domingo, 30 de novembro de 2008

Crise do capitalismo

Importante o atual momento para se debater a crise do sistema capitalista global. Eu, particularmente, apesar de considerar todas as dificuldades inerentes a um sistema que tem como premissa a desigualdade, não acredito que o capitalismo esteja entrando em um colapso definitivo. Seria importante uma evolução, a viabilização de um sistema que ao menos aumentasse as redes de proteção aos pobres, reduzindo desigualdades moralmente inaceitáveis. Talvez o momento seja propício para uma evolução limitada. Mas um novo sistema, comunista, com um direcionamento radicalmente diverso do que se vê hoje em dia, me parece utópico, para dizer o mínimo.
O capitalismo está disseminado, não só no trato de questões políticas e econômicas em escala mundial, mas também na cultura ocidental. A cultura ocidental (sim, cultura ocidental, pois regionalizações são progressivamente obsoletas no atual panorama de globalização) é uma cultura capitalista. As pessoas pensam o mundo com uma visão capitalista, atomizada, individualista. Quem se dá bem na vida é vencedor, quem se dá mal é perdedor. Essa é a mentalidade reinante. As pessoas consideram as condições e as origens apenas como uma questão tangencial, que toca, mas não chega a ser determinante. Para isso, inverte-se a lógica, e adota-se as exceções como regra. Regra a ser seguida, e que os fracos não seguem. Maioria de fracos. Claro que em tudo há méritos individuais, há a determinação de cada sujeito. Mas, acima de tudo, está um sistema altamente excludente, que promove uma concentração de renda violenta e revoltante. O Estado torna-se ineficiente, talvez meio preguiçoso e acomodado, entregando atribuições suas para o setor privado, e degenerando cada vez mais seus serviços. Os pobres, que não podem comprar os serviços essenciais que deveriam ser fornecidos com qualidade pelo governo, ficam à mercê. Claro que há dificuldades pontuais, por exemplo, do Estado brasileiro e da América Latina em geral. Lógico que em Estados capitalistas de bem-estar social esses danos são minimizados. E, realmente, um Estado de bem-estar social parece ser o máximo que podemos almejar em curto prazo. Lula no Brasil tenta. Outros governos latino-americanos tentam. Mas ainda estão entregues às ferrugens de um capitalismo retrógrado, e os tubarões ainda lucram em excesso nesses países.
Chávez, Morales e Correa estão mais próximos de construir algo que se pareça com o socialismo, mas talvez estejam atropelando um estágio, do bem-estar social, para um caminho que nem mesmo eles parecem saber realmente qual é. Têm políticas que podem promover uma melhor qualidade de vida para seus povos, mas por estarem relativamente isolados em escala mundial, têm de dedicar-se primeiramente a defender a soberania de seus países.
É difícil prever o alcance da crise do capitalismo. Mas tenho uma convicção. Não é dessa vez que o sistema vai por terra abaixo. Ele ainda tem força e faz parte de um imaginário ainda intocado da maioria das pessoas. As forças de esquerda e as alternativas parecem desarticuladas, sem um plano realmente sólido, sem um planejamento do que deva acontecer a longo prazo. A própria esquerda não criou um terreno fértil que proporcionasse uma unidade de ação. O que se nota é, pelo contrário, uma fragmentação das esquerdas, com divisões em termos de plano de ação, e a perda de setores para movimentos sociais também fragmentados, sem articulação de políticas mais amplas. O advento Obama nos Estados Unidos poderá ser um motor para a superação de um capitalismo por outro capitalismo, mais racional e menos desenfreado. Queria que houvesse mudanças mais profundas. Mas me parece que, para o momento, é tudo pelo que podemos esperar. Algo fora disso não passa de devaneio.

sábado, 29 de novembro de 2008

All Star

Cheguei à conclusão de que o All Star é uma fato social. Estou sentado em uma sala de aula, observando as pessoas ao meu redor, e, de 5 pessoas minha volta, 3 estão calçando All Star.* É um tênis proliferado. É óbvio que eu já havia observado anteriormente que o All Star é extremamente popular. Mas não deixa de causar certo espanto quando observamos a intensidade e a extensão dessa popularidade. Acaba de chegar mais um cara. Adivinha o que ele está calçando? All Star é pop.
Gosto do All Star. Acho um tênis extremamente simpático, estiloso e bonito. Tive dois pares na minha infância. Talvez um e meio, pois apenas um dos pares era da marca All Star. O outro era um que o governo do estado tinha dado para os colégios estaduais, junto com mochila e diversos outros materiais. Isso era na gestão Collares, se não me engano. Méritos dele, pois foi uma bela iniciativa. Louvável. Claro que o tênis não era lá muito bonito, graças a uma combinação de cores do azul marinho do calçado com cadarços cor-de-laranja.
Talvez algum dia eu compre um All Star. Mas para mim é difícil abandonar os tênis de futsal. São extremamente confortáveis, além de fazerem parte do meu estilo. Aliás, o meu estilo é não ter estilo, nada muito estereotipado. Visto-me da forma que me faz sentir bem. Talvez isso não seja falta de estilo. Talvez seja sobra de estilo, o meu estilo. Talvez seja um estilo Renner/C&A. São as lojas de roupa pop-baratas. Pop-pobre. Final de ano sempre tem rancho na Renner ou na C&A. Tudo na base do cartão, claro. Classe média baixa e classe pobre não tem direito a ter estilo. Não com toda a liberdade imaginável e desejável.
Esse é o mérito do All Star. Permite um estilo, embora longe de ser alternativo hoje em dia (basta medir o índice de All Stars por habitante jovem no mundo ocidental). Também é um mérito de camisas de banda compradas na Voluntários da Pátria. Mas o All Star também tem seus grandes méritos. Conheço pessoas realmente alternativas que usam All Star. Porém, também é inegável: tem muito bundinha que o usa. Mas no fundo sabemos quem realmente é e quem não é alternativo. E talvez seja um dever de resistência alternativa que os alternativos tenham, o de continuar usando All Star. Afinal, deve-se lutar contra apropriações indébitas, e seria uma violência entregar o direito de usar All Star aos fãs de Justin Timberlake. Entretanto, a popularização e a massificação do All Star foi inevitável historicamente. Afinal, a vontade de ser alternativo também é pop.
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*Texto escrito enquanto eu esperava o começo de uma aula que atrasou por volta de meia hora.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Grande Cebola!

Li uma notícia que mudará os rumos da humanidade. O Cebolinha ficou com a Mônica! Ô mundo moderno. Ou pós-moderno! Quem diria, hein? Os pombinhos se juntaram na versão jovem dos quadrinhos que povoaram a minha infância. Grande Cebola! Talvez Maurício de Souza possa fazer quadrinhos adultos da Turma da Mônica no futuro! Mas ah! No início do casamento, cenas quentes, Cebolinha tirando lágrimas dos olhos da dentucinha. Poderia haver também traições, sacanagens. Além disso, Chico Bento poderia sair de sua vidinha interiorana para ser um sub-empregado da metrópole. Maurício de Souza abriu um espaço muito fértil. E quem casaria com Cascão? Coitada da esposa que fosse lavar as cuecas do rapaz, cheias de freadas.
Depois, lá pelos 40 anos, Mônica poderia colocar uns chifres no Cebolão! Nem ia ter grandes problemas, devido ao corte de cabelo, que disfarçaria bem. Mas o Cebola, claro, não ficaria atrás, e vagaria por cabarés vagabundos da noite paulistana. Encheria a cara e chegaria bêbado em casa. Mônica, frígida, nem ligaria, viraria na cama e deixaria o coroa de cabelos espetados dormir e levantar a noite toda para conversar com o Hugo. Eles também poderiam ter filhos! Mônica daria surras de Sansão nas bundinhas dos filhotes. Escondida, encheria a cara de whisky em banheiros pela rua. E Magali seria bem rechonchuda. Não, não seria nada. Seria uma ex rechonchuda pelancuda, complexada, maníaca por cirurgias plásticas. Compraria todo time de cosmético e de produtos do tipo daqueles que dão choques elétricos na barriga.
Também haveria churrascadas. Magali e Mônica ficariam na cozinha fazendo salada de maionese (light, porque a Magali seria uma maníaca, como já falei), e Cebola e Cascão ficariam na churrasqueira, tomando um trago, comendo uns coraçõezinhos e reclamando dos gastos das esposas. E todos seriam felizes para sempre.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Épico

A vitória do Inter em La Plata foi épica. Sim, isso é uma vitória épica. Final de campeonato, um jogador a menos desde os 25 do primeiro tempo, e 11 leões em campo. Esse é o Inter. Pra matar secador de inveja. Pra matar secador do coração. O título não está ganho. Mas está muito bem encaminhado. Só uma tragédia sem precedentes pode nos tirar a Copa Sul-Americana (toc, toc, toc). Para que isso não aconteça, é fundamental ser humilde, manter-se focado, e fazer o que tem de ser feito. É fundamental manter o mesmo nível de concentração que o time teve hoje.
Algumas atuações individuais foram soberbas. Lauro às vezes é meio estabanado, mas tem muita estrela, e a seu jeito, contribuiu muito, interceptou cruzamentos, fez cera, enfim, foi fundamental. Álvaro foi perfeito. Que zagueiro bom! Um gigante, tomou conta da área colorada. Não é dono de técnica refinada, mas é extremamente eficiente. Bolívar foi muito seguro. Edinho, apesar de ser um trator, uma máquina de fazer faltas, foi muito bem na marcação, protegeu a zaga com excelência. D'alessandro foi o maestro do time. Tocou, driblou, e nas piores horas foi o desafogo, o cara que parava o jogo, fazia o time respirar. E Nilmar foi um inferno para a zaga argentina. Cavou o pênalti e foi um guerreiro solitário no ataque.
Também houve atuações pobres tecnicamente. Alex foi muito menos do que geralmente vem sendo, apesar de ter marcado o gol de pênalti. Magrão foi mal, parecia fora do timming da bola e do jogo. Marcão é um jogador que, quando a coisa aperta, mostra que é bastante deficiente. Tenta sair driblando, jogando, e não sabe fazê-lo. Mesmo assim, quando não inventou, foi eficiente. Mas acima de atuações individuais, boas ou ruins, o Inter foi taticamente perfeito. E isso é mérito de Tite, que ainda foi muito feliz ao colocar Gustavo Nery quando Alex se arrastava em campo.
O que se viu foi exatamente o que eu disse antes do jogo: o Inter é maduro. Hoje, o que se vê em campo é um time com postura de campeão. Um time de respeito. Sabe aquela admiração que muitas vezes temos por Boca e River? Aquela coisa de ver clubes que, mesmo quando não jogam bem, se vê que são de respeito, que tem postura vencedora, que são grandes, que têm imponência? Pois bem, não se precisa ir a Buenos Aires para ver isso. O Inter hoje é isso. O Inter é imponente. Ao pisar no gramado, se vê que ali não está um time qualquer. Está um time que é mais que os mortais. É mais também do que os imortais. Para desespero da vizinhança, o Inter hoje é uma potência futebolística do continente. Disputa com São Paulo e Boca o posto de time da América com maior projeção mundial. O Inter escreveu no jogo de hoje mais uma linda e inesquecível página da sua história. Mais um passo na ambição de ser o maior clube de futebol da América.

Vale título

Daqui a pouco o Inter entra em campo para enfrentar o Estudiantes. É um duelo de titãs na final da Sul-Americana. De um lado, o dono da Tríplice Coroa; do outro, um tri-campeão da América e campeão da extinta Copa Intercontinental. Vai pegar fogo! É inevitável, estou ansioso. Não é todos os dias que se decide um grande título de escala continental. Alguns setores fingem não ver a importância. Mas é importante sim. O Boca fez a maior festa quando a ganhou. Duas vezes.
Os invejosos poderiam inclusive ir dormir, com seu falso desdém. Hoje, só gente grande fica acordada. As crianças vão dormir. Mesmo que não haja mais sonhos. Faz parte da vida. E o colorado entrará em campo, imponente, grande, vencedor, multicampeão. O adversário é dos mais encardidos, não duvidem. Mas o Inter é suficientemene forte. Não vamos levar 5 a 0 em final continental somada. deixa isso pra vizinhança. Mais: o Inter tem tudo pra ser campeão. Vamos conquistar a América mais uma vez. Estou esperançoso. Mas a decisão do título, pra mim, é hoje. Se o Inter não perder, atrevo-me a dizer que o páreo estará 90% corrido. Sim, times argentinos são traiçoeiros. Mas o clube do povo adquiriu tal maturidade nesse tipo de competição que já se equivale aos hermanos. O time do Inter tem uma imposição nessas disputas para deixar freqüentadores de segunda divisão sapateando e morrendo de inveja. Hoje o "time copeiro" dessas plagas é vermelho e branco. Que o digam São Paulos, Barcelonas, Inters de Milão, Pachucas da vida. E que o diga o grande Estudiantes de La Plata.
Hoje é briga de cachorro grande. Vale título grande. Vale a América. Vale o orgulho de ser o único time brasileiro a conquistar todos os títulos que existem para um clube ganhar. Vale vaga na Recopa e na Copa do Sol Nascente no ano do Centenário. Vale a nossa existência maravilhosa torcendo por um time que nos dá muito mais alegrias do que tristezas nos últimos anos, conquistando taças e derrubando gigantes mundo afora. Gigantes sim. Mas não tão gigantes quanto o Sport Club Internacional.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Abduzido

Hoje pela manhã fui à dentista recolocar um braquete que havia caído do meu aparelho. Consegui fazer o braquete cair comendo um brigadeiro, vejam só! Pois bem, realmente acho o ato de ir ao dentista bastante peculiar. Me sinto como se tivesse sido abduzido, confesso. Não, não sou a Elba Ramalho, nunca fui levado por extra-terrestres para os confins do universo. Mas imagino como seja a abdução. E a cadeira do dentista, aquele processo todo, soa muito parecido com minha imaginação de seqüestros espaciais.
Sentamos naquela cadeira, e eu geralmente fecho os olhos, intercalando com algumas olhadelas. Ficamos ali, reféns, de boca aberta. E o dentista (no meu caso, "a" dentista) fica ali, com aquela máscara, mal o vemos, e vários aparelhinhos, várias coisinhas são colocadas em nossa boca, ferramentas cuja serventia não fazemos a menor idéia. Realmente é engraçado. Pelo menos eu acho. E permanecemos, reféns, meio letárgicos, na mão do dentista. Maquininhas, barulhinhos, e total falta de noção do que está se passando em nossa própria boca.
Idas ao médico, principalmente em hospital público, também têm um pouco de abdução. Em menos escala que os dentistas, é verdade. Mas aquelas idas de setor em setor, exames, raio x, ressonâncias, raios lasers, tudo isso também remete a uma aventura espacial. Somos menores e mais um. Seres deslocados de seus ambientes costumeiros para ambientes em que somos objeto, objeto da ciência, um número, um envelope, um relatório.
Enfim, terminei a colagem do braquete. Voltei ao mundo, fui liberado. Estou aqui relatando minha experiência espetacular de abdução numa cadeira de dentista. Mas foi mais. Foi fascinante, inspirador. Foi realmente uma viagem intergaláctica. Agora, não passa de uma viagem na maionese.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Série B

O Corinthians conquistou a segunda divisão! Vi em vários canais ontem a festa do coringão, Mano Menezes dando entrevistas tal qual um mestre sábio, o messias corintiano. Que beleza! A série B é do Corinthians! Mas, e daí? Grande e bela merda, com todo o respeito àqueles que acham grande coisa e fazem dvds. Mas é tudo de acordo com a grandeza dos clubes.
Reputo o Corinthians como um time grande. Antipatizo demais com o time do Parque São Jorge, que surrupiou o tetra-campeonato brasileiro da coleção de taças coloradas. Mas, que é grande, isso é. Por isso fiquei bastante surpreso com a festança. Esse é o tipo de conquista que um time que se imagine grande tem que colocar num cantinho do museu, bem escondidinho. Talvez tenha de ficar no almoxarifado.
Para o meu time, eu não quero essa taça. Jamais. Algumas páginas da história de um time de futebol devem ser esquecidas. Rasgadas. Queimadas. Ser campeão da segunda divisão é mais ou menos como ir a uma festa cheia de mulher bonita, tentar todas, não pegar nenhuma, às 5 da manhã pegar a maior baranga da festa, e sair espalhando para os amigos que é o pegador. Faz o seguinte, Corinthians: fazer festa já não é recomendável, mas, pela dignidade, pela grandeza do Corinthians, não façam dvd! Não registrem historicamente um momento que nunca será mais do que um momento constrangedor para um time grande: a passagem por uma segunda divisão. E chega de dar palpite para os corintianos. Deixa eu me preocupar com o meu colorado, da primeira divisão.

domingo, 23 de novembro de 2008

Dilemas Cotidianos- Capítulo 8

Um final de tarde qualquer, havia sol na rua, porém ventava bastante. Fernando estava bebendo uma cerveja, em um bar pouco movimentado. Observava a rua, e quase ninguém passava. Era uma segunda-feira. As moscas passeavam sobre os risólis e pastéis daquele boteco. E só Fernando estava sentado. Nada era confiável, e o dia era melancólico. Apesar do sol, aquele vento era melancólico. Soprava tristemente. Fernando praticamente não pensava. Contemplava o deserto na metrópole.
Adentrou o bar uma moça. Era a moça que marcava o cigarro com seu batom vermeho. Era Débora. Ela viu Fernando e sorriu. Sentou-se com ele. Fernando pediu mais um copo, meio sem saber como agir, meio sem saber o que, exatamente, esperar. Débora poderia ter sentado na cadeira à frente de Fernando. Mas escolheu a cadeira do lado dele, à direita. Conversavam, e pegaram-se na mão. Ali, já não mais interessava o que havia acontecido antes. Não mais interessava o entrelaçar de pernas de Débora com o rapaz com anel de lata de Coca-Cola no nariz. Aquele cara era um cara menos naquele momento. Que morresse, e nenhuma diferença haveria para Fernando. Seria bom, inclusive. Era um estorvo desagradável, que havia de ser esquecido.
A conversa andava, fluía, talvez como Fernando sequer imaginasse. Os dois se abraçaram, o rosto do rapaz ficava no meio dos cabelos loiros de Débora, e ele beijava seu pescoço, e beijava seu rosto, até que a boca de Débora procurou o boca de Fernando. Beijaram-se, com um fervor religioso. Fernando sentia-se realizado. Tudo estava recheado de sentido. E nada que não fosse a mesa daquele bar tinha importância nenhuma para ele. A vida dele, naquele momento, resumia-se àquilo. Era como a resolução de algo mal resolvido.
Fernando acompanhou a moça até a porta de sua casa. Beijavam-se, e não paravam. Débora chamou-o para dentro. Lá, beberam um vinho, conversavam, beijavam-se, sentiam seus cheiros, e o odor de Débora era extremamente agradável. Ela passava os lábios no pescoço de Fernando de uma forma que o fazia arrepiar-se por completo. Tudo aquilo culminou com uma transa. Suavam, sentiam cada centímetro, cada milímetro de seus corpos, tocando-se, suados, e se beijavam até faltar o ar. Dormiram e terminaram aquela noite. Fernando acordou direto para o trabalho. Tomou um banho, e Débora ainda ficou deitada. Beijaram-se, em despedida. Fernando gostaria de ficar ali, com ela. Mas não podia. Às vezes a vida possui forças superiores e inelutáveis. Uma delas era aquele dia de trabalho. Pegou o ônibus, pensando em tudo, feliz. Sentindo algo que ele gostaria de recolher, guardar, e nunca mais perder.

sábado, 22 de novembro de 2008

Tolices

Não sei o que dizer hoje. Não sei o que pensar. Muitas vezes, viver é a arte de morrer da forma mais lenta possível. Nada mais do que isso. Porque a vida é ingrata. Ela arranca tudo, tudo se transforma, e geralmente da pior forma possível. Quero pensar e refletir. Ao mesmo tempo, quero apenas dormir e esquecer tudo, esquecer absolutamente tudo, esquecer quem sou, quem fui, o que vivi, o que deixei de viver.
É engraçado perceber que acreditamos em felicidade. Essa porcaria não existe. Estou convencido disso. Jamais, jamais vai existir. Todas as coisas boas são sempre o prefácio da tragédia. Sempre. São o gosto doce antes do veneno amargo e letal. São a melhora que antecede a morte. É tolice acreditar na vida. É tolice esperar qualquer coisa da vida. Ela só nos dá migalhas para que possamos continuar nossas desgraças. Ela é tão cruel que não nos deixa morrer convictos. Mas hoje estou convicto. Tenho de estar convicto. Otários. Todos que um dia acreditaram na vida, essa política demagógica e mentirosa que é a vida, são uns otários. É simples. Chega de tudo, simplesmente sempre vai ser igual, simplesmente nunca, nunca, nunca as coisas se consolidarão. É inútil querer ter força, acreditar em qualquer brilhareco. A vida já nasce morta. Essa é a verdade. A irrefutável verdade. Esqueçamos esse lixo todo, todas essas ilusões bestas, tolas e infantis. Nada de bom jamais vai acontecer, porque tudo já está determinado. Tudo. Tudo. Tudo. Contentemo-nos com nada. Nada. Nada.
Amanhã é um novo dia. Ah, mentira. Amanhã é mais um dia fabricado em série. A vida é uma repetição industrial de dias. Consumimos o mesmo maldito produto, e tudo sempre vai ser igual com roupagens diferentes. Simples e angustiante. Somos marionetes, brinqudos de algo mais forte que nós, e que insiste em nos fazer passar as mesmas coisas. Sempre. Sempre. Sempre.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Sobre a felicidade

Ganhamos do Chivas. Um chocolate. Um jogo para a história, uma atuação perfeita. O Inter é finalista, e esse é um mérito que tem de ser dado à atual direção: o Inter voltou a ser protagonista. Dá orgulho de ser colorado. E D'alessandro é um craque. Definitivo e sensacional. Que jogador! E que atuação coletiva do Inter. Maravilhoso.
Estou feliz. A vida é incrível. Estou insuportavelmente feliz, irritantemente serelepe. Sim, sou um serelepe, um moleque, estou animado, estou feliz, e vejo beleza em tudo, e sinto vontade de sorrir com tudo. Tudo hoje é incrivelmente belo, indescritível, inexplicável. Simplesmente vejo tudo, não sei descrever nada, mas todas as coisas têm um significado em sua própria existência. Nada precisa fazer nenhum sentido, simplesmente não precisa. O sentido é a própria existência de tudo, a respiração, a vida que sinto em cada objeto que minha vista alcança. Sim, tudo, absolutamente tudo, é cheio de vida, sentido e existência. Amo o Inter. Amo tudo, amo até o que odeio. Como é bom ser colorado! Como é bom viver! Como é bom existir! Hoje não quero entender nada, e também não quero ser entendido. Só quero respirar. Simples assim. Contemplar a minha alegria e a minha existência. E o Inter vai ganhar a Sul-Americana.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

O templo

Vomitar é ritualístico. É algo poético e transcedental. Hoje acordei à força, sendo chamado pelo templo sagrado que é o banheiro. Sim, a arte de vomitar tem algo de religioso. Tem caráter de penitência. Temos que atender ao chamado. Caso contrário, somos submetidos à auto-humilhação, ao auto-flagelo, de limpar o chão, de contactarmos nossa sujeira, nossas vergonhas. É um chamado maior do que nossa reles existência. Corremos, em direção à luz. Chegamos ao vaso. Não, não é um vaso sanitário. É um totem, uma imagem, e ele nos faz curvar, solenemente, às vezes até nos ajoelhamos perante a imagem.
Ali, fazemos o expurgo. Ao mesmo tempo, refletimos sobre o que fizemos de errado. Ou o que comemos de errado. Sim, aqueles minutos são solenes. O vaso sanitário é sacrossanto. Revivemos emoções e sabores. É uma espécie de regressão espiritual e culinária. Sofremos um pouco. É, ao mesmo tempo, extremamente desagradável, e alentador. Chegamos a lacrimejar. E olhamos para aquilo. Foi, e não foi. Foi, desistiu e voltou. Cheio de significados. Às vezes ficamos mais alguns minutos, esperando mais uma parcela, mais emoções. Tantas vezes elas não vêm. Ao voltarmos para a cama, percebemos que, sim, havia mais a cumprir, mais penitências a pagar. A santidade, por sua sacralidade, também tem caprichos, e nos faz voltar a hora que ela quer.
E voltamos, sempre voltamos. Porque o vaso é transcedental, e o templo nos abraça na dor, na dificuldade, na azia. Benzemo-nos na sagrada pia. Lavamos os resquícios das impurezas e do expurgo. Voltamos mais aliviados, com o espírito em paz, à nossa cama. Podemos, finalmente, ter leveza na alma, no espírito, no estômago. Purificados estamos para prosseguir nossos descaminhos.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Albergue

Ontem pela noite revi, pela vigésima nona vez, o filme "O Albergue", de Eli Roth. E não canso de ver esse filme e pensar na profundidade dele. "O Albergue" é um filme incompreendido. Muita gente o classifica como violência e carnificina gratuita. O filme é um açougue, disso não restam dúvidas. É de uma violência inimaginável para quem via Jason e Chucky na infância e os achava malvados e monstruosos. Na verdade, eles são uns fofos na comparação. Mas o filme de Eli Roth é de uma profundidade que aqueles que o criticam não conseguem enxergar.
Claro que há sempre o etnocentrismo norte-americano envolvido nessas tramas de monstruosidades. Elas ocorrem geralmente em algum país da Europa Oriental e ex-comunista. Há um forte viés ideológico envolvido nisso, uma espécie de subliminaridade. Quando não ocorrem em países que foram comunistas, ocorrem em cidades fantasmas nos Estados Unidos, aquelas em que a democracia e a lei não podem existir por não existirem no mapa. Nos Estados Unidos que existem, em Los Angeles, Nova York ou São Francisco, esse tipo de monstruosidade jamais aconteceria. A exceção foi Jason em seu oitavo filme, que acabava em Nova York. Mas Jason era um morto-vivo... Também chama a atenção o fato de os estadunidenses serem as vítimas mais caras no filme. De novo aí, oposições e subliminaridades.
Abstraindo-se isso tudo, pode-se ver o quanto esse filme possui contato intrínseco com a realidade. E de certa forma, questiona certos valores da sociedade atual. Hoje em dia, tudo, absolutamente tudo, pode ser comprado por dinheiro. Menos os sentimentos. E olha que há controvérsias, mas tudo bem. Porque não seria plausível que mentes doentias pagassem para torturar pessoas? É tão absurdo? É tão inimaginável? Não, não é. Essa é a profundidade, a grande sacada do filme. Mostra o lado mais obscuro do ser humano, a sua animalização, e quanto o dinheiro pode transformar tudo em número e produto.
Pessoas, suas vidas, suas trajetórias, tudo que as envolve, viram um número do Clube dos Caçadores de Elite. Eles escolhem suas vítimas como quem escolhe um cãozinho numa pet shop. As vítimas gritam, esperneiam, desesperam-se. Para os torturadores, aquilo não faz a menor diferença. É pura diversão. Chega a ser emblemática a cena em que Josh, amarrado numa cadeira, acorda, e de repente vê um sujeito ligando uma furadeira (sujeito, que por sinal, já tinha cruzado seu caminho anteriormente), e grita, implora, pergunta "o que foi que eu fiz pra você? Por favor, não faça isso comigo!" Talvez essa cena sirva como a mais simbólica do filme. O desespero, uma vida que se torna um joguete na mão de um maníaco, ali, como um produto, como algo que se relaciona intrinsecamente com a vítima e para o assassino não passa de mais um grito, mais uma vida, mais alguma coisa banal.
E, no final do filme, somos também um pouco sádicos, um pouco monstruosos, pelo menos eu sempre sou. Quando Paxton, o sobrevivente da trama, que tinha perdido dois dedos na casa de torturas, pega um dos torturadores no banheiro de uma estação de trem, para se vingar e fazer o mesmo, eu fui ao êxtase. Vibrei e cortei os dedos da mão do sujeito junto com a vítima. Olho por olho, dente por dente, dedo por dedo.

domingo, 16 de novembro de 2008

Dilemas Cotidianos- Capítulo 7

O sol é irritante. O fim de semana de Fernando indica apenas desagrados. Tudo que ele vê na tela da tv é chato e apático. Tinha muitas cervejas em sua geladeira. Bebia uma a uma. Ele ora observava a rua, ora olhava aquela porcaria que passava na tv. Estava entediado. Resolveu telefonar para Julieta. Ligou, e o telefone chamava, chamava, chamava, e ninguém atendia. Uma especie de desespero tomou conta de Fernando, e ele queria porque queria ver Julieta. Saiu de casa. Pegou o ônibus. Resolvera ir até a casa de Julieta. Talvez ela o recebesse. Poderia ser bom. Essa era a sua expectativa.
O ônibus passava pelas ruas, e ele observava na verdade as pessoas que adentravam a condução. Havia uma bela mulher no banco do outro lado do corredor. Ele estava sozinho em seu banco, o lugar ao lado vago. Ao fundo, uma velha, vez por outra, gritava, esquizofrenicamente: "Seus desgraçados! Bando de desgraçados! Jesus voltará! Ele voltará e castigará a todos! Malditos! Oh, como vocês todos são malditos!" O cobrador observava, incomodado. Fernando também sentia-se incomodado. Sorria constrangidamente. Dois bancos à frente, uma moça de cerca de 30 anos amamentava seu filho. A seu lado, um homem, de uns 50 anos, cabelos predominantemente pretos, mas com fios brancos, olhava, desavergonhadamente, para os seios da moça. Aquilo era um desrespeito e uma invasão. Fernando sentia nojo ao ver aquilo. Ele não era santo. Era um observador de bundas. Mas, tudo tem um limite. Os próprios instintos masculinos têm o seu limite. Por isso, Fernando sentia-se um tanto enojado. Sentia vontade de arrancar os olhos daquele homem. E ele não parava! A moça fingia não perceber. Mas é óbvio que percebia. Aquela viagem pela cidade tornou-se um grande peso, um grande incômodo. Aqueles olhos, aquele homem. Que nojo sentia Fernando. Que asco.
Chegou à sua parada, e desceu. Tocou o interfone de Julieta.
- Quem é?- perguntou a moça.
- É o Fernando.-prontamente respondeu.
Ela abriu a porta, e Fernando subiu as escadas. Julieta estava em seu apartamento, linda, com uma roupa simples, aconchegante, mas belíssima. Fernando disse a ela que estava sem nada para fazer, entediado, e resolveu visitá-la. Julieta sorriu. Fernando sentou-se no sofá, e Julieta sentou-se a seu lado, as pernas flexionadas sobre o móvel. Ofereceu um vinho, e Fernando prontamente aceitou. Bebiam, olhavam-se, conversavam. Fernando adorava a atmosfera que se criava. Entretanto, não se sentia à vontade para ultrapassar aquela fronteira. Do jeito que estava, estava bom, pois, pensava ele, Julieta poderia ficar irritada se ele fizesse algo, ela podia nunca mais olhar para sua cara. E as coisas ficaram assim. Fernando, então, despediu-se. Enquanto os dois se despediam, deram as mãos. Foram uns 5 segundos. Mas foram 5 segundos marcantes. Fernando jamais tinha pensado que um tocar de mãos, que sentir os dedos de uma mulher tocando os seus, seria tão significativo. Foi bom. Ele sentiu-se nas nuvens. Foi embora sorrindo. Dormiu no ônibus sorrindo, misturando sonho e realidade, recordando o tato da mão de Julieta na sua. Terminava o modorrento dia de fim de semana com um saldo positivo.

sábado, 15 de novembro de 2008

Joaçaba

Revoltante é o mínimo que se pode usar para o caso do estupro da menina de 15 anos em uma festa em Joaçaba, Santa Catarina. Uns imbecis, debilóides, retardados filhinhos de papai aproveitaram-se de que a menina estava inconsciente para cometer o ato libidinoso, filmando e colocando na rede. Já disse anteriormente aqui o quanto me revolta e enoja esse tipo de crime, mais do que qualquer outro. Já falei do quanto isso é agressivo, do quanto é desumano, e de quantos estragos morais o estupro causa.
Eram uns filhinhos de papai, playboyzinhos que desconhecem a palavra limite. No país do carteiraço, as coisas funcionam assim a maioria das vezes. Os ricos saem impunes. Mas, de vez em quando, esses desocupados que saem por aí incendiando índios ou estuprando adolsecentes inconscientes fazem merda, e esparramam-se nela, como diz uma amiga minha. Foi esse o caso. Os idiotas colocaram na internet. Foram pegos. Agora, seria importante que os veículos de imprensa e a sociedade civil se mantivessem ligados nos acontecimentos posteriores. Deve-se acompanhar de cima o processo, e ver quanto tempo esses imbecis ficarão presos.
Por mim, podiam apodrecer na cadeia. Por mim, podiam ser as menininhas da cadeia. É a própria ética dos criminosos. Eles também têm sua ética. Playboyzinhos, perfumadinhos, engomadinhos, e estupradores. Como diria a filósofa Ivete Sangalo: "Vai rolar a festa". Na cadeia. Se o sistema judicial não punir de acordo com o merecimento desses calhordas, pelo menos os coleguinhas vão fazer eles comerem (ou serem comidos) o (ou pelo) pão (ou pau) que o diabo amassou. Com direito a requeijão! Pelo menos por uma noite. Um rito de passagem, e, sabemos, os rituais e tradições devem ser sempre preservados. Que me desculpem aqueles que acharem esse texto muito agressivo, datenístico, ou anti-direitos humanos. Mas quero exercer o meu direito humano de demonstrar minha revolta com esses lixos em forma de pessoas. Quero exercer o direito humano de querer justiça, mesmo que tenha que ser uma justiça "alternativa", contra esses caras que violaram nojentamente o direito humano de uma menina de 15 anos sobre o seu corpo. Quero exercer o meu direito humano de me expressar livremente contra essa escória canalha e nojenta.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Dilemas Cotidianos- Capítulo 6

Julieta é um pouco maluca. Essa é a grande verdade para Fernando. Julieta transparecia uma felicidade artificial em alguns dias. Certa quarta-feira no escritório, Bernardo conversava com Sérgio e Pedro, e ela parecia se insinuar, insistente e quase pateticamente para ele, Fernando. Tocavam-se mutuamente, com a desculpa esfarrapada de que estavam conversando. Julieta talvez fosse uma grande jogadora. Ela promovia um revezamento entre os colegas de trabalho, um dia dava mais atenção a um, outro dia a outro, e ninguém, na verdade, conseguia entendê-la. Ao final do dia, saíram os três para um happy hour. Nem sempre tão happy para Fernando, que muitas das vezes ficava tenso, esperando o golpe, esperando algo desagradável, porque assim era Julieta, ela conseguia desagradá-lo muito, e muitas vezes. Julieta muitas vezes parecia flertar com todos os homens, e aquilo irritava Fernando, que estava sentindo algo ruim, ele estava iniciando uma paixão desastrada.
E quando sentavam-se à mesa do bar, ele não conseguia esconder sua ansiedade, Fernando não conseguia parar de pensar, e não conseguia parar de ficar tenso. E quanto mais tentava disfarçar a ansiedade que quase era uma ânsia de vômito, mais pensava em Julieta, e a observava, observava seus trejeitos, observava suas mãos, observava tudo que podia, cada gesto, cada olhar, cada suspiro. Estavam os quatro em uma mesa da parte externa do bar, chamado Vendetta Bar. Falavam de amenidades, falavam sobre o tempo, mas também falavam sobre o trabalho, e Julieta estava radiante de sua felicidade artificial como refresco em pó de cinqüenta centavos. Ela estava sentada ao lado de Fernando, e por vezes acariciava, como quem não quer nada, sua perna, tocava como chamando atenção para algum assunto em que Fernando estivesse desatento. Encostou sua cabeça no ombro de Fernando, e todos continuavam falando, agora viviam momentos de recordação de suas infãncias e de suas adolescências, e talvez esse ambiente proporcionasse o gesto de Julieta.
Então, na calçada surgiu algum amigo ou conhecido de Julieta, e ela saiu correndo em direção a ele. Deu um grande abraço e um beijo no rosto, na verdade o rapaz tentou beijar a boca de Julieta, Fernando viu, mas ela virou-se rapidamente evitando o fato, e mostrava uma intimidade incômoda. O rapaz sentou-se à mesa, e Fernando emudeceu. A partir dali, tudo configurava um jogo de olhares e gestos, palavras nas entrelinhas, goles tensos de uma cerveja que parecia estar choca, mas não estava. O amigo de Julieta convidou-a para uma festa com amigos que os dois tinham em comum, e foram embora. Fernando parecia corroer-se. Continuou no bar mais um pouco, conversando com Pedro e Sérgio, mas na verdade pensava no que ocorria ou iria ocorrer na festa de Julieta e seu amigo. Fernando terminou seu copo, e despediu-se dos amigos. Foi embora após mais um dia frustrado. Mais um dia normal e revoltantemente rotineiro.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Quase lá

Magnífica a vitória do Inter no estádio Jalisco, contra o Chivas. O colorado foi quase perfeito em campo, com uma postura tática exemplar. Eu, que critico bastante nosso treinador, tenho que reconhecer que Tite foi extremamente feliz na escolha de Andrezinho para o lugar de D'alessandro. Jogou bem demais, ajudou a ditar o ritmo do meio-campo, cadenciando o jogo quando necessário. Aliás, o meio de campo colorado funcionou muito bem, Edinho passou segurança, Guiñazu foi Guiñazu, Magrão também marcou muito e foi incansável. Nilmar é um inferno para qualquer defesa e fez um belíssimo gol. Alex está numa fase realmente iluminada, jogou muito bem e carimbou aquele golaço de falta. Os laterais-zagueiros foram bem, especialmente Bolívar, que se portou muito bem, mesmo tendo seu lado a todo momento instigado pelo bom Moráles. Fiquei preocupado com as bolas aéreas defensivas, apenas. Nesse quesito, o Inter foi mal, e várias vezes o centroavante mexicano Arellano subiu sozinho, cara a cara com Lauro.
De qualquer forma, foi uma vitória histórica do Inter. Ganhou do clube mais popular do rico futebol mexicano, fora de casa, com muita personalidade, tendo o controle total do jogo. Deu orgulho de ser colorado hoje, assim como vem sendo há alguns anos. O Inter é grande e forte, e a cada dia mais respeitado.
Estamos quase em mais uma final de uma copa continental. A Sul-Americana é importante, sim. É título internacional. Mais um para a coleção. Só quem não tem mais chances é que, com o cotovelo dolorido, desdenha de uma competição que conta com Boca, River, Inter, LDU, Palmeiras. E, se a Sul-Americana é segunda divisão da Libertadores, como afirmam algumas mentes não muito brilhantes, lamento informar, mas o Grêmio foi rebaixado (qual a novidade?) para a terceira, pois foi eliminado ainda na primeira fase. Se der vaga na Libertadores, ah, aí vai ser uma deliciosa cereja para o nosso bolo. Mas vamos passo a passo. Nada está ganho. Mas o gigante despertou. E, quando o gigante desperta, geralmente faz estragos.

Paranóia

O ser humano muitas vezes me dá náuseas. A hipocrisia humana, a superficialidade, os valores distorcidos, tudo isso é extremamente repugnante. Não sou um bonzinho, não sou um modelo de bom moço, não me considero assim, realmente. Tenho antipatias, tenho minhas implicâncias, tenho minhas ranzinices, mas sou quem eu sou, e de alguma maneira, me orgulho disso.
O tipo de pessoa com o qual eu tenho mais dificuldade em lidar, aquele que é mais difícil de se vacinar, é o tipo hipócrita. O tipo legalzão, gente fina, cheio de amor e simpatia pra dar, que na verdade não inspira segurança nem confiança em momento algum. Sou um desconfiado por natureza. Um teórico da conspiração. Por isso, para mim é muito difícil mesmo, porque muitas vezes vejo (ou imagino) as coisas lá na frente. E não adianta. Fica difícil se defender desse tipo de gente. Eu prefiro ter desafetos mais abertos, mais explícitos. Nesse caso, posso também me posicionar com relativa clareza, e aí, quem quer fica comigo e quem quer fica contra mim. Mas o tipo de pessoa falsa, o tipo bom-moço-legal-com-todo-mundo não me desce pela goela. Isso porque esse tipo de pessoa consegue, por ser "legal pra caramba" se incorporar em tudo, dominar a todos, travestido de generoso e pronto a ajudar. Eu vejo as mentiras. Vejo as intenções subliminares. Vejo e antevejo.
O perigo dessas pessoas é exatamente que não podemos explicitar nossas angústias. Aquilo que vemos e que os outros parecem não ver não pode ser exposto, sob pena de sermos taxados de paranóicos, loucos, sujeitos amargurados que não conseguem aceitar a "bondade alheia", enfim, frente a uma massa hipnotizada pela falsidade e pelo pseudo bom-mocismo, podemos virar vilões malvados. O negócio, nesses casos, em que somos a ilha de lucidez (ou paranóia) é deixar os acontecimentos irem falando por nós. Dar corda para os falsos se enforcarem. Uma hora, a máscara cai. Sempre.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Oportunismo

Se tem uma coisa que me enoja é o oportunismo. Não falo do oportunismo de centroavantes do Inter. Esse eu quero sempre. Refiro-me ao oportunismo de pessoas. Os oportunistas talvez sejam os piores tipos de pessoas. Alguns tipos são deletérios sempre, não são lobos vestindo pele de cordeiro. Colocam as cartas na mesa desde o início. Não vão de acordo com a maré.
Porém, existem aquelas pessoas que procuram estar sempre na crista da onda. São as mais traiçoeiras. Quando a coisa tá no pega-pra-capar, não dedicam um minuto da vida. Mas, na hora do bem-bom, são as primeiras a dar tapinha nas costas, e tentar se incorporar aos processos, assim, como quem não quer nada.
Fico possesso com esse tipo de gente porque isso é a antítese do que sou. Não meto o bedelho no que não me diz respeito. Sempre fui assim, é uma inerência da minha personalidade. A não ser que eu tenha abertura para interferir nos processos, a não ser que eu conquiste tal espaço, pois nesse caso não haveria problema algum. Agora, uma vez que não façamos parte de um processo no seu início, na hora dos percalços, não podemos, jamais, querer oportunisticamente entrar na hora boa, na hora em que está tudo certo. Não, não e não. Isso chama-se cara-de-pau. E, com essa cara dura, algumas pessoas simplesmente se metem, entram naquilo que jamais lhes pertenceu, incorporam a imagem de bom-mocismo e "estou para servir", e, claro, entram para ajudar a faturar, ou melhor, para ajudar a embolsar. O pior e mais nojento é saber que justamente esses tipinhos são os que mais têm a chance de se dar bem. Mas não quero, e jamais vou querer, me dar bem às custas dos outros, sendo um oportunista. Não saberia ser assim. E ponto.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Dilemas Cotidianos- Capítulo 5

Fernando começou a semana posterior à saída desastrosa com Débora bastante chateado. Não conseguia compreender o que houve de errado, qual o erro de cálculo que havia cometido, quais os acontecimentos que poderiam ter redundado naqueles momentos deprimentes. O relógio despertou e ele haveria de levantar-se naquele horário. Mas a mistura da ressaca das quantidades cavalares de cerveja misturada com a ressaca moral impediam-no de querer ver o clarear do dia. No que dependesse dele, dormiria de forma direta por uns cinco dias. Desprezou o relógio, e continuou deitado, não exatamente dormindo, mas corroendo e revivendo os momentos da noite anterior. Ficou na cama por mais duas horas. Só então se encorajou e levantou para mais um dia de trabalho.
Obviamente, chegou atrasado. Sérgio foi o primeiro a cumprimentá-lo. Depois, Pedro. Julieta estava calada, em um canto qualquer do escritório. Fernando não se animou a ir falar nada. Na hora certa daquele dia haveriam de trocar algumas palavras, as palavras que fossem necessárias. Julieta não tinha culpa de nada, mas o início do que acontecia com Fernando, os sentimentos que começavam a atordoá-lo, pareciam voltar em uma onda avassaladora após a noite frustrante vivida com e sem Débora. Tudo era incômodo naquele momento. Estar trabalhando naquele escritório, naquele momento, era um martírio revoltante para Fernando.
Julieta estava tratando Pedro muito bem. Falava com uma maciez, com uma suavidade, que faziam Fernando querer bater com a cabeça na mesa até sangrar e arrebentar os miolos. Observava, e simplesmente ficava irritado. Alguns instantes se passaram, e Julieta olhou Fernando, e meio que cinicamente, talvez debochadamente, esperando ver a erupção de ciúme de Fernando, perguntou:
- Você está bem, Fernando?
- Estou, por quê?- respondeu e emendou a indagação irritadiça.
- Não, por nada.- finalizou Julieta, meio sorrindo, meio fingindo estar preocupada.
O dia encaminhava-se para o nada. Para mais um nada. Como nada sempre era o final de cada dia. Como o nada era o mais previsível e o mais óbvio sempre. Porque nunca nada acontecia mesmo. Fernando começava a sentir que tudo o que se passava, aquela forma diferente de olhar Julieta, começava a tomar proporções indesejáveis para ele. Todo aquele cenário começava a se constituir em um jogo no qual somente ele, Fernando, seria derrotado. Saiu do trabalho. Atordoado. Queria fugir daquilo. E que coisa desagradável seria conviver com Julieta no trabalho, se aquilo tudo se mantivesse tão sacrificante. Pelo menos naquela noite, tentaria fazer algo ser diferente. Tentaria esquecer Julieta.
Foi ao mesmo bar que outrora tinha ido com Sérgio. Ele tinha alguma esperança masoquista de ver Débora novamente. Talvez tudo aquilo tivesse sido um acaso. Talvez ele tivesse interpretado mal, e talvez aquele entrelaçar de pernas e o beijo estupidamente violento e agressivo tenham sido fruto dos elevados níveis de álcool no sangue de Débora. Talvez ela pudesse pedir desculpa, ou dizer que estava arrependida de tudo o que fez. O tempo passou, Fernando esperou, e nada aconteceu. Mas Fernando queria que algo acontecesse. Ligou para Diana, uma amiga que tinha há uns quatro anos, e com quem, de vez em quando, tinha um affair. Não era a mulher dos sonhos de Fernando, fisicamente falando. Mas era uma pessoa extremanente parceira e disposta a fazer tudo o que pudesse ser feito, pois eram realmente muito próximos e amigos, e se gostavam bastante. Não havia atração, mas de um jeito ou de outro, os dois tinham grande afinidade.
Depois de meia hora de ter chegado à sua casa, a campainha tocou, e era Diana. Ele apenas abriu a porta e voltou a sentar-se no chão, junto ao sofá, com uma garrafa de whisky, o qual ele bebia quente mesmo. Diana viu e apenas lamentou. Sentou no sofá, ao lado do espaço no chão que Fernando ocupava. Fernando passou a soluçar, bêbado e fragilizado que estava. Diana passava a mão nos cabelos de Fernando, e perguntou:
- Diga, Fernando, o que houve?
- Não quero mais trabalhar! Não quero mais nada, Diana! Não quero mais nada!- respondeu Fernando.
Diana agachou-se junto a Fernando, olhou bem para seus olhos marejados, e beijou. Era um forma de dar uma resposta para algo que ela não sabia o que era. Fernando beijava, não era o gosto que ele queria, não era a boca que ele queria, mas beijava. Os dois se abraçaram demoradamente, foram juntos à cama dele, e fizeram sexo. O rapaz pensava consigo mesmo no quanto gostaria de gostar daquela moça. Era alguém que lhe entendia, e possivelmente os dois poderiam chegar a um acordo. Mas ele estava com ela, sentia verdadeiro carinho, porém, faltava algo mais, algo que o incendiasse. Chegou a um orgasmo triste e preocupado. Mas ao mesmo tempo, sentia força para continuar, e os dois aproveitaram bastante aquela noite. Pela manhã, Fernando ainda dormia, e Diana despediu-se com um beijo na sua testa.

domingo, 9 de novembro de 2008

Cala a boca, Roth!

O treinador do Grêmio, Celso Roth, sempre caracterizou-se por ser um sujeito humilde. Mas, talvez por estar disputando o título brasileiro com chances reais, o que seria um feito para um treinador que jamais ganhou nada maior do que Gauchão, esteja dislumbrado, e dando declarações polêmicas, como a que diz que o Inter gostaria de estar no lugar do Grêmio, despeitado que está pela eliminação que o Inter impôs ao bicho-papão Boca Juniors na Bombonera. Me dedicarei então a verificar, friamente, se tal afirmação tem fundamento, analisando os últimos 5 anos. Pois bem, vamos aos fatos.
Em 2004 o Inter sagrou-se tri-campeão gaúcho, além de ter chegado às semi-finais da Sul-Americana; o Grêmio, por sua vez, foi rebaixado para a segunda divisão.
Em 2005 o Inter foi tetra-campeão gaúcho e vice-campão brasileiro, tendo o campeonato tomado de suas mãos no canetaço de Zveiter; o Grêmio foi campeão da segunda divisão.
Em 2006, o Inter teve o ano mais vencedor da sua história, ganhando Libertadores e Mundial Interclubes sobre uma potência do futebol mundial, como o Barcelona, além de ser vice-campeão brasileiro, jogando boa parte do campeonato com time reserva; o Grêmio foi campeão gaúcho.
Em 2007 o colorado conquistou a tríplice coroa, sonhada por muitos clubes da América, com o título da Recopa Sul-Americana; o Grêmio foi bi-campeão gaúcho.
Já em 2008, o Internacional conquistou a Copa Dubai, disputada com Inter de Milão, Ajax e Stuttgart, ganhou um Gauchão fazendo 8 a 1 na final contra o Juventude, fez 4 a 1 no Gre-Nal, e passou pelo Grêmio e pelo Boca na Sul-Americana, chegando à semi-final da competição continental. O Grêmio foi eliminado em casa do Gauchão pelo time que levou 8 do Inter, e caiu fora da Copa do Brasil frente ao poderoso Atlético Goianiense.
Dados os fatos, chego a uma singela conclusão: estou muito bem, obrigado, com meu time, o Sport Club Internacional. Do fundo do coração, não creio que o Inter quisesse trocar de posição com o time da Azenha. Para isso, a nação colorada teria de ter uma espécie de dom sadomazoquista que não se enquadra à história vencedora do seu clube. Os fatos comprovam que Celso Roth falou uma gloriosa bobagem ao comparar o incomparável, querendo, ainda por cima, colocar seu clube, tão inferiorizado pelo Inter nos últimos anos, numa condição de uma superioridade arrogante que os resultados desmentem. Então, só me resta dizer ao técnico aspirante-a-quem-sabe-um-dia-campeão-de-algum-título-maior-que-estadual: cala a boca, Roth!

sábado, 8 de novembro de 2008

Ataques de fúria

Estava assisitindo ao ataque de fúria de um homem contra um atendente do Bob's, ocasionado por um sanduíche trocado, em São Paulo. O homem ficou incontrolável, e o atendente também não foi exatamente um gentleman. Mas, afinal, o que leva as pessoas a terem esses ataques? Creio que o modo de vida metropolitano contribui bastante para isso. As pessoas encontram-se espremidas pelo tempo. O trabalho, o stress, a irritação, o amontoado de pessoas, os vizinhos cujos nomes muitas vezes sequer sabemos, todos esses fatores parecem incidir diretamente sobre esse tipo de comportamento.
A vida nas metrópoles não dá tempo nem para se discutir. Simplesmente, engole-se sapos. É uma soma de pequenos desconfortos. Começa pela manhã, com os congestionamentos, ônibus lotados de pessoas amontoadas feito animais. Passa pelas ruas, transbordantes de pedestres, desviando uns dos outros, uns fazendo marcha atlética, idosos completamente fora do ritmo do resto, enfim, um ambiente com mais pessoas do que espaço. Trabalha-se, almoça-se contra o relógio, e se termina o dia de trabalho com mais stress, mais congestionamentos, e o temor de assaltos... Quando o sujeito chega em casa, tudo o que mais almeja é uma boa cama. Assim passam as semanas no cotidiano da maioria das pessoas nas grandes cidades. Só que uma hora acontece o transbordamento. É nessas horas que acontecem os ataques de fúria como aquele a que me referi no início deste texto. Momentos banais são a gota d'agua, o milímetro que faltava para que todo esse stress acumulado transborde dos sujeitos.
Por mais clichê ou auto-ajuda que isso possa parecer, é importante sempre tirarmos um tempo diário para nós mesmos. Para relaxar, esquecer os problemas, poder ter um pouco de prazer fazendo alguma coisa. Se nos entregamos demais ao ritmo frenético da vida metropoplitana, acabamos pondo em risco a nossa própria saúde mental. E podemos pagar micos e dar fiascos em horas absolutamente inesperadas. Sejamos um pouco caipiras e interioranos. Não que eu ache que tenhamos que ordenhar vacas ou plantar milho. Mas devemos ter um pouco daquela inocência, daquela tranqüilidade, precisamos respirar um pouco. Só assim podemos sobreviver em meio ao ritmo alucinante dos acontecimentos das grandes cidades inseridas no agravante contexto de um mundo globalizado.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Para argentino ver

A Bombonera é colorada. Fico imaginando como não devem estar torcedores de times vizinhos. Devem estar corroendo a alma. Alguns torcedores da praça têm uma espécie de tara pelos argentinos, especialmente pelo Boca. Levaram uma saranda, ou melhor, duas sarandas, de seu clube-muso-inspirador. Viram o Inter, pouco mais de um ano depois, fazer com o Boca o mesmo que o Boca havia feito com o time deles. Detalhe: desde 2003 o Boca não perdia uma partida internacional em seus domínios. Outro detalhe, pra acabar com qualquer argumento de torcedores invejosos de times menos votados: esse time do Boca, esse mesmo, que jogou hoje, fez 4 na LDU, que daqui a mais ou menos um mês estará no Japão disputando o Mundial de Clubes da FIFA. Além disso, com a eliminação de Palmeiras e Botafogo, há três anos, só o Sport Club Internacional conquista títulos internacionais nesse país. Em 2006, Libertadores e Mundial. Em 2007, Recopa. Em 2008, Copa Dubai e talvez a Sul-Americana. O Inter é a maior grife do futebol brasileiro no futebol mundial nos dias de hoje, sem sombra de dúvidas.
O colorado dominou o Boca Juniors nos dois jogos. A atuação coletiva do Inter, hoje, foi exemplar. Edinho fez um pênalti estúpido. Ali, parecia que o jogo reservaria emoções desagradáveis. Edinho é a antítese do futebol. É uma espécie de Gattuso do Inter. Fez muito pelo clube, é um nome da história colorada. Mas não é muito amigo da redonda. Ganhamos. O time do Inter é inegavelmente talentoso. Quem, no futebol das Américas, tem um meio-campo com jogadores como Magrão, Guiñazu e D'alessandro? Atuação soberba. O Boca, que geralmente é um leão na Bombonera, foi apenas um gatinho nas mãos do grande adestrador Internacional.
Vamos esperar a continuação. O Inter já está entre os quatro melhores times da América. Queremos mais. Somos o Brasil na Copa Sul-Americana. Quatro jogos nos separam de mais um título continental. Pra matar secador do coração. Pra argentino ver. Pra Batistuta ver. Pra Palermo ver. E admirar.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Gripe e Obama

Hoje estou com uma gripe bem chata. Fico extremamente mal-humorado quando sou acometido pelos espirros, coceira nos olhos, enfim, aquela coisa agradabilíssima, aquele conjunto de prazeres indescritíveis que só uma boa gripe nos permite desfrutar. O raciocínio, inclusive, fica mais lento. Gripe à parte, a eleição de Barack Obama nos Estados Unidos é uma boa notícia. Pelo menos, não haverá mais um alucinado no comando da maior potência mundial, o que já é um bom começo. O novo presidente estadunidense deveria repensar vários aspectos, mas principalmente a desastrosa política externa ianque. O primeiro passo para os Estados Unidos poderem ter alguma moral contra o terrorismo é que o país pare de praticar o terrorismo de Estado praticado no Oriente Médio, e pare com os abusos já mais do que escancarados cometidos pelos seus militares. Além do mais, preocupar-se com o futuro do planeta também seria uma bela pedida, com suas indústrias reduzindo a poluição, enfim, a representatividade que os Estados Unidos possuem exige políticas mais responsáveis e menos egoístas para com o resto do planeta. Aguardemos.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Dilemas Cotidianos- Capítulo 4

Fernando estava deitado em casa, era um domingo. Ele cochilava com a televisão ligada, o programa de auditório e seus quadros inúteis intercalava-se com o sono leve e perturbado do sujeito. Eram umas três horas da tarde. Havia sol na rua, um sol que irritava Fernando. Tentou dormir mais um pouco, mas o sono, de fato, não chegava. Estava angustiado com algo. Pegou o papelote com o telefone de Débora. Pensou, pensou, pensou, e telefonou. Primeiro, ele deu apenas um toque para o tal número. Desligou e desistiu. Cinco minutos depois, tornou a ligar. Dessa vez, o telefone da moça tocou umas quatro vezes antes de ser atendido. Assim que ouviu a voz da moça do decote provocativo, desligou. Tomou banho, esfriou a cabeça, e ligou novamente. Débora atendeu, e dessa vez Fernando falou. A ligação tinha um maldito delay. Fernando falava e ouvia a própria voz. Falava mais baixo, então, para evitar ouvir a própria voz. Entretanto, isso o fazia sentir-se tolo. Mesmo assim, trocaram rápidas palavras.
- Olá, Débora. Lem... Lem... Lembra-se de mim? Do bar, há uma semana?- iniciou.
- Oi! Lembro vagamente. Seu nome é...- hesitou Débora.
- Fernando!- completou o mesmo. -Não gostaria de sair para tomar um café, ou um chá, ou uma cerveja?- perguntou.
- Bem, posso ir acompanhada de alguns amigos?- indagou Débora.
- Tá bem, tá bem.- disse Fernando, meio a contragosto.
- Nos encontramos às dez da noite, no Brest Pub.- sugeriu a moça.
- Certo, até mais.- despediu-se Fernando.
Fernando então tomou um banho caprichado. Encheu-se de perfume, fez a barba, e olhou-se no espelho durante meia hora, verificando detalhes em sua aparência. Saiu de casa.
Ao chegar ao pub, já pediu uma cerveja. Esperou. Dez e quinze, e nada de Débora. Mas as mulheres são assim mesmo, perdem tempo se arrumando. Às dez e meia, alguém se aproximou e tocou o ombro de Fernando, que estava de costas, no balcão. Esperançoso e feliz, ele se virou. Era apenas uma senhora de meia idade avisando que o cadarço do sapato estava desamarrado. Fernando amarrou, e continuou a esperar. Já eram onze e meia da noite, e nada da loira do decote provocativo. Ele desistiu de esperar. Saiu do pub, e estava bêbado. Naquele tempo de uma hora e meia, ele consumiu cinco garrafas de cerveja, sozinho. A angústia da espera o tinha feito exagerar na dose. A rua estava fria. Deserta, também. Fernando caminhava ziguezagueando, cantando algo indecifrável, para si mesmo. Quando qualquer pessoa cruzava seu caminho, eram poucas, é verdade, mas havia pessoas que vez por outra cruzavam seu caminho, ele ria, sarcasticamente. Ria com ódio. Ria com fúria. Ria quase chorando. Ria vendo seu rosto em cada rosto. Ria de si mesmo. Ria de sua vida. Ria da graça e da falta de sentido daquilo tudo. Ria de sua existência estúpida. Continuou a andar. E encontrou Débora.
-Oi...- disse ela, constrangida com a desgraçada coincidência, e com três amigos e uma amiga em volta.
- Olá.- respondeu secamente Fernando, esperando alguma explicação plausível e tentando disfarçar o indisfarçável ressentimento.
- Tentei te ligar, mas ninguém atendeu.- disse a moça.
- Pois é, meu telefone não tocou.- respondeu Fernando, sabendo ser aquela a mais esfarrapada das desculpas, desculpas mentirosas, pois Débora sequer tinha seu número.
- Estamos indo para uma festa em uma casa noturna dançante. Vem com a gente?- interrogou Débora, talvez torcendo para obter uma resposta negativa.
- Vamos.- concordou Fernando.
Chegaram à tal festa. Som alto, Fernando sentia-se deslocado com aquela música eletrônica, que parecia ter uma nota só, intercalada com batidas irritantes e insuportáveis. Débora dançava com os amigos dela, e vez por outra chegava para trocar algumas palavras com Fernando. A noite passava, e Fernando esperava algum momento em que Débora se encontrasse sozinha para partir para cima. A noite passava cada vez mais rápido. A amiga fêmea de Débora já estava entregue aos braços de um desconhecido, do outro lado da pista. Fernando não conseguia se entrosar com os amigos de Débora. Pareciam pessoas de outro mundo, que não o dele. Vestiam-se como modelos de desfiles pós-modernos, e usavam pulseiras, cabelos coloridos, calças vermelhas e roxas. Não, aqueles não eram homens que pudessem dialogar com Fernando. Nem Fernando com eles. Não havia nada em comum e nada a falar. Um deles usava um piercing no nariz que mais parecia um anel de lata de Coca-Cola. Fernando bebia, tomava coragem para quando o momento certo chegasse.
Aguardava ansioso, a batida do som cada vez mais ao fundo em sua alma, pois aquela batida já não mais interessava, pois a estrela, o objetivo, a razão era Débora. Linda, dançava e suava, e bebia também. Fernando observava, fingia dançar dando uns passos meio desajeitados. Débora continuava a dançar, quando entrelaçou as pernas nas pernas do rapaz de piercing de anel de lata de Coca-Cola. Ela sorria para ele. Fernando olhava. Naquele momento, a vida ficou em câmera lenta. Fernando apenas olhava. Olhava o olhar dela para o cara. Angustiava-se Fernando. O rapaz do piercing de anel de lata de Coca-Cola segurou-a com firmeza. Agarrou o corpo de Débora, e ela entregue àquele momento. Os dois estavam selvagemente entrelaçados. Beijaram-se, fervorosamente suas línguas tocavam-se, esfregavam-se. E Fernando apenas olhava. Sentia-se um lixo. Um imbecil inútil. Virou as costas, pediu mais uma cerveja, e foi embora. Comeu um cachorro quente no caminho, no único carrinho de cachorro quente que estava aberto naquelas bandas. Pensou em Débora. Mastigava o pão, a salsicha, as ervihas, a maionese, e mastigava ao mesmo tempo seus pensamentos, lembrando das pernas entrelaçadas, do beijo alucinado, e mastigando tudo isso, na boca e na alma, vomitou, pateticamente, na calçada. E foi embora.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

A última curva

Os deuses da velocidade aprontaram das suas ontem. Foram brincalhões e cruéis com Felipe Massa. Nas últimas voltas, Massa conquistava o mundial. Na última curva, Massa perdeu o mundial. Foi dolorido. Dolorido demais. O improvável quase aconteceu. Quase. Porque lá, na última curva de Interlagos, nosso sonho foi soterrado. Estávamos emocionados. E como não estaríamos? Estávamos diante do mais impossível. Delirávamos com Vettel. Mas, quiseram os deuses da velocidade que o delírio fosse trucidado e destruído ali, na última curva de Interlagos. Choramos. Sim, choramos por dentro. Era melhor que tudo aquilo nem tivesse acontecido. Era melhor que Hamilton tivesse ficado numa tranqüila segunda ou terceira posição. Mas os deuses da velocidade tiveram seu dia de Joselito. Riram da nossa cara. Escarneceram da nossa dor. E presenciamos a vitória mais dolorida da história da Fórmula 1. Não merecíamos isso. A última curva. Aquela última curva. A sepultura da alegria de uma nação que não consegue comemorar nada fora do esporte. A sepultura de um sonho abortado. Perdemos com Massa.
De uma coisa, não resta dúvida: foi a decisão de título mais eletrizante da história da Fórmula 1. Esse ano propiciou momentos ímpares na categoria. Mas o de ontem foi mais. Não se poderia ser cardíaco. Hamilton ganhou. Mas Massa é o grande vencedor. Às vezes, esses momentos trágicos possuem sua grandeza exatamente por serem trágicos. É aquela história que sempre vamos lembrar. Com dor. As lágrimas desses momentos lavam a alma. Lavam as páginas da história. Dão uma moldura dourada aos momentos. A dramaticidade da derrota lhe dá um ar mais charmoso do que de qualquer vitória fácil e sem graça, emoldurada como um porta-retrato chinfrin ganho em um amigo secreto na firma. Foi algo grandioso. Não foi humano. Foi uma crueldade divina. Crueldade inesquecível. A corrida de ontem foi mitologia pura, mitologia de deuses gregos brincando com os sonhos humanos. Vivenciamos o toque do transcedental em uma curva. Estática? Parada? Imparcial? Não! Definitivamente não! Aquela última curva estava viva. Ela foi tocada e foi uma traidora da nação. Fez um complô com as divindades, e deu o título a Hamilton, grande piloto, diga-se de passagem. Mas, contou sim, com aquela última curva, enfeitiçada pelos deuses da velocidade.

domingo, 2 de novembro de 2008

Domingo de Massa

É hoje. Decisão na Fórmula 1. Desde o gênio Ayrton Senna, jamais vimos um brasileiro chegar a uma útima corrida de temporada com possibilidade de título. É hoje! Estou ansioso. Estaremos com Massa. Hamilton, dane-se Hamilton. Que pare na largada. Nós, brasileiros, temos uma relação com a Fórmula 1 que os ingleses não têm. Os ingleses são bem resolvidos. Nós, brasileiros, temos no esporte o nosso ópio. Somos tão carentes de alegria que torcemos enlouquecidamente por um indivíduo. Massa é um indivíduo, um cara. Torcemos por ele pelo simples fato de ter nascido no Brasil. Mas Massa é também nossa identidade.
O nacionalismo, quando distorcido, é perverso e destrutivo. Cega. Cria Hitlers e Mussolinis. Aliena. O nacionalismo brasileiro, mais ainda. Só aparece com o esporte. De resto, as pessoas parecem envergonhar-se. Com alguma razão. Mas sem brio. A classe política brasileira é, em sua maioria, constrangedora. Mas isso não deve ser elemento de conformação. Deve ser indignação e vontade de mudar, tornando nosso país um motivo de orgulho.
Mas o nacionalismo tem o seu lado positivo. É a criação de vínculo e identidade. Deveria permear nosso senso de cidadania a todo momento. Mas, o que temos para o momento é Massa. Esqueçamos aquilo que deve ser mudado, pelo menos por hoje. Amanhã pensamos nos problemas. Hoje, somos Massa. Estaremos com ele. Secaremos Hamilton. Muito. Boa sorte, Felipe Massa. E que este domingo seja massa.

sábado, 1 de novembro de 2008

Não vale nada mesmo...

O Inter, ao que tudo indica, vai de time reserva contra o São Paulo. Eu até acho que deveria ir com juniores. Claro, seria necessário agregar experiência. Talvez Orozco e Ricardo Lopes poderiam ser alternativas nesse sentido. Mas vai de time reserva. Pergunto: e para quê jogaria com titulares? O Inter já não tem mais o que disputar, e tem um jogo decisivo contra o Boca Juniors no meio da semana. Os titulares devem ser poupados.
Acho engraçado essa comoção de parte da imprensa gaúcha. E acho mais engraçado ainda quando lembro que o Grêmio, em 1996, já classificado para a segunda fase do Brasileirão, perdeu de 3 a 1 para o Goiás em pleno Olímpico, resultado que coincidentemente eliminava o Inter do campeonato, e não ouviu-se uma frase no rádio, nem leu-se uma linha nos jornais. Ao final do jogo citado, a célebre frase "Eles estão fora." foi inaugurada por estas plagas, no placar eletrônico do estádio gremista, para delírio dos tricolores.
Esse jogo de amanhã não vale nada para o Inter. As implicações para os outros são problema dos outros, não nosso. Temos que pensar no clássico da quinta-feira. Temos que pensar em ganhar a Sul-Americana. É isso que nos interessa. Mais um título continental enriquecerá ainda mais o Curriculum Vitae colorado. E dane-se o que os outros vão falar. A alegria da nação colorada é tudo pelo que o Inter deve lutar. O resto é resto.