duas: Dona Nely e Dona Rosa. Mas havia mais. Muito mais. A cada esquina ela parava para conversar com alguém. Era extremamente querida por todos. Eu chegava a ficar de saco cheio, pelo tanto que tinha que esperar ela conversar com cada conhecido que encontrava.

Benzia. Benzia a mim, benzia aos filhos dos vizinhos. E curava. Não fosse assim, não teria, quase que diariamente, gente batendo à porta, pedindo uma benzedura para sapinhos nas crianças, e outros pequenos males.

Certa feita, eu tinha uns cinco anos, logo de manhã cedo, eu queria assistir aos meus seriados japoneses. E ela, queria ver o "Bom dia, Brasil". Sei lá eu por que, mas, furioso por não ter sido atendido, ataquei minha avó com uma unhada no rosto. Mas meu remorso foi instantâneo, imediato. Pedi-lhe desculpa, mais do que isso, perdão, do fundo de minha alma. E ela imediatamente me abraçou, com carinho e amor indescritíveis. Ela me acolheu. Aquele abraço foi de um efeito balsâmico.

Dona Noely também cozinhava bem, enquanto o corpo e a mente permitiram. Cozinhava com gosto. Cozinhava simples. Mas maravilhosamente bem. Adorava seu espinafre com farinha, as sopas batidas, o feijão mexido. O tempo, impiedoso, a limitou, em muitas e muitas coisas. É o ciclo da vida. Muitos foram injustos, imersos no imediatismo irrefletido. Inclusive eu.

Da última vez que a vi em vida, estava lúcida. Lúcida como há muito tempo eu não via. Estava numa clínica geriátrica, há meses. Pegou-me pela mão, na despedida, e pediu que eu rezasse por ela. Meio bobo, meio idiota, meio imbecil, não conferi àquele momento toda a real importância que ele tinha. Haveria outras vezes, pra mim era óbvio, ora bolas. Pois é. Não houve.

Desde sua morte, não chorei sequer uma lágrima em relação ao assunto. Era como se tudo tivesse ficado escondido numa gaveta, que eu me recusava a abrir, em lugar bem inacessível. Sério mesmo. Talvez por um estado absoluto de choque, não chorei nada. Nadica. Até hoje. Até minutos, talvez segundos atrás.


quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Direto e reto

Muita frescura essa história do glorioso lateral direito Nei. O empresário diz que ele está mais perto do Grêmio. Que vá para o Grêmio, então! Vai jogar contra o Araranguape e o Ananindeua. Eu, particularmente, estou me lixando. Cagando e andando.

Num ano de Libertadores, pré-requisito obrigatório para qualquer jogador do Inter é QUERER jogar no Inter. Neguinho que quer fazer cu doce, que se vá para as bandas da Azenha ou para os quintos do inferno.

O Inter não deixará de ser o Inter por não contratar um lateralzinho que só fez sucesso(cá entre nós, relativo, relativíssimo) no medíocre Atlético Paranaense. Nei não se tornará um fenômeno da posição, seja no Grêmio, no Inter ou no Manchester United.

Tá na hora de os clubes deixarem de ser reféns de empresários. Nei não quer jogar a Libertadores pelo Inter? Não joga! Certamente vai ter uma penca de atletas querendo. Nei, o fantástico e inigualável Nei quer jogar no Grêmio? Que jogue, ora bolas. E tome uma série de lambadas em Gre-Nais, assim como foi a tônica do 2009 azul.

Na boa, tô de saco cheio de jogador medíocre enchendo o saco para assinar um contrato. Quer, quer. Não quer, desocupa a moita e vai fazer merda bem longe daqui. Eis a lógica que devia ser seguida no futebol e na vida.

3 anos

Hoje o Inter comemora 3 anos do título mundial conquistado em Yokohama, contra o até então todo-poderoso Barcelona. O dia 17 de dezembro de 2006 foi uma data histórica não só para o Inter, mas para o futebol gaúcho. Afinal, naquele dia, pela primeira vez na história, um clube gaúcho conquistava um Mundial Interclubes da FIFA.
Aquele foi o dia mais feliz da minha vida. Foi perfeito. Se melhorasse, estragava. Era um grande sonho conquistar um Mundial. Ser o melhor time do mundo, reconhecido pela FIFA, é para poucos. Raros, diria eu. Esse seleto grupo de clubes é formado por Inter, São Paulo, Milan, Manchester United e Corinthians. Cinco clubes. E só.
Não bastasse isso, o título foi conquistado em cima daquele time que era considerado o grande bicho-papão do futebol mundial: o Barcelona. Desfalque por desfalque, os dois times foram quites: o Inter não tinha Hidalgo; o Barça não tinha Eto'o. Não me falem em Messi. Messi era reserva de Giuly. Re-ser-va. Quem não acredita, que dê uma olhada na ficha técnica da final da Champions League daquele ano (http://news.bbc.co.uk/sport2/hi/football/europe/4773353.stm). Se desfalque de jogador reserva contar, bem, então serei obrigado a considerar Renteria, o saci colorado, jogador importantíssimo daquele elenco. E daí, ficaríamos quites, de novo.
Os reis da dor-de-cotovelo ainda argumentam que o Barcelona não tinha interesse naquele título. Como assim, cara-pálida? Quando o time catalão tocou quatro ao natural no América do México, ninguém disse isso. Também não foi o que vi nas expressões de Deco, de Ronaldinho Gaúcho, de Rafa Marquez, de Puyol, de Giuly e de Riijkard enquanto o time estava sendo derrotado, e depois da partida. O treinador holandês, e alguns jogadores, inclusive, tiraram a medalha de prata imediatamente após recebê-la, num gesto de frustração, raiva e desconsolo. Novamente, quem não acredita, veja esses vídeos (http://www.youtube.com/watch?v=4X0-5ykJzCM); (http://www.youtube.com/watch?v=bAa50PfvvLI).
É por essas e outras, caros leitores, que o dia 17 de dezembro é tão especial, um marco histórico, um marco nos corações colorados. Presenciamos naquele dia, A História. O Sport Club Internacional batia uma seleção do mundo, que jogou com arrogância e auto-suficiência, é verdade, mas que queria aquela taça erguida por Fernandão, tanto quanto nós. E por isso valeu a pena.
Como foi bom ser colorado aquele dia. Como é bom ser colorado, todos os dias.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Surpresa desagradável

Ao chegar em casa, numa quinta-feira à noite, lá pelas onze horas, Humberto deparou-se com uma cena estarrecedora. E ficou, como talvez não pudesse ser diferente, em estado de choque. Lá, no chão da sua sala de estar, estava atirado um presunto.

A cena deixou o rapaz atordoado. Quem teria entrado em sua casa? Quem teria cometido tal atrocidade? Desnorteado, sentou no sofá e começou a pensar. O que fazer naquelas difíceis circunstâncias? A quem ou a o que recorrer?

Matutava, matutava, e as ideias embaralhavam-se em sua mente. Não havia atitude correta que pudesse ser tomada ali. Tudo parecia perigoso, e um tanto imoral. Humberto pensava em telefonar para alguma autoridade que pudesse, talvez, dar uma luz, ajudar a tirar alguma conclusão. Mas, haveria a chance de ser moralmente julgado por aquilo. O que fazer, então?

A alma corroía-se. Pensou, também, em ligar para algum parente, algum amigo que pudesse pensar junto e ajudar na solução do problema. Mas seria uma tentativa vã, pelo adiantado da hora.

Então, continuou pensando, pensando, pensando, esquentando a moringa. Era um dilema praticamente insolúvel. Já era pra lá de meia-noite e meia quando o rapaz tomou uma decisão, talvez dura, difícil.

Pegou o presunto na mão, levou-o à torneira da cozinha, e deu uma enxaguada. Fatiou, pegou o queijo na geladeira, e fez um sanduíche. Um sanduichinho, quando se chega exausto e faminto em casa, vai bem. E o que não mata, engorda.


terça-feira, 15 de dezembro de 2009

"Artesanal"

O mundo tecnológico, sem dúvida, nos proporciona uma série de benesses. Informações instantâneas, distração, contato fácil, acessível, e diversidade de opções. Entretanto, há algumas coisas antigas que de vez em quando me despertam certa saudade.

Algumas das melhores lembranças da minha infância, remetem-me aos recursos da época, que para mim eram o máximo. Uma das coisas mais fantásticas das quais me lembro, é quando eu ia para o escritório de minha madrinha, Cleuza, e ela deixava eu usar a máquina de escrever. Era absurdamente mágico!

Também era muito interessante quando havia uma música que me amarrava, e tinha que ficar de plantão na frente do aparelho de som, esperando a abençoada hora em que a tal música iria tocar, para apertar o "rec". Era coisa de ficar horas, às vezes quase um dia inteiro esperando. E geralmente, o locutor era uma mala que começava a falar antes da música acabar.

Gravar filmes também era um barato. Tinha que ficar ligado para as horas do intervalo, para fazer os devidos cortes. Isso sem contar o fato de que depois era necessário conferir se a gravação havia ficado boa. O videocassete tinha sérios transtornos de humor.

Hoje em dia, na era do dvd, do mp3 e do Word, eu diria que as coisas ficaram "excessivamente" fáceis, quando considerada essa ótica mais romântica, do prazer das coisas. Antigamente, gravar uma fita de vídeo ou som era uma espécie de realização pessoal. Escrever numa máquina de escrever, para uma criança de menos de 10 anos, era incrível. Hoje tudo isso está moderno, acessível ao extremo. As coisas há alguns anos, tinham mais cara de artesanato, eram mais próximas, mais afetivas. Atualmente, não há trabalho, não há conquista em gravar um cd ou digitar um texto, como por exemplo, estou fazendo agora.

A modernidade é boa. Mas, às vezes bate uma nostalgia danada de como algumas coisas eram no passado.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Ansiedade

Há dias em que é praticamente impossível controlar a tal da ansiedade. Trata-se daqueles momentos cruciais, momentos que exigem uma concentração toda especial. Hoje passo por um desses dias. E, confesso, estou com um frio "iceberguiano" na barriga.
Ter a leveza de consciência para saber que tudo o que podia ser feito, eu tenho. Tenho a convicção de ter realizado o melhor que estava ao meu alcance. Falta um passo, talvez dois. Mas estou pronto. Ou o mais próximo possível disso.
Eis um pouco da crueldade da vida. São as horas de "vai ou racha", quando não há alternativa ou escapatória. Aquelas horas que nos sentimos numa encruzilhada entre apocalipse ou bonança. O coração acelera, e como haveria de ser diferente? A vida, por vezes, parece um jogo de paciência e decisão; de sabedoria, impulso e confiança. Preciso de confiança. E sei que posso tê-la. Muita coisa foi feita tão somente pelo hoje. É hoje. Só pode, e tem que ser, hoje.
Agora, amigos, é comigo. Comigo e com os céus. Comigo, com minhas limitações e meus merecimentos. Comigo e com a bagagem que trago nas costas. Preciso da certeza da possibilidade, de uma real e verdadeira esperança, que floresça sem disfarces, de peito aberto. Preciso de mim mesmo, e de tudo o que sou capaz de fazer.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Fossati

A direção colorada confirmou oficialmente, através do site do clube, a contratação de Jorge Fossati para ser o treinador do Inter na temporada 2010. É um belo pontapé inicial do clube no intento de conquistar o bi-campeonato da Taça Libertadores da América.

Fossati foi o principal treinador da América na temporada 2009. Conquistou nada menos do que dois títulos continentais na temporada: a Recopa, sobre o próprio Inter, e a Copa Sul-Americana, completando, para a LDU, a tríplice coroa da América, que somente o colorado e o Boca Juniors detinham até então.

Com Fossati, o time colorado deverá ser pragmático, copeiro mesmo. A ideia de Fernando Carvalho, segundo Diogo Olivier, do site Clicrbs, é de que o Inter monte retrancas fora de casa, jogando bem fechado e explorando contra-ataques, e jogue com força no Gigante, buscando garantir o sucesso de suas campanhas no Beira-Rio, e somando pontos decisivos em territórios hostis.

Só o fato de se ter uma convicção, uma filosofia de futebol, já é uma notícia a ser comemorada. Em 2009, o Inter simplesmente não teve uma identidade como time. Não se sabia o que se esperar do colorado, principalmente fora do Beira-Rio. Por vezes, jogava faceirinho, por vezes, fazia um futebol à moda argentina, mas sem nunca se definir frontalmente em relação ao que queria, e qual era, afinal, a cara do colorado. Esse foi um dos fatores que mais prejudicaram a equipe na temporada.

É lógico que a contratação de um treinador vencedor é apenas o início. Agora, seria interessante que o Inter fizesse uma bela de uma faxina no elenco, e trouxesse reforços de peso e certeiros. O mínimo dos mínimos que o Inter precisa é de um grande goleiro, um lateral-direito que chegue, vista a camisa e saia jogando, e DOIS atacantes, um de movimentação e um centroavante incontestável, de lotar aeroporto, além de um bom primeiro volante em caso de saída de Sandro.

Um time que me faria sonhar com o título da Libertadores seria algo como: Andujar; Vitor, Bolívar, Fabiano Eller e Kleber; Sandro, Guiñazu, Giuliano e D'alessandro; Rafa Sóbis e Fernando Baiano.

sábado, 12 de dezembro de 2009

No cinema

Vitor não tinha nada para fazer naquela tarde de quinta-feira. Estava entediado, andando pelo caos urbano característico dos centros das capitais. Resolveu, então, ir a um cinema, assistir a um filme, passar o tempo.

O filme era um bom suspense. Daqueles envolventes, que envolvem o espectador. Vitor comia pipocas, enquanto seus olhos mantinham-se atentos, a película ainda no começo. Eis que, já com uns dez minutos do transcorrer da trama, adentram a sala do cinema três adolescentes cu-cagados, dois meninos e uma menina. Postaram-se duas filas à frente do rapaz. Riam, falavam alto, falavam bobagens, faziam tudo, menos ver o tal filme.

Vitor sentia-se incomodado. Havia pago oito reais para irritar-se com animalescos grunhidos de adolescentes com porra até os ouvidos. Conversassem no inferno, ora bolas! Entre uma pipoca e outra, o saquinho já no final, Vitor esforçava-se para manter-se atento ao desenrolar dos acontecimentos no telão. Quase que em vão.

O sangue subia à cabeça. Alguma solução haveria de ser dada àquilo. Vitor levava consigo um revólver. Levantou-se, dirigiu-se aos três adolescentes, e deu um tiro na cabeça de cada um. Foram os últimos barulhos e grunhidos que se ouviram naquela sala. Agora, só o som proveniente do filme. O rapaz finalmente conseguiu prender-se à trama no telão. Em paz. Paz obamística.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

O triste fim de "Toma lá dá cá"

"Toma lá dá cá" é certamente uma das melhores coisas que a Rede Globo produziu em termos de programas de humor nessa década. Apesar de alguns personagens um tanto desnecessários, como Isadora (Fernanda Sousa) e Copélia (Arlete Sales), o humor falabelliano se saiu muito bem, com personagens marcantes e carismáticos como Bozena (Alessandra Maestrini), Dona Álvara (Stela Miranda) e Dona Deise (Norma Bengell), além de ótimas atuações de Miguel Falabella, Adriana Esteves e Diogo Vilella, sem contar a grata revelação George Sauma.

Infelizmente, o excelente programa global também foi marcado, não poucas vezes, por traços de preconceito de classe, político e de opção sexual. O viés político reacionário do texto de Miguel Falabella ficou notório, por exemplo, na sequência de episódios em que um morador lunático revoltou-se contra a gestão de Dona Álvara no condomínio do Jambalaya, e passou a protestar e fazer um monte de loucuras. Lógico, o lunático, numa analogia com o mundo real, era um esquerdista revolucionário. Não foi preciso ser muito atento para perceber claramente tal relação.

Ontem, encaminhou-se o final do seriado, que ainda terá dois episódios. Os "favelados" das redondezas do condomínio estão prestes a invadi-lo, saqueá-lo. Uma das moradoras da tal favela adentrou, em um dos últimos momentos do capítulo de ontem, o apartamento de Celinha (Adriana Esteves) e Mário Jorge (Miguel Falabella), e preparava-se para roubar uma mesa, que a princípio iria comprar, aproveitando-se que o pessoal todo estava trancado no banheiro, sequestrados que foram por um personagem paraibano (eis o preconceito contra nordestinos).
Ao que tudo indica, o bom programa humorístico encaminha-se para um final de lamentável mau gosto, criminalizando os pobres, colocando-os como a escória que impede a classe média e média alta de bem viver. É óbvio que, apesar desse tipo de deslize, o saldo de "Toma lá dá cá" é altamente positivo. Nem muito escrachado, nem muito bobalhão, o humor leve, irreverente, por vezes surreal, com pitadas de inteligência, deve ficar como um legado na Rede Globo, que ultimamente vem se sustentando em sua programação do gênero com uma porcaria absolutamente ridícula como "Zorra Total", um já desgastado e manjado "Casseta e Planeta", e um popularesco, no máximo engraçadinho, "A Grande Família, além de programas fracos, passageiros, que não deixaram saudades, nem sequer lembranças, nos últimos anos.

"Toma lá dá cá" merecia um desfecho mais brilhante do que parece que vai ter (tomara que eu esteja errado), limitando-se a uma visão preconceituosa e mesquinha do povo, e legitimando a tacanha mentalidade da classe média representada pelos seus personagens. Mostrar tal mentalidade numa perspectiva crítica, seria uma boa, já que até agora, tudo o que se viu foi reprodução pura e irrefletida de determinados preconceitos de setores da população brasileira. Isso me lembra a ótima letra da música "Classe média", do Max Gonzaga (http://www.youtube.com/watch?v=KfTovA3qGCs):

Sou classe média
Papagaio de todo telejornal
Eu acredito
Na imparcialidade da revista semanal
Sou classe média
Compro roupa e gasolina no cartão
Odeio “coletivos”
E vou de carro que comprei a prestação
Só pago impostos
Estou sempre no limite do meu cheque especial
Eu viajo pouco, no máximo um pacote cvc tri-anual
Mais eu “to nem ai”
Se o traficante é quem manda na favela
Eu não “to nem aqui”
Se morre gente ou tem enchente em itaquera
Eu quero é que se exploda a periferia toda
Mas fico indignado com estado quando sou incomodado
Pelo pedinte esfomeado que me estende a mão
O pára-brisa ensaboado
É camelo, biju com bala
E as peripécias do artista malabarista do farol
Mas se o assalto é em moema
O assassinato é no “jardins”
A filha do executivo é estuprada até o fim
Ai a mídia manifesta a sua opinião regressa
De implantar pena de morte, ou reduzir a idade penal
E eu que sou bem informado concordo e faço passeata
Enquanto aumenta a audiência e a tiragem do jornal
Porque eu não “to nem ai”
Se o traficante é quem manda na favela
Eu não “to nem aqui”
Se morre gente ou tem enchente em itaquera
Eu quero é que se exploda a periferia toda
Toda tragédia só me importa quando bate em minha porta
Porque é mais fácil condenar quem já cumpre pena de vida*

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Desafios

Confesso que estou passando por dias ao mesmo tempo apreensivos e felizes. Os desafios da vida, a aproximação de alguns momentos decisivos, geram um elevado grau de stress e ansiedade. Bom lembrar: tenho que tomar meus florais daqui a pouco. Definitivamente, estou virando um maluco-beleza. Viva a homeopatia! E a sociedade alternativa! Faz o que tu queres, pois é tudo da lei!

Simultaneamente, sinto-me, até um pouco estranhamente, feliz. Estou confiante na vida, otimista que, de um jeito ou de outro, não sei exatamente qual, não faço ideia de por que caminho, as coisas vão dar certo. Esses momentos de encruzilhada tem isso de positivo. A sensação de "ou vai, ou racha", mal ou bem, cria uma sensação de libertação, de fuga da inércia por vezes angustiante, de definição.

É lógico que essas definições duram pouco, muito pouco. A transitoriedade da vida é geralmente assustadora, abrupta. Estamos sempre criando novos objetivos, defrontando novos desafios. Deitar em berço explêndido é para poucos. É para raras e felizardas almas. Nós, os normais, estamos fadados à freneticidade da existência.

Quero, sim, novos enfrentamentos, novas metas. Metas antigas, objetivos empoeirados, que fiquem guardados apenas em doces memórias. Sim, espero que sejam doces as memórias. Tenho a certeza de que há obstáculos grandiosos a serem superados. Já não estão mais distantes como outrora. Ou os passo, ou os derrubo, ou tropeço neles e sigo. Mas de alguma forma, haverá inescapáveis definições. Isso serve como uma espécie de alento.

Dá um tremendo frio na barriga, é verdade. Mas é bom. É sinal de que estou vivo, no corpo, no cérebro e na alma.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Platônico

Manoel era um adolescente de dezesseis anos. Tinha um hábito diário, desde seus quatorze anos, todo o final de tarde dos dias de semana, em época letiva: ia para a janela de sua casa. Todo o dia aquela menina bonita voltava do colégio. Era morena, altura média, dona de lindos olhos e corpo em fase de belíssima e delicada maturação. Manoel a tinha visto algumas vezes em sua escola, durante os recreios. Mas jamais havia falado com ela. Sequer sabia seu nome. Mas a admirava. Em sua cabeça, aquela adolescente era a musa maior. Tanto era assim que, todas as noites, na penumbra do quarto e nos emaranhados de lençóis e cobertores, era ela a homenageada.

Manoel vivia um amor platônico. Motivava-se com aquilo, e ao mesmo tempo não avançava em nada, em sentido algum. E em todos aqueles finais de tarde, salvo raras exceções, lá estava ela, a menina sem nome, com as mais variadas roupas, jeans, lycra, vestidos, tênis, Havaianas, blusas decotadas, camisetas largas, saias curtas, pernas mais ou menos à mostra, e lá estava ele, Manoel, sempre o mesmo, observando-a tomado de ternura e admiração.

Algumas vezes ele pensava em se encorajar e sair quando a visse, falar com ela, falar daquilo que sentia, descobrir seu nome, se tinha namorado, do que gostava. Por vezes, Manoel chegava mesmo a dar um ou dois passos para trás. Mas invariavelmente desistia.

Então eis que, em certa semana, a menina não passou na segunda-feira. Nem na terça, Tampouco na quarta, na quinta ou na sexta. Ela não passou nunca mais. Doíam o coração e a alma de Manoel. Chorava todas as noites. Não sabia o endereço, o nome, nada, absolutamente nada daquela menina. Uma ou duas vezes, andou tardes inteiras pelo seu bairro e arredores para ver se, por sorte, em algum momento, defrontava-se com ela. Em vão.

De fato, nunca mais a viu. Durante uns três anos teve naquela garota todo o amor e toda a paixão de sua vida. Dedicou minutos, infinitos minutos, no somatório certamente horas, talvez dias, a ela. Ela foi tudo para ele. Agora, estava sabe-se lá aonde. Foi amada ao extremo por um garoto habitante de uma daquelas casas pelas quais passava distraidamente todos os dias. E nunca soube disso.


segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Vice e vaga

O Inter, com a vitória na tarde de ontem sobre o Santo André, garantiu o vice-campeonato no Brasileirão. O time colorado jogou uma belíssima partida e, com justiça, aplicou 4 a 1 no time do ABC paulista. A vaga direta na Libertadores também foi afirmada. O grupo na competição continental deve ser bem complicado, principalmente por haver a possibilidade bastante real de o Inter enfrentar dois adversários na altitude de Quito (o Deportivo Quito, já garantido, e a LDU, que ainda briga por vaga).

O saldo do centenário colorado termina levemente positivo. Terminamos o ano com um Gauchão em que o Inter aniquilou adversários, ganhou três Gre-Nais e aplicou 8 a 1 na final; com uma competição internacional conquistada no Japão, a Copa Suruga (praticamente uma ex-Copa Toyota, tão comemorada por aí...); além de dois vice-campeonatos nacionais e o vice-campeonato da Recopa Sul-Americana (é bem verdade que nessa competição o segundo também é o último).

Agora, o Inter tem que se mobilizar fortemente para a Libertadores 2010. Trazer um treinador de ponta e fortalecer o elenco, dispensando sanguessugas e ruindades, e trazendo atletas de alto nível, que tenham a ambição de jogar no Inter, pelo Inter.

Internamente, a cúpula colorada deve se reunir e pesar, de forma muito séria, os erros e acertos de 2009. E, convenhamos, foram muitos os erros. O Brasileirão podia ter sido ganho, sim, com um pé nas costas. Haja visto que com todos esses equívocos, o Inter terminou apenas a dois pontos do campeão. Dava pra ter ganho o título. Eu sei disso. Você, leitor, sabe disso. Espero que Píffero e Carvalho também saibam.

Por fim, estranhei bastante quando, ao final da tarde de ontem, vi gremistas na rua gritando, comemorando e buzinando. Como é alegre essa torcida tricolor! Certamente, aquela excitação toda fora motivada pela conquista da brilhante oitava colocação do Grêmio no Brasileirão. Só pode ser isso...

domingo, 6 de dezembro de 2009

Desvio de foco

Durante toda a semana os setores segundistas da imprensa azul do Rio Grande realizaram seu grande sonho: entupir o noticiário colorado com o Grêmio, como se o Inter estivesse nas mãos tricolores, aliás, como se o Grêmio, que fiasquentamente ganhou só um jogo fora de casa no campeonato, tivesse condições de fazer frente ao Flamengo, mesmo que quisesse.

Com isso, se desviou o foco da única coisa realmente plausível que está em jogo para o Inter na tarde de hoje: ganhar do Santo André, garantir o vice-campeonato e a consequente vaga direta na Libertadores. E do que menos se falou foi do jogo do Inter. Jogo que não está ganho por antecipação.

É óbvio que se o colorado entrar focado no jogo, esquecendo as pseudo-polêmicas da rodada, ganha do Santo André. Mas se jogar pensando no Maracanã, cujo resultado está escrito nas estrelas, pode se complicar. O time do ABC paulista tem jogadores experientes, jogadores que não são bobos, e, apesar da idade avançada, ainda conservam algumas virtudes técnicas. Some-se a isso o fato de o Santo André estar jogando a vida, desesperadamente, e se tem um jogo assaz perigoso.

Ordens do dia, portanto: (1) esquecer o cumprimento de um compromisso formal que realizar-se-á no Maracanã; (2) entrar em campo concentrado, buscando um objetivo muito sério de colocar o Inter direto na fase de grupos da Libertadores. Ganhando, o Inter cumpre tudo o que pode sonhar no dia de hoje: a segunda posição no certame. E isso depende tão somente do colorado.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

A barata

É sábado, meio-dia em ponto. Juliano e a esposa Daniela degustam uma lasanha à bolonhesa comprada no restaurante da esquina. Tinham o costume de não falar nada durante as refeições. Apenas comiam e bebiam a Coca-Cola.

Estava gostosa a lasanha. Claro que dizer que uma lasanha é gostosa é praticamente uma redundância. Mas, enfim, agradava ao paladar do casal. O almoço transcorria calmamente. Então eis que, ao cortar nova fatia, Juliano depara-se com a saída de uma barata viva, incrivelmente viva, saindo do meio da carne moída. Olhou com espanto, e mostrou para Daniela, que em gesto assustado afastou a sua cadeira da mesa.

Juliano tratou de colocar aquela comida fora. Que coisa absolutamente horrorosa. A deliciosa lasanha era agora motivo do mais puro nojo. Já não era mais lasanha. Era uma barata carnavalescamente disfarçada de lasanha.

O rapaz correu para o banheiro junto à moça. Os dois queriam vomitar, em ânsia abrupta e incontrolável. Quando ambos praticamente chegavam ao sanitário, bateram-se, o suficiente para que vomitassem um no colo do outro. A nojeira estava feita. Daniela, indignada e enojada com aquilo, desferiu um golpe de punho fechado contra o rosto de Juliano. O rapaz agora estava caído com muito sangue no rosto, resvalando o corpo no vômito misturado.

A moça, apavorada com o que fizera, desnorteada, dirigiu-se à cozinha enquanto Juliano, enfurecido, levantava e dirigia-se a ela. Pegou-a pelo pescoço, enlouquecidamente, mas não de forma suficientemente incisiva de modo a evitar que ela pegasse uma faca suja que estava por lavar na pia, e enterrasse em seu estômago.

Agora, Juliano estava morto. Daniela, amedrontada com o futuro negro que talvez estivesse reservado ao seu destino, não hesitou. Lavou a faca, desinfetou- a, e enterrou em seu próprio peito. Os dois corpos, então, encontravam-se sem vida e caídos no chão da cozinha, sujos de sangue e vômito. A barata, por sua vez, ainda andava, indiferentemente, por sobre a mesa. Elas, as baratas, são destinadas à sobrevivência.

Direita patética

Eu sei que já disse isso repetidas vezes aqui no DC. Mas não custa nada dizer mais uma: a direita me enoja. Não toma nenhuma base teórica minimamente razoável para defender as virtudes das desigualdades, proclama aos quatro ventos uma liberdade que de liberdade não tem nada, que limita-se à desregulamentação da exploração do homem pelo homem, como se a liberdade de alguns poucos presumisse o acorrentamento das massas despossuídas.

A direita, em sua extremidade mais reacionária, adota um discurso ridículo de ameaça dos comunistas comedores de criancinhas, prontos para, silenciosamente fazer uma revolução. Obama é comunista, meus amigos! A Globo, e, se bobear, FHC, também!

Quando leio coisas dos direitistas que, digamos, se assumiram como tais, saíram do muro e do armário, é que até chego a compreender porque a direita se infiltra, se disfarça, e se esconde por trás de uma pretensa neutralidade: o discurso puro de direita, escancarado, sem máscaras, é absurdamente patético. Dá vontade de rir.

Se Obama e Lula (vejam bem, Obama e Lula!) já despertam todo esse cagaço nos setores da direita, imaginem no momento em que verdadeiramente forem mudadas algumas lógicas em ações sociais e/ou estatais, que remetam a uma verdadeira mudança na estrutura social que alicerça o privilégio de alguns. Imaginem quando realmente a esquerda passar a mexer no até então intocado queijo das elites! E uma hora, amigos, isso realmente terá de ser feito. Eu iria mais além e diria que o capitalismo, paradoxalmente, depende disso para (tentar) sobreviver.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Fascistão

Absolutamente lamentáveis os comentários do protótipo de jornalista Luiz Carlos Prates da RBS de Santa Catarina, fazendo uma verdadeira apologia à ditadura militar (http://www.youtube.com/watch?v=PMTHhbwUAqw&feature=player_embedded). Empresas como a referida, diga-se de passagem, gostam de utilizar esse tipo de tática: travestem-se de democráticas ao mesmo tempo em que colocam meia dúzia de idiotas mal-comidos pra falar bobagem. E o pior: esse discursinho demente pega junto às massas.

Esse cara, para se ter ideia da figura de que estamos tratando, coloca-se frontalmente, por exemplo, contra as cotas em universidades públicas, baseado num discurso pseudo-meritocrático e mais simplório que os mendigos da Praça da Matriz (sem ofensas aos referidos mendigos, que possuem maior capacidade cognitiva).

A ditadura foi uma verdadeira mancha na história nacional. Ainda que um pouco, bem pouquinho, mais amena do que no restante do continente, perseguiu e matou inescrupulosamente uma penca de militantes políticos, além de perseguir estudantes, intelectuais, professores e esquerdistas que lutavam por liberdade, pelo direito de ir e vir e de se expressar.

Não é preciso ter vivido o período militar, como, ufa, não vivi, para saber todo o prejuízo provocado por tal regime, as limitações às liberdades de produção cultural, censuras de todos os tipos, e supressão de todo e qualquer tipo de manifestação ideológica contrária ao governo. Temos que repudiar frontalmente esse discurso nazi-fascista de Prates.

A democracia apresenta problemas? Sim, apresenta. Mas o problema não é propriamente o regime. Óbvio que não. Corrupção, patrimonialismo, clientelismo, são traços marcantes da matriz política brasileira historicamente, e a ditadura NÃO foi diferente. As dificuldades enfrentadas no Brasil possuem uma origem muito menos rasa do que a linha de raciocínio reacionária de Luiz Carlos Prates.

As históricas desigualdades sociais do país, pautadas por desigualdades distributivas, por manipulações quase que feudais persistentes em alguns estados, mandados e desmandados por coronéis que sobrevivem da miséria alheia, e que desemboca em cinismo e alienação política por parte dos cidadãos, que afastados das arenas decisórias colocam diversas modalidades de crápulas a representá-los, é que são a verdadeira raíz. Não é a democracia. Definitivamente, não é a democracia o problema, e sim o panorama social que dificulta sua efetiva implantação.

Coloquemo-nos energicamente, pois, contra todo e qualquer discurso autoritário e anti-democrático. Passos para trás não resolverão rigorosamente nada.

A vida é fugaz

Hoje algumas coisas fizeram eu me dar conta, como uma espécie de choque de realidade, da verdadeira fugacidade que é viver. Logo pela manhã, vi uma menininha de uns sete ou oito anos de cadeira de rodas, junto ao pai. Depois, durante o dia, fiquei sabendo que uma conhecida teve diagnóstico de câncer.

Confesso, esse tipo de coisa me abala um pouco. A vida é de uma fragilidade absurdamente assustadora. Estamos expostos o tempo todo, e vulneráveis ao extremo. Tudo parece muito certo, muito bem quando, de repente, do nada, pluft, o inferno está dado. O organismo é frágil, suscetível. A saúde é relativa. É difícil lidar com isso. Ademais, a qualquer hora, pode acontecer um acidente, uma fatalidade, e ficarmos cegos, paraplégicos, etc, etc.

Por isso que cada vez menos dou valor às coisas mesquinhas da vida, que a bem da verdade, nos cercam o tempo todo. Muita coisa, por nunca, ou quase nunca nos ter faltado, passa despercebida. Damos como certos alguns elementos que são incertos. Enxergar, poder andar, poder falar, são coisas absolutamente valiosas. E diversas vezes, não nos damos conta disso, e perdemos tempo com insignificâncias.

Não estou aqui dando qualquer tipo de lição piegas de moral, nem fazendo uma apologia ao conformismo. Somente quero deixar claro que aquilo que geralmente passa batido é o mais importante, a base sem a qual, se não ficamos absolutamente impossibilitados, pelo menos vemos todo o tipo de esforço um tanto mais redobrado e hercúleo.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

O quarto da pensão

Marcos vivia sozinho num quarto de uma pensão vagabunda. Lá por perto passavam, durante dia e noite, prostitutas, malandros e gangsters. O rapaz trabalhava num escritório no centro da cidade e, ao final do dia, ia para seu quarto. A tal pensão ficava relativamente perto do centro. Perto o suficiente para que Marcos não gastasse dinheiro com condução.

Num dia qualquer, após mais uma jornada dura de trabalho, ao chegar ao seu quarto, Marcos deparou-se com um cara. Sim, um cara que ele nunca tinha visto na vida. Estava sentado em sua cama, assistindo à sua televisão. Marcos, um tanto embasbacado, limitou-se a perguntar seu nome:

- João.- respondeu, para em seguida emendar: - Daqui a pouco vou embora, não se preocupe. Só estou fazendo um tempo.

Marcos, meio abobalhado, concordou. Mas aquilo era incômodo. E ele não fazia nenhuma questão de esconder. As horas iam passando. João pegou um saco de batatas fritas que estavam na despensa e passou a comer, deitado, em cima da cama de Marcos. Este, por sua vez, recolheu uma cadeira e pegou um livro para ler.

A bem da verdade, não conseguia se concentrar na leitura. Vez por outra tossia, como quem mostra que estava presente, e com o anoitecer gostaria de deitar, na cama que era sua de direito. João assistia a um humorístico na tv e gargalhava irritantemente.

Estava frio por aqueles dias. E Marcos resolveu ligar o ventilador na velocidade mais alta, e não obstante colocou-o a circular, de modo que atingisse frontalmente o inconveniente intruso. João passou a sentir. Dava pra ver que, agora ele estava incomodado. Finalmente tomaria vergonha na cara e iria embora, para os cafundós do Judas de onde nunca devia ter saído. Mas não foi isso que aconteceu. Ele pediu um cobertor. E Marcos consentiu.

Marcos adentrou o banheiro e começou a chorar, copiosamente. Quem era aquele desgraçado que aparecera para liquidar com sua vida, esmigalhar sua existência? Por que ele não morria? "Maldito filho da puta", pensava consigo mesmo o rapaz. Resolveu deitar, no chão mesmo, para ver se João se flagrava. E nada. Nadica de nada. Marcos pegou no sono.

Amanhecido o novo dia, João roncava na cama. Marcos não queria deixar seu quarto sozinho com aquele sabe-se-lá-quem. Esperou. Esperou. Esperou. Por mais que se esforçasse, fizesse todo o tipo de barulho, João não acordava. Dormia profundamente. E Marcos teve de ir, mesmo atrasado. Daria alguma justificativa para o chefe. Tinha que trabalhar. E João ficou, dormindo na cama de Marcos.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Parabéns ao Flamengo, campeão brasileiro de 2009

O Flamengo se sagrou campeão brasileiro na tarde de ontem, e da minha parte, recebe as sinceras congratulações. O time rubro-negro, que começou a rodada com 61 pontos, terminou com 67 (três da vitória de ontem, contra o Corinthians, e três da vitória do próximo fim de semana, contra o Grêmio), não podendo, dessa forma, ser alcançado por nenhum dos concorrentes.

O Inter, em sua partida contra o Sport, não jogou nada demais. Aliás, só começou a realmente jogar a partir da metade do segundo tempo. Ganhou, fez o máximo que estava ao seu alcance, e está na Libertadores do próximo ano. Agora, no próximo fim de semana, o time colorado jogará contra o Santo André na busca do vice-campeonato. Haja visto que há poucas rodadas atrás até o famigerado G4 estava escorrendo pelos dedos, seria um belo prêmio de consolação em uma competição em que o colorado abusou do direito de errar e jogar pontos preciosos no lixo.

Não foi ontem que o Inter perdeu o título, claro que não. Foi no momento em que, durante a maldita janela não trouxe um lateral-direito de ofício. Foi no momento em que vendeu Nilmar sem reposição à altura. Foi quando demorou uma eternidade para demitir Adenor Bacchi do comando técnico. Foram equívocos em excesso.

Mas, mesmo com essa série de erros escabrosos, o Inter se classificou para a Libertadores. Não deve comemorar isso como um grande feito. Comemorar vaga é coisa pra time pequeno. E agora pode chegar, em caso de vitória, ao terceiro vice-campeonato nacional nos últimos cinco certames. Não é título, não é glória, não dá taça nem volta olímpica. Mas, mordiscando, mordiscando, de repente uma hora o colorado ganha o tal de Brasileirão.

Me despeço por hoje mais uma vez saudando o Flamengo, merecido campeão brasileiro de 2009, e avisando aos irmãos de continente: saiam da frente, que em 2010 o Inter vem quente em busca do Bi da Libertadores e do Bi Mundial.

domingo, 29 de novembro de 2009

Inter: fazer a sua, sem pensar no resto

O Inter tem uma obrigação, hoje, contra o Sport, e domingo que vem, contra o Santo André: fazer a sua parte. Ganhar as duas partidas. Se o São Paulo vai perder, o Flamengo empatar, isso é secundário. Em um campeonato em que muitas vezes o colorado deixou de fazer o seu, enquanto tudo dava certo nos resultados paralelos, a ordem tem que ser somente essa: baixar a cabeça e fazer a sua. De resto, o que tiver que ser, se tiver que ser, vai ser.

Continua muito difícil ganhar o Brasileirão. O Flamengo vai pegar dois times que, digamos, não farão maiores esforços para não serem derrotados. O São Paulo, sim, corre perigo: o jogo diante do Goiás dos eternos Iarley e Fernandão vai ser cascudo. Para o time do Morumbi, é a grande final. Ganhando, é campeão. O que não daria para aceitar é se, por alguma ironia dos deuses, os resultados propícios viessem a acontecer e o Inter negasse fogo nesses seus dois jogos.

A Libertadores está praticamente garantida. O Internacional teria de ser o supra-sumo da incompetência para deixar essa bendita vaga escorrer pelos dedos. O título, é um sonho que se reavivou nas últimas rodadas. O sobrenatural de Almeida conspirou de todas as formas possíveis e imagináveis para o colorado ser campeão. Haja visto que poderemos ter um campeão com 65 pontos! 65 pontos! Medíocres 65 pontos!

Agora não adianta lamentar os (muitos) erros cometidos durante a temporada. Rocambolicamente, o Inter está vivo. E tem pela frente dois jogos contra mortos e/ou moribundos, com todo o respeito que Sport e Santo André merecem. É hora de esquecer o que passou, e unir torcida, direção, jogadores e comissão técnica nessa meta pra lá de alcançável: seis pontos nos dois próximos jogos. Depois, no fim do ano, com ou sem taça no armário, aí sim, o colorado terá que se repensar. E profundamente.

sábado, 28 de novembro de 2009

O homem e as intimidades

O sol brilha, dando um colorido especial ao gramado, às árvores, às folhas. Isso faz todo o sentido para Gustavo. Ele está sentado num parque, pensando em seu passado. Banhava-se nos raios solares com paz interior e uma tranquilidade que parecia até então não ter experimentado.

Deitou-se, fechando os olhos. Sonhava, criava cenários mentais, ouvia a harmoniosa sinfonia do canto dos pássaros. Ele gostava disso. De repente, quando abriu os olhos e voltou a sentar, deu de cara com uma moça deitada, pernas flexionadas, um vestido mais do que curto, e uma calcinha vermelha, cavadíssima, atochadíssima. De frente.

Era casado. E aquilo parecia um ímã para seus olhos. O gramado, o sol, as árvores, tudo tornara-se moldura daquela imagem íntima, intimíssima, da moça. Aquilo era canalhice pura, uma verdadeira cafajestagem. Sentia-se constrangido, sentia-se observado. Mas seus animalescos e carnais instintos remetiam seus globos oculares, inevitavelmente, para aquele corpo exposto, as nádegas brancas, macias e sobressalentes, a calcinha tão reveladora, úmida do calor que fazia no local.

Gustavo imaginava-se cheirando aquela calcinha. O odor daquele suor vaginal havia de ser um perfume dos deuses, um tanto hipnótico. Sentia vontade de beijar cada centímetro daquelas intimidades, despudoradamente. Gustavo sentia-se um sortudo. A sorte de observar aquele corpo de ângulo tão incrivelmente privilegiado era tão grande quanto ganhar uma Mega Sena.

O ímã continuava lá, remoendo-o, lembrando-o com certa vergonha de que tinha uma esposa, um casamento, instigando-o, deixando todas aquelas sensações primitivas em estado de nudez. Aquele corpo feminino não só revelava as curvas e carnes de uma mulher. Revelavam o homem por de trás de toda a moral, bons costumes e normas. As normas, a moral, afinal, servem também como uma forma de cercear os instintos humanos, já que suprimi-los é impossível.

Ali, naquele gramado, Gustavo e as intimidades da moça criavam uma espécie de relação conflituosa interior no homem. Era um duelo sangrento do id com o super-ego. Às vezes, é inevitável: o id vence.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

As três grandes potências futebolísticas do continente

Tem muita gente que olha atravessado para a LDU do Equador. Simplistamente, utiliza-se o argumento de que a equipe só ganha por causa da altitude, e outras balelas que tais. É óbvio que a altitude faz diferença. Mas não faz tanta diferença a ponto de transformar a equipe na potência que hoje ela é. Fosse tanta a discrepância, o The Strongest da Bolívia seria octa-campeão da América.
A verdade é que os anos 2000 serviram para afirmar três grandes potências no futebol do continente: Boca Juniors, Inter e LDU. O Boca, apesar de evidentemente já ser um grande clube, obteve suas maiores glórias na década presente. O Inter, um gigante em seu país, finalmente ultrapassou o âmbito doméstico, assim como a Liga Deportiva Universitária. Com o eminente título da Copa Sul-Americana, apenas estes três clubes poderão se gabar de possuírem a tríplice coroa continental: Libertadores, Sul-Americana e Recopa. São, precisamente por isso, a força que são.
Isso só serve para respaldar o valor que sempre dei às competições continentais. Cansei de defender, e continuarei defendendo, que a Copa Sul-Americana é mais importante do que qualquer campeonato nacional. Quantos países assistiram ao jogo da última quarta? Quantos países assistirão, por exemplo, a última rodada do Brasileirão? Essa é a grande diferença. E é uma questão geográfica mesmo: o continente é maior que o país, ora bolas.
Não é à toa que o slogan das chamadas da Sul-Americana na Fox Sports é "La otra mitad de la gloria". É uma competição que vem ganhando cada vez mais charme, dá status, e apenas o arrogante futebol brasileiro a considera um incômodo. O fato de a Libertadores ser mais importante não torna a Copa Sul-Americana uma competição desprezível.
Vencer, aparecer no cenário continental, é sempre prestigioso. É por pensar assim, grande, que Inter, Boca e LDU possuem essa espécie de hegemonia. E enquanto os outros continuarem pensando pequeno, a tendência é que venham a dominar ainda mais o cenário do futebol continental.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Estética e alienação

Estava vendo agora no site Globo.com uma matéria sobre um garoto romeno de 5 anos que se notabiliza por ser musculoso (http://g1.globo.com/Noticias/PlanetaBizarro/0,,MUL1355224-6091,00-MENINO+DE+ANOS+EXIBE+MUSCULOS+DE+RAMBO+E+QUER+RECORDE.html). É, no mínimo, estranho, um tanto assustador. Assim como é assustadora a transformação dos valores sociais em geral (sim, é muito complicado falar em valores gerais. Entretanto, no mundo globalizado, não chega a constituir de todo um absurdo), a desvalorização de muitas e muitas coisas importantes em detrimento de futilidades superficiais.
Nesse mundo cada vez mais midiático, irracional, guiado meramente pelos sentidos, os valores estéticos, músculos, bunda, silicone ganham um relevo inacreditável. Já não se busca mais a intelectualização, a gentileza, o bem viver da essência do espírito, da alma, da existência, ou chame como quiser. Definitivamente não importa mais ser. Somente parecer. E aparecer. Lamentavelmente.
Ocorre uma brutificação da imagem masculina, e uma sexualização da imagem feminina. No fim das contas, salvo raríssimas exceções pensantes que, ainda bem, ainda existem, o ser humano, no prisma das culturas de massa e alienantes, tornou-se puro pedaço de carne, tal qual uma chuleta ou uma alcatra exposta na vitrine do açougue. Os homens lutam para parecer estúpidos bolos de carne e músculos, rasos e rasteiros até para diferenciar um livro de um repolho.
As mulheres, por sua vez, tem como referência célebres figuras do feminismo pós-moderno como Mulher-melancia, Mulher-melão, Sabrina Sato e a mais nova sub-celebridade Geisy Arruda (fique claro, com isso não quero nem de longe legitimar a imbecilidade de seus colegas de Uniban, os quais critiquei enfaticamente aqui mesmo no DC). O que está na pauta é: que fenômeno é esse de a-valoração ou re-valoração que estamos vivendo nos dias de hoje?
Criticar os indivíduos médios da sociedade beira à covardia. Eles são mais produtos do que produtores. No máximo, são reprodutores dessa contelação de novos e contestáveis sistemas valorativos. Há, isso sim, uma violenta influência midiática sobre a sociedade. A pauta da vida das pessoas é a pauta escolhida pelos grandes veículos de informação, comunicação e entretenimento, cujos donos pertencem a um recorte social bem definido e específico.
Esses setores tem em mente que as massas estão entregues exatamente às suas mãos. Não quero aqui, de nenhuma forma, defender que as pessoas são desprovidas de capacidade de determinar o que lhes serve e o que não lhes serve. Mas elas são, sim, limitadíssimas, porque tem acesso a meios escassos de informação e entretenimento, que por sua vez compartilham objetivos e estratégias de progressivamente tornar o conjunto das pessoas das classes menos abastadas mais e mais ignorantes e distantes de todo e qualquer senso crítico.
O esvaziamento da dimensão intelectual exige um novo preenchimento. Aí, entram os fatores estéticos. Amigo telespectador, não tenha cérebro, é muito complicado: tenha bíceps e abdômen! Amiga de todas as tardes, não reflita sobre nada, esqueça os políticos e donos do poder: exercite os seus glúteos! É ou não é esse tipo de bombardeio que se vê na construção promovida pelos meios de comunicação?
Se ainda tiver dúvidas, caro leitor, tire cinco minutos do seu fim de tarde para ver Malhação (mais do que cinco minutos podem causar danos irreversíveis à massa cinzenta, por isso, não recomendo, sob hipótese alguma). Você verá exatamente do que estou falando. Lá está uma aula do tipo de socialização e de formação imagética do adolescente dos dias de hoje: estúpido, fútil, incapaz de pensar com uma profundidade que ultrapasse um centímetro.
Sorte é que, e essa é a minha gota de esperança, que ainda há algumas mentes pensantes por aí. Pessoas com quem somos capazes de falar coisas minimamente importantes e relevantes. Não faço uma apologia à feiura. Somente acho isso secundário, secundaríssimo. É uma cereja do bolo. No máximo. E só.
Entre Kafka e Bruna Surfistinha, fico com o primeiro. E tenho dito.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Ensaio sobre o cocô

Não sabemos se nos próximos dias, nas próximas semanas e nos próximos meses estaremos tristes ou felizes, no paraíso ou no inferno, motivados ou deprimidos. Mas sabemos que, de um jeito ou de outro, faremos cocô. O cocô é uma das poucas certezas que temos na vida.

O cocô é nojento e fede. É uma obra de arte bizarra do nosso organismo. O ânus e as nádegas também contribuem, esculpindo a plasta marrom. Claro, há os dias em que o corpo se recusa a tornar tal ato em obra burilada. Às vezes sai, e pronto. Sem forma mesmo, em estado líquido. É arte pós-moderna.

Quando soltamos o bendito barro, principalmente quando tomados de incontrolável desejo, ah, é sublime. Um verdadeiro ato libertário. Vaso sanitário ou morte! Quando, no trono, nos livramos daquele negócio agora inconveniente, que ontem ou anteontem era uma saborosa lasanha ou um delicioso pudim de leite condensado, aquilo, somente aquilo, configura todo o sentido da vida.

Além disso, o cocô é democrático. Da minha bunda sai cocô. Da bunda da Sabrina Sato sai cocô. Da bunda do Lula sai cocô. Da bunda do Serra sai cocô. Da bunda do Sarney sai cocô. Da bunda do Obama sai cocô. Da bunda do Hitler também saía. É claro que, merda por merda, tem gente que a tem na cabeça. Tem gente que fala merda. E tem gente que escreve merda. Tipo, eu.

O cocô também sabe, e como sabe, constranger. Exame de fezes, por exemplo. É um constrangimento e um incômodo duplo. Primeiro, quando se tem que encaixar o bendito copinho no rabo e mirar. E não pode ser muito grande, sob pena de o copinho não aguentar e aquele merdelê, argh, bater na mão. Não bastando isso, depois ainda temos que levar o tal copinho de mousse de chocolate para o laboratório. Oi, moça! Tá aqui o meu cocô.

O cocô é um mal necessário. Não há como viver sem o cocô. Agorinha mesmo, tenha a certeza fatal, caro leitor: há pelo menos um pouquinho dele dentro de você. E quando você for à praia admirar belas bundas em minúsculos biquinis, lembre-se, pelo menos por prazer sádico: aquelas belas bundas em minúsculos biquinis também cagam.

Bom, por enquanto chega. Esse texto ficou uma merda. E estou cagando e andando pra isso.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Teimar

Não há mais remorsos.
Tudo o que devia, tudo o que podia, foi feito.
Sabe que não há mais nada, não há mais esperas ou esperanças.
Ou há?
Ah, sempre há!

Teimar, por vezes, é virtude.
Querer, ora, não é crime.
Ainda não é.
Mas as ambições e sonhos parecem sempre uma mesquinhez egoísta e inalcançável.

Há como se buscar o que se deseja, de um jeito ou de outro.
Deve-se ressurgir, ressuscitar.
Onde houver um sopro de chama, haverá um doido, lunático, sincero sonhador.
E é bom que haja.

É isso o que buscamos, é isso o que realmente alimenta.
É guardar, sim e sim, o improvável e o imprevisível.
É não desistir.
O bálsamo está no coração.

Com ou sem sinceridade, de algum jeito valeu.
Mentiras sinceras me interessam, diria Cazuza.
Valeu sim, tenham certeza.
Isso é alegrar-se com alguma motivação.
A motivação de deitar a cabeça no travesseiro pensando no amanhã.
E sonhar.