quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Moribundo 2008

31 de dezembro. Último dia de 2008. 2009 em trabalho de parto. O ano moribundo foi muito bom na minha vida pessoal e profissional. Estou mais feliz do que era. Sim, a felicidade plena é um ideal praticamente inalcançável. Mas estou bem. Não tenho realmente muito do que reclamar desse ano. O saldo é bastante positivo. Eu gostaria de fazer uma espécie de retrospectiva do ano pelo mundo, por tudo. Mas sou um pouco egoísta, e não estou com vontade de falar sobre o mundo. Nesse momento, estou me lixando para o mundo. Quero é estar feliz, quero tomar um belo dum trago essa noite, e encaminhar bem a entrada do ano.
Ah, hoje ainda tem a gloriosa São Silvestre. O ano novo também tem as suas xaropices, assim como o natal tem o especial da Xuxa. Mas é uma tradição. Confesso, uma tradição que não me atrai muito. Não está dentre os meus planos de último dia do ano ideal parar duas horas na frente da tv pra ver um monte de gente que não conheço correndo por ruas pelas quais eu nunca andei. Ah, se um brasileiro ganha! É uma semana de super-exposição global! Com direito a carro de bombeiros na cidade natal do vivente, geralmente algo como Ondejudasperdeuasbotolândia. Que beleza! Depois, só na São Silvestre do ano que vem!
E sempre tem alguém que liga a tv pra ver aquelas chatices de fogos em Copacabana... Na boa, eu tô cagando para os fogos em Copacabana. Ah, e tem o Show da Virada, cheio de animação, artistas empolgadíssimos cantando e tocando em playback. Como diria Marco Bianchi: Maravilha, Alberto!
Mas é isso aí, vamos terminando mais um ano de nossas vidas, prontos para mais um ano frenético. E tudo é frenético. Que todos curtam bastante a noite que está se aprochegando.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Política de contratações

André Krieger, vice de futebol do Grêmio, deu uma senhora corneteada na política de contratações coloradas. Disse que o Inter não é parâmetro, argumentando a posição tricolor em relação à colorada no Brasileirão, e que o Grêmio não irá gastar dinheiro com compra de jogadores. Mas Krieger não precisava dizer que o Inter não é parâmetro para o Grêmio. Isso é evidente. O Grêmio não ganha um título internacional há 13 anos. O Inter empilha títulos internacionais desde 2006. O Grêmio contrata "promessas" como Fábio Ferreira, Ruy e Alex Mineiro. O Inter contrata nabas como D'alessandro, Nilmar, Guiñazu, Magrão...
Realmente não há como se estabelecer parâmetro com referenciais tão diferentes. Inter e Grêmio são, hoje, constrangedoramente diferentes. De minha parte, estou feliz com o meu clube, com os títulos, a projeção cada vez maior, contratações de peso. Na verdade, creio que o Grêmio se preocupa demais com o Inter. Sempre que podem, os dirigentes, jogadores e torcedores rivais desdenham dos feitos colorados. Só pode ser pura dor de cotovelo. Afinal, não deve ser fácil engolir um rival ganhando a América duas vezes em um espaço de 3 anos, derrotando Internazionale e Barcelona, times que os tricolores só podem ver na ESPN, jogando contra outros europeus. Desesperadamente, o Grêmio tenta desvalorizar o Mundial FIFA, o Barça, a Inter, enfim, qualquer rival que tenha sido destruído pelo colorado. Deseperadamente, o Grêmio tenta convencer, ou melhor, se auto-convencer, de que é mais glorioso ganhar do mistão do Hamburgo (espécie de Ponte Preta alemã) ou do Náutico, numa inacreditável decisão de... uma vaga na Série A! Sim, porque Série B não é título. É acesso. Só tem um primeiro colocado porque alguém tem de ficar nessa posição. Mas, continuemos assim. Pelo jeito, colorados e gremistas estão satisfeitos. Que tudo continue exatamente assim, todos felizes. Colorados comemorando títulos. Gremistas comemorando vagas.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Dilemas Cotidianos- Capítulo 14

Fernando trabalhava, digitava, e bebia café, muito café. Toda a tentativa de concentração era impossível por pensar em Débora. Tudo levava àqueles pensamentos. Fernando temia perdê-la, temia a passagem do tempo, temia o esquecimento, e mascava a incômoda presença de um outro sujeito na vida de Débora. Nada que pudesse fazer havia, e tudo era extremamente desgastante, seu coração acelerava-se, e ele se auto-destruía. Era possível ver em seu rosto, em seus olhos, a paranóia, a preocupação, o desalento.
Julieta percebera o mal-estar de Fernando. Colocava as mãos sobre os ombros do rapaz, e massageava, dizia para que ele não ficasse incomodado com nada. Ele não respondia, não queria falar da revelação de Débora, não queria falar sobre nada. Fernando sentia repulsa, nojo de Julieta. Era ela a culpada daquilo! Era ela a influência maldita sobre as atitudes de Débora! Era ela quem tirou todas as perspectivas e planos da vida de Fernando. Era ela, Julieta, tão desgraçada, tão odiada naquele momento. Fernando mantinha-se em silêncio, e incomodado.
E quem seria esse outro cara da vida de Débora? Quem? Será que ele o conhecia? Seria Sérgio? E o que Débora sentia? De quem ela gostava mais? O que viria a acontecer? Será que o outro conquistaria o coração da loira que marcava o cigarro com o batom vermelho? E o que poderia ser feito para reverter aquilo? Débora, será que ela aceitaria manter uma relação dupla? Não era o ideal para Fernando, mas era tudo o que ele podia ter naquele momento. De repente, até isso poderia esvair-se.
Fernando pensava, remoía tudo, sentia-se desconfortável, conjecturava todas as possibilidades. E queria manter-se presente na vida de Débora. Mas era hora de mostrar-se frio. Era hora de se auto-violentar. Era apenas isso que sobrava. Olhava para o telefone, morria de vontade de ligar, contar a Débora sobre o amor que sentia, sobre como isso só poderia ser maior do que qualquer outro amor, ou qualquer outro sentimento, ou qualquer outro tipo de coisa. Mas não podia. Precisava ser frio, precisava ser racional ao máximo. Ao mesmo tempo, seu coração rasgava-se ao pensar que Débora poderia estar com o outro sujeito, e que poderia estar apaixonando-se por ele. Tudo isso doía, dilacerava tudo. Fernando queria estar com Débora naquele momento. Gostaria de abraçá-la, beijá-la enlouquecida e demoradamente.
Fernando pegou-se lacrimejando em frente à tela do seu computador. Por sorte, não havia ninguém presente no escritório naquele momento, e Julieta já havia saído para algum lugar. Estava tudo mecânico, e somente Débora povoava o pensamento do homem. Ele dirigiu-se ao banheiro, encarou o rosto molhado, indignava-se consigo mesmo, mas encontrava-se sem força para reagir. Se olhava e sentia o tempo passar. Maldito e desgraçado tempo. Não parava. Débora estava nos braços de um outro, provavelmente, um outro sem rosto, um inimigo desconhecido, e isso era terrível. Sentia-se impotente e refém da vontade de Débora. E não podia ligar. Não podia! E assim o fazia, resistindo à vontade, que era uma vontade inócua, que apenas traria prejuízos. Devia esperar. Mas o coração não era frio. Apertava. E Fernando continuou o dia, com apenas uma coisa na cabeça, uma obsessão, uma vontade de simplificar tudo, e tudo era sempre tão complexo para ele. Implorava mentalmente que Débora ligasse, lembrasse da sua existência. Precisava manter-se presente, ao menos na lembrança de Débora. O segundo plano desgraçaria os projetos de Fernando.
Passou-se o dia, Fernando foi para casa, e Débora não ligou. Era uma tortura psicológica! Nada fazia sentido, e pensava em Débora, seu companheiro, seu outro. Fernando sentia-se, agora, o outro. A vida de Fernando estava completamente revirada. Sua cabeça estava confusa. E nada podia fazer, apenas resignar-se e aguardar. E o tempo passava. As angústias, agravavam-se. Implorava mentalmente por uma ligação que não veio.

domingo, 28 de dezembro de 2008

Dilemas Cotidianos- Capítulo 13

Fernando encontrou Débora, em uma praça. Seria mais um daqueles encontros dos dois, e tudo ocorreria bem. Isso era tudo o que ele esperava. Era por isso que ele esperava. Tudo que estranhamente estava acontecendo seria diluído no primeiro beijo em Débora. Fernando esperou, sentado num dos bancos, enquanto observava os movimentos, as crianças brincando de bola, algumas pessoas velhas conversando sobre o tempo e coisas fúteis. Débora chegou, e, ao beijo de Fernando, acabou por refugar. Havia, sim, algo estranho acontecendo, e Fernando estava certo disso.
Débora resolveu, então, conversar com o rapaz. Disse que havia outro homem, de quem ela gostava um pouco. Gostava também de Fernando, porém. Aquilo caiu como uma bomba para Fernando. Que outro homem? Que palhaçada era essa que a vida estava lhe pregando? Débora explicou-se, e obteve apenas uma resposta: o beijo de Fernando. Mas não era um beijo normal. Era um beijo indignado, rancoroso, quase raivoso. Fernando beijou-a com fúria indescritível. Beijava como se estivesse provando para ela que não existia homem outro nenhum. Apenas ele. Apenas ele interessava. Apenas ele importava. Ele é quem estava ali. Foi o melhor e ao mesmo tempo mais melancólico momento da relação entre Fernando e Débora. Fernando sentia uma dor corrosiva, uma dor que não tinha explicação automática. Ele sentia-se descartável, um ser humano de segunda categoria. Aquilo não podia estar acontecendo! Tratava-se de um pesadelo, certamente.
Não, não era um pesadelo. Era a mais pura, repugnante e revoltante verdade. Havia outro na vida de Débora. Aquilo era terrível. O rapaz sentia vontade de rasgar-se ineiro. Não coseguia. Tentava encontrar forças, mas choramingava.
Saiu pela noite, e via Débora por todos os lados. Ela era perigosa. Via Débora beijando outra figura masculina. Não, não podia ser. E de fato não era. Tratava-se apenas da doentia vista dele. Mas aquilo perturbava. O sono já não era tranqüilo. Abalou-se Fernando, via coisas, ouvia coisas Era um martírio. Mas ele continuaria. Dolorosamente continuaria.

sábado, 27 de dezembro de 2008

Álcool

Estou sob o efeito do álcool. Bebi algumas cervejas e estou aqui. Escrevendo para o Dilemas Cotidianos. As pessoas devem me ver como um apologista do álcool. Mas ele, em sua devida dosagem, realmente "abre as portas da percepção". Passando de tal dosagem, ele fecha as mesmas portas, isto é certo. Mas é bom demais tomar uma cervejinha. Faz muito bem. Às vezes o fígado paga o preço. Mas lá estamos nós de novo, no dia seguinte, prontos pra mais uma bateria.
Essas semanas de final de ano são espetaculares nesse sentido. Tenho bastantes coisas por fazer, um livro inteiro para revisar, 200 páginas para resenhar. Mas, por esses dias, fica difícil administrar tudo isso. Depois a gente se vira. Por enquanto, eu quero é álcool!
É nesse grande barato que estou hoje. É nesse grande barato que estou agora. Cerveja! Cerveja! Cerveja! Quero mais! Quero mais! Quero mais! Quero esvaziar o cérebro, tanto quanto for suficiente.
A vida já é estressante demais o ano todo, deveres, obrigações, incomodações diversas. Agora, tudo terminando, o negócio é recarregar as baterias da melhor forma possível. Agora, o resto é resto. A cabeça tem de parar um pouco, sob pena de que enlouqueçamos, irreversivelmente. Sei, a consciência pesa um pouco. Mas, daqui a dez anos, do que vou lembrar? De boas cervejadas, da tranqüilidade proporcionada por esses momentos, ou de alguns dias de atraso na revisão de um livro e na elaboração de uma resenha? Ah, manda mais uma, Genoar!

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Inspiração

Hoje é um dia de pouca inspiração. Realmente tento pensar em algum assunto suficientemente interessante, que me abra margens para alguma reflexão. É como se o cérebro esvaziasse e murchasse. Talvez de fato não haja nada interessante ocorrendo, nada. É fim de ano, e em fim de ano nada acontece. Até as retrospectivas são transmitidas um pouco antes, colocando a primeira pá de cal sobre o defunto, no caso, 2008.
Por isso, faltam coisas a serem ditas. Isso associado ao vazio mental que me acomete resulta nisso, esse texto vazio justificando sua própria falta de assunto. De repente a própria falta de assunto constitua um assunto. Nesse momento toca "Come as you are" no meu Media Player. Bom, Nirvana é sempre bom nessas horas. Nirvana é a tradução perfeita da falta de sentido lógico no mundo atual. É até surpreendente, em tempos de dinamismo, em que tudo fica datado muito especificamente, que Nirvana, e a música grunge em geral, seja cada vez mais atual. É a expressão de todas as superficialidades dadas como uma justificativa que não se justifica, um mundo aparente, de factóides, de caminhos delineados arbitrariamente, de idiotização generalizada.
No fim, esse texto sem assunto virou um texto com assunto, pelo acaso. O acaso também pode ser um belo assunto. Nem sempre o acaso configura um assunto, mas às vezes ele atrai os assuntos, ele coloca reflexões no caminho. Sempre é bom refletir. As singelezas, as coisas pequenas também podem dar muito para se pensar. Kurt Cobain é co-autor do texto de hoje do Dilemas Cotidianos. Por acaso.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Sobre sol e flores

Ah, que dia ensolarado. O sol dá uma cor especial a tudo. Ilumina, embeleza, faz o mundo ficar mais lindo. E as flores? Ah, as flores são espetaculares, lindas, incríveis. Fico emocionado de vê-las. Os pássaros fazem uma trilha sonora extraordinária, e os rostos, as expressões, a felicidade latente, tudo isso faz da vida algo que vale a pena, que supera tudo, que patrola qualquer coisa.
Quero ver mais beleza em tudo, quero deixar o sol me tocar, quero ver as flores enfeitarem tudo. Tudo merece ser enfeitado, porque tudo é o mundo, e o mundo é lindo porque o mundo é tudo, e nada além do mundo existe. Quero sorrir e me deleitar com a simplicidade de cada segundo, e cada segundo vale a pena, cada segundo é mágico, cada segundo compõe a nossa existência.
Quero sorrir, e adoro sorrir. Quero me estraçalhar de tanto rir. A vida é simples. Ridícula de tão simples. Nós a complicamos. Mas eu não vou embarcar nessa. A vida é linda, e pronto. A vida engloba todas as belezas e feiuras. A vida inclui todas as alegrias, todas as amarguras, todos os ódios, todos os amores, todas as amarguras, todas as felicidades. Cabe a nós escolher dentro deste cardápio o que queremos para nós. Eu já decidi. Serei cada vez mais feliz. Custe o que custar. Porque todos os custos são irrisórios perante a nossa plenitude. A plenitude é tudo, e cada um de nós somos fração e todo, simultaneamente, sem mistério nenhum. A nossa plenitude é tudo que vale, e só ela vale no fim das contas. Somente isso que importa.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Natal

Mais um natal chegando. Hoje à noite família, amigos, nem tão amigos, reúnem-se. Sim, essa época do ano é confraternizatória, de união, aquele bla bla bla todo. Mas é acima de tudo um exercício de tolerância. Piadas sem graça, bebedeiras, inclusive as minhas, tudo fica cheio de graça, na verdade fica todo mundo meio retardado e idiota, esperando o bom velhinho (talvez nem tão bom assim), ho ho ho...
No fim, o que me vale mesmo é a bebedeira, a diversão, fazer um ranguinho mais caprichado. O que mais me incomoda mesmo é a comercialização excessiva da data. O centro da noite natalina são os presentes. Fique claro, é bom, eu gosto, só discordo da priorização disso. É um fenômeno de exportação cultural do hemisfério norte, principalmente dos Estados Unidos, a mais consumista das nações. E, claro, a classe mérdia brasileira adora manias ianques. Até nevezinha eles querem, em pleno Brasil. A classe mérdia brasileira é o alvo mais fácil para a compra cultural de algumas imbecilidades sugeridas pelos estadunidenses. É uma classe que não sabe merda nenhuma sobre nada, e exatamente por ter essa limitação mental, coloca-se em posição de inferioridade em relação às balelas dos States, aceitando tudo, e se achando "chic no úrtimo".
Críticas à parte, sugiro apenas que todos curtam o que há de bom na noite de hoje, aproveite esse momento, que tem de ser de descontração, um pouco de alegria, um pouco de esquecimento. É hora de parar os motores um pouquinho, descansar, relaxar... E beber! Muito! Um feliz natal a todos.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

A importância do senso comum

Num primeiro momento, falar em senso comum remete a algo negativo, deletério, anti-inteligente. Isso tem um pouco de verdade. O senso comum é algo prejudicial ao cérebro. Porém, o senso comum é importante, sim. É lógico que olhar a realidade por um prisma crítico é fundamental para que não nos tornemos seres alienados. Mas retomar um pouco do senso comum, eu diria, é indispensável. É uma questão de manter nossa saúde mental.
Pensar, refletir, criticar, vislumbrar as coisas de uma maneira diferente implica numa alta carga de stress. Não podemos, não devemos pensar criticamente o tempo todo. Na minha profissão, de cientista social, por exemplo, há uma tendência toda especial de as pessoas se tornarem ranzinzas e chatas. Eu sou ranzinza e chato, admito. Mas sou bem menos do que eu era há um certo tempo. E por sorte tenho colegas de profissão que também estão dispostos a curtir, beber cerveja e falar sobre tv e futebol. Mas são minoria. São poucas pessoas, mas são as pessoas que me ajudam a manter meu nível de sanidade, pouca que resta, mas que devo preservar. Descobri a importância do senso comum na minha vida, e isso só me fez bem. Nem tudo precisa ser refletido, nem tudo precisa ser racional, nem tudo precisa ser politicamente correto.
É bom de vez em quando fazermos piadas bagaceiras, olhar filmes enlatados de terror e besteirol, cornetear os amigos torcedores de times rivais. Eu faço essas coisas regularmente. E não precisa fazer sentido nenhum. O sentido é se divertir, sorrir, sentir prazer, viver com certa intensidade. E, no fim das contas, realmente é isso, só isso, que faz sentido. Por mais que lutemos, que vejamos as coisas erradas, que tentemos modificar, de alguma forma, a realidade ao nosso redor, temos a nossa própria vida, e temos de ser um pouco egoístas, esquecer o mundo e seus problemas.
Não somos os salvadores da pátria, não somos os salvadores do planeta. Tudo que podemos ser é apenas os nossos próprios salvadores. Não estou pregando a alienação e o olhar acrítico. Estou apenas dizendo que isso não pode permear a nossa vida 100% do tempo. Temos que ser um pouco irracionais, um pouco apaixonados pelas coisas, independentemente da relevância que elas tenham na dimensão da racionalidade. Agora, deixa eu ir embora pra tomar uma Coca-Cola e ver um filme do Jason. O mundo real e chato que espere um pouquinho.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Manchester

O Manchester é o mais novo campeão mundial da Fifa. Mas foi um jogo duríssimo. A LDU vendeu caro a derrota. Esteve fechada no primeiro tempo, foi pressionada pelos ingleses de forma intensa, mas segurou o resultado. No segundo tempo, a expulsão de Vidic, em uma atitude de rigor excessivo do árbitro, deu nova vida à LDU, que passou a equilibrar as ações, comandada pelo muito bom jogador Manso. Porém, foi dele também o lance mais emblemático do jogo, mais emblemático até do que o solitário gol inglês. Num contra-ataque rápido, mano a mano, dois contra dois, Bieler passou livre à frente, enquanto Manso detinha a bola. Era só tocar, que Bieler faria. Manso não tocou, e prendeu a bola até perdê-la para Anderson. O lance me lembrou muito o histórico gol do mundial colorado. Só que ali não estava Iarley, nem era o Inter. Era Manso, era a LDU.
Pouco tempo depois, Rooney, com muita categoria, fez o gol que viria a decretar o título dos Red Devils. O time equatoriano tentou, lutou até o fim, mas perdeu o mundial. Foi uma equipe extremamente digna. Obrigou o ótimo Van Der Sar a fazer pelo menos duas defesas espetaculares. Representou muito bem o futebol sul-americano. Ano que vem, o Inter terá a busca do bi-campeonato da Recopa contra esse time. Jogão no Beira-Rio.
E o Manchester foi campeão com justiça, com um jogador a menos. Fez prevalecer sua maior qualidade técnica e disparidade de poder econômico em relação à LDU. A taça da Fifa que até hoje só foi levantada por Rogério Ceni, Fernandão e Maldini, agora é erguida por Rio Ferdinand. Tudo em alto nível. Tudo padrão Fifa.

sábado, 20 de dezembro de 2008

O poder da música

A música é uma arte especial. As notas musicais, barulhos que em conjunto tornam-se harmoniosos, têm algo que se expressa por si só. Talvez a música seja a única arte capaz de traduzir emoções e estados de espírito de maneira totalmente abstrata. Ela fala por si só, mesmo quando é instrumental. Algumas traduzem angústia, outras alegria, e algumas outras, paixão, amor, ódio, revolta. Claro que hoje há um certo consenso de que quanto mais arrastadas, demoradas as notas, mais melancólica uma música se torna. Ainda assim, é a arte que mais se aproxima da abstração, da tradução simultânea, sem necessidade de expressão mais direta. A escrita, logicamente, necessita dessa objetividade. Não a tivesse, seria incompreensível, e perderia seu próprio sentido. As artes dramáticas e as artes plásticas necessitam do apelo visual. Só a música tem esse lado subjetivo, mais próximo do intuitivo, que faz um simples instrumental, um simples agregado de notas, denotar diferentes emoções.
A música é uma companheira permanente da minha vida. Talvez por isso mesmo, os momentos marcantes invariavelmente fiquem marcados por músicas específicas. Sempre que um momento especial emergir em minhas lembranças, remeterá a uma música. Alegrias, tristezas, depressões, surpresas, em diferentes momentos experimentadas pelo espírito, toda essa gama de emoções encontra-se colada a músicas específicas. A vida tem uma trilha sonora.
O que algumas vezes incomoda é a mercantilização excessiva da música. Não, não quero que os músicos façam voto de pobreza. Devem vender sua música, sua arte. O que discordo é em relação ao caminho, à linha que guia a conduta de alguns artistas. A música tem de ser antes arte, depois produto. A lógica vem sendo progressivamente invertida. A música vem sendo antes produto, depois arte; em alguns casos, torna-se apenas produto. Aí está a distorção grave. As implicações disso podem ser mais graves do que se imagina. Podemos chegar ao fim da música enquanto expressão artística, com a transformação em um produto cada vez mais descartável, como uma lasanha que se compra no mercado, coloca-se 5 minutos no microondas, come-se e joga-se fora.
Infelizmente, o advento da internet também possui esse lado perverso. Democratiza, permite maior divulgação. Mas ao mesmo tempo músicas são cada vez mais mp3, que se baixa e se deleta a hora que bem se quer. Os artistas empobrecem, uma vez que a maioria dos downoads se dá das mais diversas formas, e os criadores das canções não sentem nem o cheiro do dinheiro com a rarefação da mídia material, o cd, que já rende a um artista de grandes gravadoras em média, pasmem, 20 centavos por cd vendido. Isso tudo vai criando um círculo vicioso que propaga uma progressiva banalização da música, da arte. A música enquanto arte está tendo um ataque cardíaco. Alguém traga um desfibrilador, por favor!

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

100

Essa postagem é especial. A centésima. 100 textos. Sem frescuras. Teria que haver uma comemoração especial. Mas tá bom demais. Causa certa satisfação. Foram 100 momentos de absoluta sinceridade, opinando sobre praticamente tudo, futebol, mulheres, escrevendo ficções. Alguns mais inspirados. Outros, bem menos. Tudo de forma simples, procurando sempre manifestar aquilo que sinto vontade de manifestar, conforme a proposta de nascimento desse blog.
Agradeço a todos que aturam este blog, lêem os textos, e estabelecem essa convivência. Que venham mais 100, 1.000, 10.000 textos. Essa experiência vem sendo excelente, esse site é uma espécie de divã. Continuemos essa estrada. Grande abraço a todos.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Dilemas Cotidianos- Capítulo 12

Pedro sempre foi o colega de trabalho com quem Fernando tinha menos afinidade. Dos amigos, era o menos amigo. Era sempre o mais distante. Achava-se o homem mais incrível do mundo. Talvez isso contribuísse para que fosse o menos carismático. Tinha algum sucesso com as mulheres, não falava muito, mas adorava gabar-se. Na verdade, Pedro parecia ter algum recalque, principalmente em relação a Fernando. A relação era amistosa, mas Fernando também fazia muito um exercício de tolerância. Na verdade, não entendia muito o que se passava na cabeça do colega.
Pedro parecia sentir certa inveja de Fernando. Fernando era um sujeito com identidade afirmada, não devia nada para ninguém. Logicamente possuía inseguranças, e talvez essas inseguranças o tornassem ainda mais interessante e atraente para os amigos ao seu redor. Pedro parecia não engolir Fernando. Vez por outra, colocava na pauta algo que pudesse desagradar Fernando. Competia com Fernando, mas tal competição era desigual, para Fernando era impensável. Todo aquele vidro, aquela capa colocada por Pedro sobre si, sua arrogância, o achar-se melhor e querer ser melhor a todo custo era apenas recalque. Fernando percebia essas nuances, a competitividade descabida de Pedro, sua vontade de superá-lo no que quer que fosse. Porém, nada daquilo tinha poder de atingí-lo, tão pequeno e ridículo que era. Ele simplesmente achava graça, porque Pedro não provocava ele, não competia com ele. Brigava, digladiava-se, competia, pateticamente, consigo mesmo. Enforcava-se sozinho em sua arrogância e ego presunçoso.
As vezes em que Pedro resolvia alfinetar Fernando eram particularmente engraçadas. Sempre funcionava assim: ele alfinetava; não tinha uma resposta de Fernando, porque Fernando não amesquinhava-se em provocações de um amigo mal-resolvido. Ao perceber sua ineficácia em provocar Fernando, Pedro enchia os olhos de fúria e ódio infantis. E provocava mais, e mais ridiculamente. Irritava-se sozinho. Absolutamente sozinho. Havia vezes em que se irritava tanto, que nem Sérgio nem Julieta entendiam rigorosamente nada. Fernando percebia, e deleitava-se no fundo. Gargalhava por dentro da falta de maturidade, e de toda a insegurança de Pedro. Era como se Pedro tivesse escolhido Fernando como uma referência de rivalidade, como se sua relação fosse entre dois times de futebol da mesma cidade, de mesma grandeza. Não eram. Fernando tinha consciência, e certa pena, até, da pobreza de espírito de Pedro. Mas ao mesmo tempo divertia-se, porque era de certa forma motivo de lisonja que alguém se importasse tanto com ele, a ponto de torná-lo ponto de referência para suas ações!
Uma demonstração de tal inconformidade de Pedro ficou evidente naquela semana em que Débora era fria com Fernando. Fernando telefonou para a moça do escritório. Pedro estava junto. Débora manteve-se distante e fria, o diálogo fora rápido, e Fernando ficou desconfortado. Pedro parecia feliz com aquilo, percebia que Fernando estava incomodado ao telefone. Perguntou cinicamente se estava tudo bem. Fernando respondeu afirmativamente. Pedro meteu-se a dar palpites, tal qual um especialista na arte do afeto. Fernando, educadamente, discordou da palpitaria do amigo. Seu método, sua forma de encarar o relacionamento, era diferente do apregoado pela fórmula mágica de Pedro. Não havia certo e errado no amor, nem fórmulas, nem nada. Tudo era válido, e tudo sempre aconteceria como tem de acontecer. Fernando sabe disso, e por isso não abre mão de suas próprias convicções. Mas Pedro não podia conceber nada que ultrapassasse sua mentalidade medíocre e tacanha. Não aceitava que Fernando não aceitasse suas sugestões furadas. E começou a discutir, ao passo que Fernando mantinha-se absolutamente calmo, pois para ele aquela discussão não passava de bobagem. Pedro irritava-se, Fernando não ligava, e isso fazia com que Pedro se irritasse mais ainda. Chegou a ficar vermelho o moço.
Tão patética foi a discussão, o monólogo de Pedro, que Sérgio, que também estava na sala, não conteve a frase, dita espirituosamente:
- Mago do amor: você está mais incomodado com a vida sentimental de Fernando do que ele mesmo! Vai comer uma puta pra se distrair e esquecê-lo!- disse, seguindo à frase uma gargalhada, acompanhada de um sorriso satisfeito de Fernando. Pedro ficou mais vermelho e irritado, virou-se para seu computador e ficou quieto, remoendo sua cólera, derrotado e humilhado por seus próprios atos.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

17 de dezembro

Há dois anos atrás o Inter sagrava-se campeão do mundo. Lembro-me da ansiedade, tudo que compunha a atmosfera daquele momento. Eu estava apreesnsivo. O Inter era campeão da América, pegaria o poderosíssimo Barcelona na final do mundial. Confesso, eu estava cético. O Barcelona não era um time. Era uma máquina. Triturava adversários, onde estivessem. Mas havia uma fé, havia algo no fundo do coração, da minha alma colorada. Não houvesse, não estaria à frente da televisão naquele domingo pela manhã.
O jogo foi tensão pura. O primeiro tempo era truncado, e o Barça levava perigo. O Inter dava uma ou outra estocada. Jogava com dignidade. Havia um time determinado jogando contra o time espanhol. Lutador o elenco colorado. Fazia o máximo, e mais um pouco. Terminado o primeiro tempo, senti um alívio. O Inter jogava de igual pra igual com o bicho papão.
O segundo tempo trouxe Vargas, e este foi importantíssimo, ao substituir Alex, que não havia entrado em campo. Aquilo deu mais vigor na marcação colorada, que havia sido falha naquele setor durante o primeiro tempo.
E o Barcelona passava a pressionar. A saída de Fernandão, o sangramento de Índio, a zaga se virando pra tirar bolas da zona de perigo, tudo isso formava a moldura mais dramática possível. Parecia questão de tempo. Uma hora, o Barça faria o gol. Mas eis que o tão desacreditado Gabiru, aquele que quando chamado por Abel tirou da minha boca algo como "puta que pariu, o Gabiru?" apareceu para ficar eternizado na história colorada, depois de jogadaça de Pedro Iarley. Bateu naquela bola, que marota, moleca, safada, lambeu as luvas de Valdez, e entrou quicando. O quique da bola fez aquele gol especial. O quique da bola atribuiu dramaticidade. Ali, o mundo parou. Durante um segundo, dois talvez, a terra parou de girar. Ali fiquei cego. Ali fiquei surdo. E saí do meu estado de inconsciência no grito de Galvão Bueno, para em seguida sair gritando, correndo, pulando pelo meu apartamento. Era gol do Inter! Era gol do Inter! Era gol do Inter!
O placarzinho no canto da tela denunciava a traquinagem do saci: Inter 1, Barcelona 0. A expressão nos rostos dos jogadores do Barcelona demonstrava uma descrença, um absurdo kafkiano. Eles tinham lágrimas nos olhos. Pareciam não acreditar no que acontecia. Eles teriam de ser os campeões! Estava escrito nas estrelas! Iriam ganhar, com a certeza mesma de que dois e dois são quatro. O que que aquele time sul-americano terceiro mundista queria? "Não avisaram esses rapazes de branco que eles perderiam? Não avisaram que nós somos o Barcelona? Não avisaram que somos invencíveis?" Não, não avisaram.
Eu ria, chorava, me rasgava por dentro, meu coração estava implodindo. O Inter estava sendo campeão do mundo! O meu Inter estava sendo campeão do mundo! Do mundo! Faltavam alguns muitos minutos. O tempo não passava. Os ponteiros do relógio estacionavam. Cada segundo tinha 10 minutos. E o Inter seria campeão do mundo! Todas as angústias, todos os sofrimentos, todos os traumas, todas as derrotas, tudo estava sendo afogado de uma vez por todas ali!
E o jogo acabou! O Inter era campeão do mundo! O colorado ganhou do Barcelona! O Inter era dono do mundo. Gritei, chorei. Nossa, como gritei! Eu estava no paraíso. Era o ápice. O máximo. Não havia onde guardar tanta alegria. Talvez tenha sido o dia mais feliz da minha vida. Foi, foi sim. Naquele dia, nada mais importava. Era a plenitude. Tudo era só felicidade. Só alegria. O Inter era campeão do mundo! Era só isso que importava. Bebi um monte, com a família, meu pai, meu tio, minha mãe, meu primo, minha dinda. Tudo foi delicioso. E se esticou. A segunda-feira foi maravilhosa, que incrível, que admirável, quão doce era ir à banca, olhar as capas dos jornais, Gabiru, Fernandão erguendo a taça, e comprar tantos jornais quantos fosse possível. E com o passar do tempo, pôsteres, revistas, dvds, tudo que documentasse aquele êxtase. Até hoje revivo aquele dia. O dia em que tudo fez sentido. O dia do êxtase. O dia do Inter.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Dilemas Cotidianos- Capítulo 11

A segunda-feira de trabalho começou em um clima estranho no escritório de Fernando. Sérgio estava distante, Pedro há muito também o era. Pedro era um corpo estranho naquele contexto. Achava-se tão maravilhoso e cheio de virtudes que não se incorporava mais, de fato, no contexto dos amigos de escritório, embora todos tivessem consideração por ele, e algumas vezes até mesmo Julieta demonstrava algum encantamento.
O ambiente entre Fernando e Julieta, em especial, era coberto de tensão. Havia algo no ar. Os dois tinham poucas palavras um com o outro. Era um estranhamento e uma irritação latente recíprocos. Fernando suspeitava que algo havia sido feito por Julieta junto a Débora. E assim passou-se o dia, insuportavelmente. Entre um café e outro, o silêncio era o imperativo maior. Vez por outra, Sérgio fazia alguma piada forçada, tentando descontrair o ambiente. Mas ele também estava tenso. No fundo, incomodava-se com o relacionamento de Fernando com Débora. Foram embora, cada um para sua casa.
Ao chegar, Fernando ligou para Débora. Ele sempre pensava no quão incômodo poderia ser um telefonema, mas ligou mesmo assim, tinha vontade de ligar. E assim o fez. Débora atendeu, e conversaram. A moça estava fria, distante. Sim, naquele momento Fernando via que algo realmente tinha mudado. Não era imaginação! Certamente Julieta falou algo. Certamente Julieta estava determinada a detruir a vida de Fernando! Convidou Débora para sair, mesmo assim. Talvez um encontro dos dois pudesse reverter o panorama. Ela relutou, mas acabou aceitando, tamanha foi a insistência do rapaz. Encontraram-se num bar. Débora estava bela como sempre, séria como nunca. Ela estava irritada, estava ali como que por obrigação. Fernando percebeu, e sentia-se um peso. Não havia o que falar. O rapaz tentou perguntar sobre Julieta, mas Débora foi evasiva. Fernando beijou-a. Débora foi fria, praticamente não mexia os lábios e a língua.
As coisas não estavam boas. Débora foi embora cedo, com uma frieza assustadora. Fernando ainda ficou no bar. Bebeu mais umas duas garrafas de cerveja, e conteplava a paisagem, na verdade pensava na vida. Se pudesse, Fernando mataria todas as pessoas que o incomodavam. Julieta era seu problema. O que ela queria? Julieta mantinha uma relação estranhíssima com Fernando. Quisesse ultrapassar as barreiras estabelecidas, certamente o faria. Não podia, então, ser paixão o motivo daquele complô. Por que, então, perguntava-se desesperadamente. Julieta estava proposta a detruí-lo. Só podia ser isso. Nada além disso fazia sentido. Mas, persistem as dúvidas. Por que motivo? Ela não era sua amiga? Não tinha apreço por ele? Fernando passava então a corroer sua alma com isso tudo. Estava perdendo Débora, sentia isso, e sentia que pouco poderia ser feito. E foi dormir, pensando, pensando, pensando, e gerando cada vez mais dúvidas em sua cabeça.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

A sapatada

Bush foi recebido a sapatadas por um jornalista iraquiano, em uma entrevista coletiva no país invadido pelos Estados Unidos. Claro que moralmente, é feio falar isso. Mas, bem feito! Foi bem engraçado pra falar a verdade. Naquele gesto, o jornalista concretizou o que muita gente tem vontade de fazer. Não sejamos hipócritas, por favor!
Foi um gesto simbólico, contra uma intervenção descabida, em nome de uma "democracia" que ninguém sabe se os iraquianos querem. É como se chegassem na sua casa, e dissessem que a geladeira tem que ficar no quarto. Você não quer, prefere na cozinha, mas os caras chegam e dizem que o certo é no quarto. "Talvez você não tenha percebido, mas é isso que você quer!" Trata-se de uma agressão ao princípio de auto-determinação dos povos. E tudo o que foi feito pelas bandas do Iraque até agora, as torturas, os abusos, os desrespeitos, fica de lado. Talvez agora que Bush esteja de retirada, algumas almas caridosas sintam peninha. Eu não sinto.
Bush foi um desastre diplomático, truculento, etnocêntrico ao extremo. Em nenhum momento, além disso, a administração Bush se preocupou com o resto do mundo, a não ser quando seus interesses específicos estavam em jogo. Eles só são donos do mundo na hora de tirar vantagens. Na hora de ajudarem no crescimento econômico do terceiro mundo, ou mesmo de se preocuparem com a sobrevivência do planeta, são irredutíveis.
Bush se despede assim, à base de sapatadas. Não só com sapatadas, mas também com tomatadas, ovadas e farinhadas. Não deixará saudades, porque foi um capítulo triste e truculento da história, promovendo guerras, colocando-se como o bem, tentando jogar o mundo contra o mal, segundo a sua perspectiva. Não é questão de apoiar o terrorismo, é apenas a consideração de que quando se faz uma guerra, há muito mais na pauta. E mais, sejamos honestos, o grande interesse é pelo petróleo do Oriente Médio, travestido de guerra anti-terror. Mais um pouco, Bush começaria a olhar com mais "carinho" para a América Latina, principalmente para seus governos de esquerda e de resistência. Já havia intervenções estadunidenses nos golpes na Venezuela. E provavelmente isso iria se agravar, quando Bush enjoasse do Iraque. E não esqueçamos, a Venezuela, por coincidência, é uma potência petroleira...

domingo, 14 de dezembro de 2008

A vitória de Píffero

A esmagadora vitória da situação colorada na eleição de ontem, com mais de 90% dos votos, foi a afirmação de uma gestão absolutamente vencedora no Inter. O grupo que comandou o Inter nos últimos 7 anos foi o responsável pela retomada do orgulho de ser colorado. Colocou o Inter novamente como protagonista do futebol não só brasileiro como sul-americano e mundial. E isso não é pouca coisa. Desde que Carvalho, Píffero e companhia assumiram o clube, o Inter não passou um ano sequer sem levantar taça. Vamos então ao histórico da gestão:
2002- Campeão Gaúcho;
2003- Bi-Campeão Gaúcho;
2004- Tri-Campeão Gaúcho;
2005- Tetra Campeão Gaúcho;
2006- Campeão da Libertadores e Campeão do Mundo;
2007- Campeão da Recopa Sul-Americana;
2008- Campeão da Copa Dubai, Campeão Gaúcho e Campeão da Copa Sul-Americana.
São 10 títulos em 7 anos. Seria impensável tirar a situação do poder, porque a situação do Inter, tanto em termos de conquistas como em termos estratégicos, é absolutamente privilegiada. Houve erros sim. No primeiro ano de gestão o Inter penou, muito também por causa da hoje oposição, que deixou o clube com menos de 10 jogadores no vestiário. Carvalho se viu então obrigado a contratar um time todo por empréstimo, time este que tecnicamente era muito bom, com nomes como Fabiano Costa, Fernando Baiano, Carlos Miguel, Júnior Baiano. Pode-se discutir a conduta de alguns deles, mas, que eram muito bons jogadores, eram. Depois disso o Inter passou a comprar jogadores, fazer contratos mais longos, e a adotar uma linha dura em termos de comportamento extra-campo, tendo Vitorio Píffero como um vice de futebol disciplinador. Contruiu-se então uma base, e aos poucos o Inter foi ganhando o formato que o tornaria o super campeão que é hoje.
Houve problemas nos dois últimos anos, principalmente no Campeonato Brasileiro. O Inter montou seu time no meio do campeonato, e as coisas não andaram. Mesmo assim, permanecemos empilhando títulos importante, para desespero da vizinhança. E hoje o Inter é o único time brasileiro campeão de tudo. O saldo é absolutamente positivo, e agora, com Fernando Carvalho assumindo como vice de futebol, as coisas tendem a melhorar. Giovani Luigi é um vencedor. Mas Fernando Carvalho é Fernando Carvalho. O jogador vai olhar de maneira diferente para o seu vice de futebol. Carvalho, pela sua história, é autoridade, e terá o respeito pleno do vestiário.
A oposição entrou apenas para marcar presença. Com todo o respeito, a campanha de Bier era de uma pobreza franciscana. Parecia mais um corneteiro aventureiro, e não conseguiu convencer ninguém. Na gestão do grupo de Bier, Miranda e companhia, que foi imediatamente anterior à Era Carvalho, o Inter passou 2 anos sem chegar nem sequer a uma final de campeonato, sem ganhar um Gre-Nal que fosse. Talvez eles tenham tido méritos no reequilíbrio financeiro do clube. Mas em termos de gestão de futebol, foram um fracasso absoluto.
Parabéns a Vitorio Píffero. Desejo que o Inter continue seu caminho determinado a conquistar cada vez mais títulos, e que conquiste mais, muito mais. Segue tua senda de vitórias, colorado das glórias, orgulho do Brasil.

sábado, 13 de dezembro de 2008

Dilemas Cotidianos- Capítulo 10

Chovia bastante. Era um sábado carrancudo, as pessoas que vagavam pela cidade o faziam de má vontade. Guarda-chuvas povoavam o visual da cidade, dando uma aparência que misturava o acinzentado dos prédios com suas predominâncias pretas. Débora dormia até tarde em seu apartamento, sozinha. Usava um baby-doll branco, bastante transparente, espreguiçava-se, e não levantava de sua cama. O telefone fez a moça acordar, de fato. Já eram onze e meia da manhã.
Quem estava do outro lado da linha era Julieta. Simpaticamente, puxou assunto. Disse que havia adorado conhecer Débora, e que ambas poderiam fazer muitas coisas juntas. Havia algo de estranho no ar, apesar de toda a naturalidade e simpatia de Julieta. As duas mulheres conversaram bastante, sobre variados assuntos, por cerca de 40 minutos. Combinaram de sair no domingo. O convite foi feito por Julieta.
- Vamos então, sair amanhã? Será ótimo, tenho certeza!
- Claro. De repente posso convidar Fernando.- replicou Débora.
- Boba! Vamos nós duas! Há coisas que homens não assimilam, não podem ouvir. E também podemos ter mais liberdade de falar sobre os atributos dos homens que apareçam. Talvez possamos até conversar com alguns!- argumentou Julieta.
- Tudo bem, então. Você tem razão. Mal não fará.- finalizou Débora.
Na tarde daquele mesmo sábado, Fernando ligou para Débora. Convidou-a para sair naquele mesmo domingo. Mas o compromisso de Débora já estava marcado. A tarde de domingo reservava amenidades femininas ao lado de Julieta. E Débora contou isso para Fernando, utilizando como argumento para a recusa. Fernando estranhou bastante. Que repentino interesse seria aquele de Julieta por Débora? O que haveria ali? O que, afinal, ela desejava com aquilo? Seria uma forma de interferir na relação deles?
Fernando não gostava de misturar as vidas pessoal, familiar e pofissional. A combinação desses meios seria deletéria, sempre. Os mundos têm de ser independentes. Sempre haveria amigos sacanas, pessoas que possam fazer intrigas, flertes indesejados, e parentes querendo a sua desgraça, sempre haveria. Sentia que tinha razão. Num primeiro momento, nada demais havia. Apenas estranheza.
Fernando tentava ser racional. Afinal, sempre fora acusado por todos à sua volta de ser imaginativo e paranóico. Ele via o mundo e a maldade das pessoas com uma moldura de feiura especial. Fernando não acreditava, definitivamente, no ser humano. Para ele, todos a todo momento, são traidores latentes. Talvez fosse, em sua cabeça, uma espécie de doença inerente de ser humano, da qual apenas ele encontrava-se imune. Esperava sempre pelo pior, e por isso mesmo, mantinha-se absolutamente vigilante, com tudo e com todos. Cronometrava todo e qualquer movimento. Fazia cálculos, e no que pudesse, faria todo o possível para manter Débora longe de todos os homens.
Apesar de amigo de Julieta, e apesar de os dois terem uma relação controversa, um limbo entre a amizade e algo mais, sabia que ali não havia flor que se cheirasse. Mas aceitou, com mãos e cara amarradas, a sentença. Não sairia com Débora naquele domingo. Ficaria à mercê. E assim foi.
Débora e Julieta saíram, e conversavam muito. Julieta sempre introduzia comentários quando passava algum homem de boas feições pelo parque em que elas estavam, em alguns ela chegava, conversava um pouco, apresentava a Débora. Mandava os rapazes abraçarem Débora.
Fernando, em casa, remoía-se por dentro, imaginava o que poderia estar acontecendo, e de alguma forma sabia que, de bom, nada aconteceria. Apreensivo, ficava deitado no sofá, desorientado, levantava-se, vez por outra, e não conseguia parar de pensar no que ocorria com Débora naquele momento.
E Débora e Julieta divertiam-se. Falavam de homens, e Fernando passou à pauta. Julieta passou a aconselhar Débora.
- Será mesmo, Débora, que esse namoro com Fernando vai terminar bem? Vejo que você ainda tem muita vida, e tantos rapazes por aí, lindos, disponíveis. Vale a pena prender-se a um só? Há muito a se viver, talvez esse desgaste todo seja desnecessário. Podemos curtir muito, sair muito, e ver tantos homens, e abraçá-los, e beijá-los também. A vida é curta, pense bem nisso.- propôs Julieta.
- Pois é, Julieta. Fernando me faz sentir bem. Entretanto, talvez você tenha razão. Ainda sinto outras vontades, talvez tudo possa ser menos confuso. Acho que devo pensar mesmo.- refletiu Débora.
Converaram mais um pouco, e despediram-se. Havia algo novo e talvez perverso sendo plantado ali. Em seu apartamento, Fernanfd sentia uma vontade imensa de ligar para Débora, saber como foi o dia, como foram as coisas, talvez até saber o que aconteceu. Mas não ligou. Cedo foi dormir. Por mais que não conseguisse, seria essa a tentativa, pois nada de mais interessante havia para fazer. E, revirando-se entre os lençõis, dormiu, dormiu pensando, fundindo pensamentos, imaginações, realidades, sonhando e tendo pesadelos. Por vezes pensava que nada havia para se preocupar. Mas o fato é que estava preocupado.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

CQC X Pânico

O Grenal da vez na tv brasileira é CQC X Pânico. São talvez os dois programas humorísticos com mais repercussão no momento. Confesso que acho ambos os programas divertidos. Mas sou muito mais o CQC. Muito mais mesmo.
São dois programas que fazem basicamente a mesma coisa, mas com abordagens completamente diferentes. E o CQC tem a vantagem, pra mim, de ter um lado mais politizado, jornalístico. O Pânico faz piadas mais escrachadas, usa mulheres em micro-lingeries. O CQC, por sua vez, adota um humor bem mais refinado. Outra vantagem do CQC: enquanto o Pânico muitas vezes humilha as pessoas, caçoando de roupas, da aparência, dentre outras coisas, o CQC faz piada com os atos das pessoas. Torna-se ao mesmo tempo mais crítico e corrosivo, e menos grosseiro.
Sou um fã confesso do Custe o Que Custar. Acredito que seja das melhores coisas que surgiram na televisão brasileira, que realmente valem a pena assistir. Fazia tempo que não tinha um programa de tv brasileiro cujo horário eu ficasse esperando ansiosamente para assistir. No meio de tanta merda que a tv do nosso país produz, programas de auditório com conteúdo zero, novelas enjoativas, entre outras coisas, surge o CQC provando que é possível sim, fazer coisa boa e inteligente em televisão comercial.
Realmente pago pau pro CQC, porque é bom demais. Pânico já me proporcionou boas risadas, já me divertiu bastante. Mas, depois do CQC, nada pode continuar igual, não há como comparar. É como comparar uma Copa Toyota com um Mundial de Clubes da Fifa. Não é a mesma coisa.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Chopp

Nada como tomar um bom choppezinho. Ando estressado, cansado. Nessas horas, realmente, um choppezinho vai bem. Muito bem. Hoje fiz isso com uma amiga. Antes, assisti a um filme. Chatíssimo. Não recomendo. Chama-se "Luz Silenciosa". Tem algumas poucas sacadas interessantes. Mas é muito moroso, as cenas são demoradíssimas, preguiçosas. Filme pra baiano ver.
Visto o filme, um bom chopp, dois canequinhos. Por vezes é fundamental dar uma parada, um relax. Caso contrário, dá um nó na mente e o cara enlouquece. E isso não seria nada bom. Bebi pouco, mas o suficiente pra ficar alegrinho, conversar sobre a existência, sobre filmes, sobre posições sexuais preferenciais. Confesso, prefiro ficar por baixo.
Depois, comi um xis calabresa vagabundo no centro. Daqueles de dar infecção no intestino. Mas são esses os mais gostosos nesses momentos. Brincadeiras à parte, era simples, bem simples, mas acredito sim que era higiênico. Pelo menos não fedia como a maionese de um cachorro quente que comecei a comer uma vez, há alguns anos,no mesmo centro de Porto Alegre, pra lá de meia-noite. Também, por um real, e ganhando um copo de refri "na faixa", eu ia querer o que?
Estava precisando realmente dar uma conversada. Ando lendo muito, e, embora ler seja sempre salutar, em excesso leva o sujeito a um desgaste mental sem precedentes. Agora estou renovado. Com sono, bocejando, mas com a cabeça um pouco mais leve. Só não sei se os bocejos são efeito do chopp ou do filme...

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Telemarketing

Parece que nos Estados Unidos algumas empresas já estão utilizando um dispositivo que detecta o grau de irritação do interlocutor quando atendido por telefone por seus telemarqueteiros. Não sei como esses serviços funcionam por lá. Mas, aqui no Brasil, daria pano pra manga. Eles se superam no dom de ser irritantes, seja para resolver problemas dos clientes, seja quando estão vendendo seus produtos.
Aliás, algumas empresas são desonestas. Tem uma para a qual eu liguei para resolver um problema na internet, certa vez, e me disseram que havia caído uma árvore. A árvore, no caso, era apenas desligar por 30 segundos o modem. É muito mais fácil mentir do que resolver o problema. E para todo mundo, eles dão a mesma maldita resposta, adestradinha, adestradinha. Hoje não sou mais cliente da dita empresa. Diga-se de passagem, a minha atual prestadora de internet me atende bem melhor, e, de fato, resolve os problemas. Pena que essa qualidade de atendimento seja exceção à regra. Isso sem contar na demora de atendimento de algumas empresas. Pra ganhar no cansaço. E às vezes ganham. O cara fica uma hora esperando, ouvindo uma musiquinha irritante, e a ligação... cai, assim, por coincidência. Geralmente quando se vai resolver algum problema técnico ou, principalmente, tratar do cancelamento de determinado serviço.
Tenho dó dos atendentes de telemarketing. É o ganha-pão deles, e eles são treinados para fazer aquilo! Acabamos xingando e nos irritando com eles, que estão em condições insalubres de trabalho, quando o verdadeiro fdp da história está numa sala ampla, com ar condicionado, e nunca saberá da nossa reles existência. Às vezes eu também me irrito, claro que sim. Porém sempre procuro deixar claro para o meu interlocutor que a minha irritação não é com ele, mas com a política da empresa. Não é fácil para eles. Têm as suas metas impostas pelos patrões, não podem nem sair para fazer um xixizinho, e ainda têm que levar um monte de osso.
Ruim é saber que as coisas continuarão assim. As empresas desrespeitando o consumidor, lucrando às custas do stress alheio, e dando péssimas condições de trabalho, além de um salário próximo do ridículo, explorando ao máximo os coitados que terão que ouvir os nossos xingamentos, que jamais chegarão aos ouvidos requintados de seus chefões. Essa é mais uma faceta maravilhosa do fantástico mundo desse capitalismo desumano, onde todos têm a liberdade de competir por um lugar ao sol. Tsc, tsc, tsc.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Fenômeno

Preparemo-nos! A contratação de Ronaldo pelo Corinthians vai ser das coisas mais insuportáveis jamais vistas na imprensa do centro do país! Vai ser uma badalação sem fim. Vai ter plantão da Globo quando ele acordar, quando ele chupar uma laranja, quando almoçar, quando espirrar! É o Timão. De volta e cada vez mais pegajoso. Assim é fácil ter torcida grande. Com essa exposição toda, qualquer torcedor de lugar que não tenha times que prestem vai escolher aquele time que mais pode acompanhar.
E o primeiro treino, hein? O primeiro gol de Ronaldo com a camisa do Corinthians! Vai ter edição extra do Globo Esporte. Esse tratamento desigual para com os times do centro do país (em especial Corinthians e Flamengo) não é nenhuma novidade. Tudo que se refere a eles vira super-fato. Claro, a contratação de Ronaldo é um fato, disso não há dúvidas. Mas, no Corinthians, será elevado à enésima potência.
Nesse aspecto, nós, como gaúchos, temos de nos orgulhar. Temos dois grandes times, e não precisamos torcer por times de centros econômicos. Com toda a falta de mídia, de cobertura, com as diferenças de tratamento gritantes, temos dois grandes clubes, multi-campeões, assim, na marra mesmo. Aliás, boa parte do Brasil considera o Rio Grande do Sul como uma espécie de corpo estranho na Federação.
Tratamentos de imprensa à parte, embora deteste o Corinthians, torço para que Ronaldo retome seu futebol. É um grande cara (sem trocadilhos, ok?), e um exemplo de vida, passou por lesões gravíssimas, e sempre as superou, inclusive dando uma senhora volta por cima com o Penta. Só espero que a insuportável cobertura que certamente será dada ao Fenômeno não me faça começar a antipatizar com ele. Mesmo sabendo que ele não tem culpa, é um risco sério.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Dor de cotovelo

Imagino a dor de cotovelo do lado azul do Rio Grande nessa segunda-feira. Deve ser realmente difícil não ganhar nenhum título importante há quase 10 anos. Resta isso, as tentativas desesperadas de valorizar um vice-campeonato fiasquento, de um título que estava ganho pelo Grêmio, e escorreu pelas mãos inacreditavelmente. Essa é a verdade. Não menos desesperadas são as tentativas de desvalorizar a Copa Sul-Americana, ganha pelo Inter.
Deve machucar muito o ego tricolor ver que o Inter em três anos trucidou aquela série de mitos de "time copero y peleador", "nada pode ser maior", e outras tantas balelas que tentam aplicar goela abaixo. O Inter é o papa-títulos dessas terras. Passou o Grêmio em termos de títulos, conquistou tudo que o Grêmio conquistou, e conquistou mais. E não adianta, a soberba gremista não se desmancha mesmo assim, faz parte do DNA tricolor.
O fato é que mais um ano terminou, e o Inter aumentou sua coleção de grandes títulos com um em nível intercontinental (Copa Dubai) e outro continental (Copa Sul-Americana). É bom demais ser colorado. E ano que vem tem muito mais, para desespero dos gremistas: o Inter vai buscar o Bi da Recopa, o Bi da Sul-Americana, e entra forte demais nas competições nacionais. Claro que para conquistar o Brasileirão, que é quase tão importante que a Sul-Americana, mas queremos também, o Inter não poderá repetir o equívoco de remontar time no meio do campeonato. De qualquer maneira, de Brasileirão o Inter entende bem. É tri-campeão. O único tri-campeão do Rio Grande. Mais do que nunca.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Orkut

Li uma notícia fantástica e ao mesmo tempo estarrecedora no site globo.com. Algumas empresas acessam o Orkut e blogs para verificar o perfil de candidatos. Incrível! Genial! Não bastasse isso, eles ainda "orientam" sobre o que seria um bom perfil: profissional, com qualidades e competências, sem opiniões pessoais que possam causar danos à imagem. Mais, eles definem o que se deve escrever em blogs! Meu Deus!
As empresas, principalmente as maiores, se acham donas do mundo. Que cargas d'água um perfil de Orkut pode interferir na competência de um sujeito? Gostar de tomar umas biritas, como é o meu caso, ou não gostar de segunda-feira, como também é o meu caso, não me faz menos competente do que alguém que está numa comunidade "eu amo meu chefinho querido". Talvez essas empresas desconheçam a palavra profissionalismo, que elas tanto apregoam. Ser bom profisisonal é não beber? Ou é ser um baba-ovo? Ser profissional é simplesmente saber das suas obrigações e cumpri-las, simples assim. Agora, o que o cara faz fora do serviço, se enche a cara, se fica vagando pelas ruas, é problema dele. A empresa só tem o direito de se preocupar com isso a partir do momento em que esses atos interfiram, efetivamente, no desempenho do profissional.
Isso sem contar que a confiabilidade de sites do tipo Orkut é mais ou menos a mesma de deixar um gato cuidando do aquário. Hoje mesmo tive que fazer uma faxina nas minhas comunidades! Elas aparecem, ou são mudadas ao bel-prazer de moderadores ou de hackers, não sei ao certo. Tinha comunidade do Santos! Pior, tinha uma comunidade "Eu já dei o cu/buceta". Nem preciso responder que não sou torcedor do Santos, e muito menos que eu tenha dado o meu, digamos, anel. Respeito quem o faz, mas a minha praia é outra.
Enfim, esses absurdos se proliferam, e algumas empresas abusam do poder de barganha que é oferecer um emprego num país com altos índices de desempregados, querendo interferir na vida pessoal dos sujeitos, covardemente. E se não é interferência, e é simples questão da imagem que o candidato passa, querem interferir na liberdade de expressão das pessoas, querem que elas escondam seus gostos ou preferências. Algo do tipo, "pode fazer, desde que eu não saiba". Meio ridículo. Eu continuo adorando minhas biritas, continuo detestando segunda-feira, e isso jamais vai interferir no meu profissionalismo, nem no de muitas e muitas pessoas. Mas, que fique claro, eu nunca dei o cu!

sábado, 6 de dezembro de 2008

Um torcedor especial

Dia 3 de dezembro de 2008. Um rapaz de vinte e poucos anos está sentado em um sofá branco. Ansiosamente aguarda o Galvão Bem Amigos da Rede Globo Bueno iniciar a jornada. E o jovem está tenso. Assiste e sofre com o jogo do seu colorado. Vibra com o gol de Nilmar. Fez o gol junto com Nilmar, com alma. Gritou e chorou. Hoje ele está longe do seu amado Inter. Mas ainda acompanha, apaixonadamente, o seu time. O rapaz jogou no Inter durante um ano, em 2002. Já conhece bem aquele caldeirão chamado Beira-Rio. Teve de ir jogar em outro time no final daquele ano.
Hoje ele está muito bem por lá. Faz gols, e todos gostam dele. É um time muito bom, pelo que chega de notícias. Todo branco. Assim como o uniforme do Inter eternizado em 2006. Mas esse rapaz não esqueceu o Inter, um segundo que fosse. É uma paixão eterna, uma paixão que supera toda a distância. Ele não deixou de acompanhar seu time. É um torcedor pra lá de especial. Acompanhou a retomada de 2003, as disputas internacionais, o título brasileiro de 2005, o glorioso ano de 2006, a Recopa, a Copa Dubai, e agora, a Copa Sul-Americana. Ele está satiseito com seu Inter. Tão rápido, mas tão intenso amor de sua vida. Ele está longe, mas está junto. O nome desse torcedor é Mahicon Librelato.
Se o Inter está onde está, nos enchendo de orgulhos, de alegrias, muito se deve àquele gol no Mangueirão, contra o Paysandu. Não fosse aquele gol, que abriu o caminho para nos mantermos na primeira divisão nacional, talvez toda essa história magnífica não estivesse sendo escrita pelo Inter. Muito obrigado por tudo, Librelato. Sei que estás com o Inter, onde quer que estejas. Sei que estás feliz, vibrando junto com todos nós, e junto de tantos colorados que choraram e sorriram pelo Inter, e não puderam estar por aqui nos últimos anos, vendo o Inter ganhar a América, o Mundo, e ganhar a América de novo, sendo campeão de tudo, vivendo os seus tempos mais gloriosos.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

América

A América é colorada de novo! O Inter é campeão da Copa Sul-Americana! Mais um momento histórico! Que delícia! Nem tenho muitas palavras. Foi fantástico, foi magnífico. Foi uma batalha. O Inter foi guerreiro. Sofreu, lutou, passou por turbulências dentro de um jogo dificílimo, contra um legítimo time argentino, que valorizou demais a nossa conquista.
O Inter é campeão de tudo! Todos os títulos são colorados. Esse clube é maravilhoso. E nem me venham falar em gol mal anulado do Estudiantes. O Inter teve dois impedimentos absurdos marcados na Batalha de La Plata. Teve um pênalti não menos escandaloso a seu favor, em jogada de vôlei do zagueiro argentino, que o homem do apito não viu. Mas deixemos de lado. Certamente a dor de cotovelo nessas terras será grande nos próximos dias. Todos os recalques vão florescer. Normal. Para quem se diz imortal, que nada pode ser maior, dentre outras balelas, é um golpe muito duro agüentar o fato de que o vermelho e branco é campeão de tudo.
Ser colorado é levantar taças. É gritar "é campeão". É ser legitimamente internacional. E o gol foi da maneira que teria que ser. A bola bateu, rebateu, rocamboleou, e Nilmar fez o gol, na marra. Gol do tipo daqueles que o Boca faz na Bombonera. Tinha que ser assim. E aquele lance pareceu ter 10 minutos. Só o lance do gol foi de uma intensidade e de um sofrimento ímpar. Esse sofrimento serviu para dar um gosto muito especial ao título da América. Agora, deixa eu falar, deixa eu gritar: É CAMPEÃO, PORRA!

Na biblioteca

Estou sentado na sala de leitura de uma biblioteca.* Segunda fileira da esquerda para a direita, segunda mesa do fundo para a frente. Estou tentando ler um livro, de Scott Mainwaring, sobre partidos políticos no Brasil. Até agora, passaram-se 45 minutos e li duas páginas. Meus pensamentos estão acelerados e completamente desfocados do livro. O dia é belíssimo. Perfeito. Eu observo as pessoas na biblioteca. Não sou o único dispersivo. Alguns estão concentrados, a maioria para falar a verdade. Mas sempre tem aqueles que, assim como eu, olham para os lados, observam os movimentos. A janela é tentadora. Vejo as pessoas, o ar livre. Queria estar lá fora. Tem uma loirinha lindíssima de casaco verde, na fila à minha direita, um pouco à frente. Ela também está dispersa. Passaram-se mais 10 minutos. Estou aqui, desatento ao livro, atento a tudo, e ao mesmo tempo com a cabeça e o espírito longe. Visto uma camisa do Inter, com listras verticais, que me foi regalada pela minha mãe no sábado.
A desatenção dos outros também me deixa desatento. A loirinha linda conversa com o cara que está à esquerda dela. Deve ser um colega. Qualquer motivo para distração me distrai. Qualquer um. E à noite tem jogo do Inter. Tem final da Copa Sul-Americana. É lá que minha cabeça está. Nesse exato momento, 80% das pessoas da sala estão como eu, olhando para os lados, olhando para o nada. Me sinto um canalha comigo mesmo. Sou um cafajeste da minha própria vida. Devia estar lendo o livro sobre a mesa. Ele está aberto, esperando-me solenemente. E eu estou desprezando-o, distraindo-me, escrevendo para o Dilemas Cotidianos. Ai, a loirinha. Que rosto ela tem! Chegam mais dois caras. Um está com a camisa colorada. Nesse momento, somos três fardados na sala de leitura.
Ah, como eu queria estar lá fora! Mas estou na cadeia. Agora, a loirinha acaba de sair. Talvez eu me distraia menos. Ou não. Estou com o Inter. Mente e coração estão com o Inter. O corpo está na sala de leitura de uma biblioteca. E quantos outros corpos e corações não estão, nesse momento, com o Inter? Quantas donas de casa não estão colocando o feijão no fogo pensando no Inter? Quantos estudantes não estão em suas salas com a cabeça no Inter? Professores também. Lecionando com um coração colorado pulsante, com um distintivo que entrelaça o S, o C e o I. Coração que pula quase para fora do peito, pula como a torcida colorada estará pulando esta noite no Gigante da Beira-Rio. Quantas almas não estão vagando pela Andradas, pela Salgado, pela Borges, inevitavelmente fundidas com emoções que ainda não existem, mas estão marcadas para acontecer a partir das 22 horas?
Hoje é dia de Inter. Mais um dia de Inter. Mais um grande título em jogo. De novo, o colorado centraliza as atenções do continente. O Inter é a estrela de hoje. Tenho que parar por aqui. Tenho que tentar ler. Pelo menos tentar. Mainwaring, aí vou eu!

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*Texto escrito enquanto eu tentava, sem muito sucesso, ler o livro "Sistemas partidários em novas democracias: o caso do Brasil", de Scott Mainwaring, na manhã de hoje, 03/12/2008.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

O que vale mais?

O ano de 2008 aproxima-se do final, e em uma semana, duas importantes competições chegam ao seu final: Brasileirão e Copa Sul-Americana. Debates a respeito da importância de cada uma delas proliferam-se no mundo esportivo. E eu estou comprando uma briga. A Copa Sul-Americana vale mais que o Brasileirão. É competição internacional e prestigiosa. Claro que o Campeonato Brasileiro também é muito importante, e meu time, com muito orgulho, possui três. Mas tem menos expressão que a Sul-Americana, por um simples motivo: é um título nacional, enquanto a Sul-Americana é um tíulo continental.
Vamos fazer um teste honesto de importância relativa de campeonatos nacionais e a Copa Sul-Americana. Você lembra de cabeça quem foi o campeão argentino de 2004? E de 2005? Eu confesso que não lembro. Mas lembro que o Campeão da Sul-Americana desses anos foi o Boca. Você lembra, ou sabe, quem foi o campeão mexicano de 2006? Confesso, de novo, não sei. Mas o campeão da Sul-Americana foi o Pachuca, disso eu lembro. O campeão peruano de 2004? Também não sei, mas sei que o Cienciano foi o campeão do torneio continental. Quem ganhou o argentino de 2003? Puxo pela memória e não consigo, por mais que me esforce, lembrar. Mas de quem ganhou a Sul-Americana de novo eu lembro: foi o San Lorenzo.
É pura geografia: qualquer competição que abranja um território maior, incluindo o território menor nela, é mais importante que a competição do território menor que compõe a outra. Copa do Brasil e Brasileirão sempre serão mais importantes que Gauchão. Libertadores e Sul-Americana sempre serão mais importantes que Brasileirão. Mundial Interclubes sempre será mais importante que Libertadores. É assim que funciona. E não me venham com chorumelas.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Dilemas Cotidianos- Capítulo 9

O trabalho estava maravilhoso para Fernando. Trabalhava e sorria, e tudo estava muito bom. Pensava na noite. À noite ele poderia ligar para Débora, combinar uma saída para o fim de semana. O tempo passava docemente. Não sentia a passagem do tempo. Mas estava ansioso. As coisas faziam um sentido inexplicável. Sim, Fernando estava motivado. Conversava com Sérgio, que estava na mesa ao lado, e Pedro, que, em pé, tomava um copo de café. Julieta apenas observava de soslaio. Observava porque Fernando estava estranhamente animado.
Chegou ao fim o dia de expediente. Os três saíram juntos do trabalho. E qual não foi a surpresa de Fernando, Débora estava lá. Sérgio demonstrou certo espanto. Era a moça que marcava o cigarro com o batom vermelho. Era a moça do decote inesquecível. Ela abraçou Fernando, e beijaram-se na boca. Sérgio observou, pasmo, e cumprimentou Débora. Julieta também ficou surpresa, e com um sorriso um tanto artificial, tentando esconder algum constrangimento, igualmente cumprimentou Débora.
- Vamos todos tomar umas cervejas?- convidou Fernando, o sorriso estampado no rosto.
Todos concordaram, e dirigiram-se ao bar mais próximo. Lá, todos sentados, Sérgio e Julieta juntavam-se em um único e fundido olhar, para o casal que se beijava apaixonadamente. Os copos de Julieta e Fernando chegavam a esquentar, mas eles nem esquentavam a cabeça. Sérgio não estava exatamente bravo. Parecia até contente pelo amigo, embora com um olhar descofiado. Pedro fitava Débora em alguns momentos, irritantemente. Mas ela não se mostrava incomodada, nem mostrava interesse algum. E Pedro era suficientemente racional para perceber que dali não sairia nada, e também não haveria necessidade de se criar um ambiente negativo com o colega de trabalho. Passou-se o tempo, e foram todos embora. Naquela noite, cada um foi para sua casa. Julieta pediu o telefone de Débora, para que ela se incorporasse ao grupo, e saísse com eles outras vezes. Fazia tudo para aproximar-se e mostrar-se amistosa, disposta a criar algum laço com Débora. Despediram-se. Débora estava cansada, e não foi junto com Fernando. Realmente cada um recolheu-se aos seus aposentos.

domingo, 30 de novembro de 2008

Crise do capitalismo

Importante o atual momento para se debater a crise do sistema capitalista global. Eu, particularmente, apesar de considerar todas as dificuldades inerentes a um sistema que tem como premissa a desigualdade, não acredito que o capitalismo esteja entrando em um colapso definitivo. Seria importante uma evolução, a viabilização de um sistema que ao menos aumentasse as redes de proteção aos pobres, reduzindo desigualdades moralmente inaceitáveis. Talvez o momento seja propício para uma evolução limitada. Mas um novo sistema, comunista, com um direcionamento radicalmente diverso do que se vê hoje em dia, me parece utópico, para dizer o mínimo.
O capitalismo está disseminado, não só no trato de questões políticas e econômicas em escala mundial, mas também na cultura ocidental. A cultura ocidental (sim, cultura ocidental, pois regionalizações são progressivamente obsoletas no atual panorama de globalização) é uma cultura capitalista. As pessoas pensam o mundo com uma visão capitalista, atomizada, individualista. Quem se dá bem na vida é vencedor, quem se dá mal é perdedor. Essa é a mentalidade reinante. As pessoas consideram as condições e as origens apenas como uma questão tangencial, que toca, mas não chega a ser determinante. Para isso, inverte-se a lógica, e adota-se as exceções como regra. Regra a ser seguida, e que os fracos não seguem. Maioria de fracos. Claro que em tudo há méritos individuais, há a determinação de cada sujeito. Mas, acima de tudo, está um sistema altamente excludente, que promove uma concentração de renda violenta e revoltante. O Estado torna-se ineficiente, talvez meio preguiçoso e acomodado, entregando atribuições suas para o setor privado, e degenerando cada vez mais seus serviços. Os pobres, que não podem comprar os serviços essenciais que deveriam ser fornecidos com qualidade pelo governo, ficam à mercê. Claro que há dificuldades pontuais, por exemplo, do Estado brasileiro e da América Latina em geral. Lógico que em Estados capitalistas de bem-estar social esses danos são minimizados. E, realmente, um Estado de bem-estar social parece ser o máximo que podemos almejar em curto prazo. Lula no Brasil tenta. Outros governos latino-americanos tentam. Mas ainda estão entregues às ferrugens de um capitalismo retrógrado, e os tubarões ainda lucram em excesso nesses países.
Chávez, Morales e Correa estão mais próximos de construir algo que se pareça com o socialismo, mas talvez estejam atropelando um estágio, do bem-estar social, para um caminho que nem mesmo eles parecem saber realmente qual é. Têm políticas que podem promover uma melhor qualidade de vida para seus povos, mas por estarem relativamente isolados em escala mundial, têm de dedicar-se primeiramente a defender a soberania de seus países.
É difícil prever o alcance da crise do capitalismo. Mas tenho uma convicção. Não é dessa vez que o sistema vai por terra abaixo. Ele ainda tem força e faz parte de um imaginário ainda intocado da maioria das pessoas. As forças de esquerda e as alternativas parecem desarticuladas, sem um plano realmente sólido, sem um planejamento do que deva acontecer a longo prazo. A própria esquerda não criou um terreno fértil que proporcionasse uma unidade de ação. O que se nota é, pelo contrário, uma fragmentação das esquerdas, com divisões em termos de plano de ação, e a perda de setores para movimentos sociais também fragmentados, sem articulação de políticas mais amplas. O advento Obama nos Estados Unidos poderá ser um motor para a superação de um capitalismo por outro capitalismo, mais racional e menos desenfreado. Queria que houvesse mudanças mais profundas. Mas me parece que, para o momento, é tudo pelo que podemos esperar. Algo fora disso não passa de devaneio.

sábado, 29 de novembro de 2008

All Star

Cheguei à conclusão de que o All Star é uma fato social. Estou sentado em uma sala de aula, observando as pessoas ao meu redor, e, de 5 pessoas minha volta, 3 estão calçando All Star.* É um tênis proliferado. É óbvio que eu já havia observado anteriormente que o All Star é extremamente popular. Mas não deixa de causar certo espanto quando observamos a intensidade e a extensão dessa popularidade. Acaba de chegar mais um cara. Adivinha o que ele está calçando? All Star é pop.
Gosto do All Star. Acho um tênis extremamente simpático, estiloso e bonito. Tive dois pares na minha infância. Talvez um e meio, pois apenas um dos pares era da marca All Star. O outro era um que o governo do estado tinha dado para os colégios estaduais, junto com mochila e diversos outros materiais. Isso era na gestão Collares, se não me engano. Méritos dele, pois foi uma bela iniciativa. Louvável. Claro que o tênis não era lá muito bonito, graças a uma combinação de cores do azul marinho do calçado com cadarços cor-de-laranja.
Talvez algum dia eu compre um All Star. Mas para mim é difícil abandonar os tênis de futsal. São extremamente confortáveis, além de fazerem parte do meu estilo. Aliás, o meu estilo é não ter estilo, nada muito estereotipado. Visto-me da forma que me faz sentir bem. Talvez isso não seja falta de estilo. Talvez seja sobra de estilo, o meu estilo. Talvez seja um estilo Renner/C&A. São as lojas de roupa pop-baratas. Pop-pobre. Final de ano sempre tem rancho na Renner ou na C&A. Tudo na base do cartão, claro. Classe média baixa e classe pobre não tem direito a ter estilo. Não com toda a liberdade imaginável e desejável.
Esse é o mérito do All Star. Permite um estilo, embora longe de ser alternativo hoje em dia (basta medir o índice de All Stars por habitante jovem no mundo ocidental). Também é um mérito de camisas de banda compradas na Voluntários da Pátria. Mas o All Star também tem seus grandes méritos. Conheço pessoas realmente alternativas que usam All Star. Porém, também é inegável: tem muito bundinha que o usa. Mas no fundo sabemos quem realmente é e quem não é alternativo. E talvez seja um dever de resistência alternativa que os alternativos tenham, o de continuar usando All Star. Afinal, deve-se lutar contra apropriações indébitas, e seria uma violência entregar o direito de usar All Star aos fãs de Justin Timberlake. Entretanto, a popularização e a massificação do All Star foi inevitável historicamente. Afinal, a vontade de ser alternativo também é pop.
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*Texto escrito enquanto eu esperava o começo de uma aula que atrasou por volta de meia hora.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Grande Cebola!

Li uma notícia que mudará os rumos da humanidade. O Cebolinha ficou com a Mônica! Ô mundo moderno. Ou pós-moderno! Quem diria, hein? Os pombinhos se juntaram na versão jovem dos quadrinhos que povoaram a minha infância. Grande Cebola! Talvez Maurício de Souza possa fazer quadrinhos adultos da Turma da Mônica no futuro! Mas ah! No início do casamento, cenas quentes, Cebolinha tirando lágrimas dos olhos da dentucinha. Poderia haver também traições, sacanagens. Além disso, Chico Bento poderia sair de sua vidinha interiorana para ser um sub-empregado da metrópole. Maurício de Souza abriu um espaço muito fértil. E quem casaria com Cascão? Coitada da esposa que fosse lavar as cuecas do rapaz, cheias de freadas.
Depois, lá pelos 40 anos, Mônica poderia colocar uns chifres no Cebolão! Nem ia ter grandes problemas, devido ao corte de cabelo, que disfarçaria bem. Mas o Cebola, claro, não ficaria atrás, e vagaria por cabarés vagabundos da noite paulistana. Encheria a cara e chegaria bêbado em casa. Mônica, frígida, nem ligaria, viraria na cama e deixaria o coroa de cabelos espetados dormir e levantar a noite toda para conversar com o Hugo. Eles também poderiam ter filhos! Mônica daria surras de Sansão nas bundinhas dos filhotes. Escondida, encheria a cara de whisky em banheiros pela rua. E Magali seria bem rechonchuda. Não, não seria nada. Seria uma ex rechonchuda pelancuda, complexada, maníaca por cirurgias plásticas. Compraria todo time de cosmético e de produtos do tipo daqueles que dão choques elétricos na barriga.
Também haveria churrascadas. Magali e Mônica ficariam na cozinha fazendo salada de maionese (light, porque a Magali seria uma maníaca, como já falei), e Cebola e Cascão ficariam na churrasqueira, tomando um trago, comendo uns coraçõezinhos e reclamando dos gastos das esposas. E todos seriam felizes para sempre.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Épico

A vitória do Inter em La Plata foi épica. Sim, isso é uma vitória épica. Final de campeonato, um jogador a menos desde os 25 do primeiro tempo, e 11 leões em campo. Esse é o Inter. Pra matar secador de inveja. Pra matar secador do coração. O título não está ganho. Mas está muito bem encaminhado. Só uma tragédia sem precedentes pode nos tirar a Copa Sul-Americana (toc, toc, toc). Para que isso não aconteça, é fundamental ser humilde, manter-se focado, e fazer o que tem de ser feito. É fundamental manter o mesmo nível de concentração que o time teve hoje.
Algumas atuações individuais foram soberbas. Lauro às vezes é meio estabanado, mas tem muita estrela, e a seu jeito, contribuiu muito, interceptou cruzamentos, fez cera, enfim, foi fundamental. Álvaro foi perfeito. Que zagueiro bom! Um gigante, tomou conta da área colorada. Não é dono de técnica refinada, mas é extremamente eficiente. Bolívar foi muito seguro. Edinho, apesar de ser um trator, uma máquina de fazer faltas, foi muito bem na marcação, protegeu a zaga com excelência. D'alessandro foi o maestro do time. Tocou, driblou, e nas piores horas foi o desafogo, o cara que parava o jogo, fazia o time respirar. E Nilmar foi um inferno para a zaga argentina. Cavou o pênalti e foi um guerreiro solitário no ataque.
Também houve atuações pobres tecnicamente. Alex foi muito menos do que geralmente vem sendo, apesar de ter marcado o gol de pênalti. Magrão foi mal, parecia fora do timming da bola e do jogo. Marcão é um jogador que, quando a coisa aperta, mostra que é bastante deficiente. Tenta sair driblando, jogando, e não sabe fazê-lo. Mesmo assim, quando não inventou, foi eficiente. Mas acima de atuações individuais, boas ou ruins, o Inter foi taticamente perfeito. E isso é mérito de Tite, que ainda foi muito feliz ao colocar Gustavo Nery quando Alex se arrastava em campo.
O que se viu foi exatamente o que eu disse antes do jogo: o Inter é maduro. Hoje, o que se vê em campo é um time com postura de campeão. Um time de respeito. Sabe aquela admiração que muitas vezes temos por Boca e River? Aquela coisa de ver clubes que, mesmo quando não jogam bem, se vê que são de respeito, que tem postura vencedora, que são grandes, que têm imponência? Pois bem, não se precisa ir a Buenos Aires para ver isso. O Inter hoje é isso. O Inter é imponente. Ao pisar no gramado, se vê que ali não está um time qualquer. Está um time que é mais que os mortais. É mais também do que os imortais. Para desespero da vizinhança, o Inter hoje é uma potência futebolística do continente. Disputa com São Paulo e Boca o posto de time da América com maior projeção mundial. O Inter escreveu no jogo de hoje mais uma linda e inesquecível página da sua história. Mais um passo na ambição de ser o maior clube de futebol da América.

Vale título

Daqui a pouco o Inter entra em campo para enfrentar o Estudiantes. É um duelo de titãs na final da Sul-Americana. De um lado, o dono da Tríplice Coroa; do outro, um tri-campeão da América e campeão da extinta Copa Intercontinental. Vai pegar fogo! É inevitável, estou ansioso. Não é todos os dias que se decide um grande título de escala continental. Alguns setores fingem não ver a importância. Mas é importante sim. O Boca fez a maior festa quando a ganhou. Duas vezes.
Os invejosos poderiam inclusive ir dormir, com seu falso desdém. Hoje, só gente grande fica acordada. As crianças vão dormir. Mesmo que não haja mais sonhos. Faz parte da vida. E o colorado entrará em campo, imponente, grande, vencedor, multicampeão. O adversário é dos mais encardidos, não duvidem. Mas o Inter é suficientemene forte. Não vamos levar 5 a 0 em final continental somada. deixa isso pra vizinhança. Mais: o Inter tem tudo pra ser campeão. Vamos conquistar a América mais uma vez. Estou esperançoso. Mas a decisão do título, pra mim, é hoje. Se o Inter não perder, atrevo-me a dizer que o páreo estará 90% corrido. Sim, times argentinos são traiçoeiros. Mas o clube do povo adquiriu tal maturidade nesse tipo de competição que já se equivale aos hermanos. O time do Inter tem uma imposição nessas disputas para deixar freqüentadores de segunda divisão sapateando e morrendo de inveja. Hoje o "time copeiro" dessas plagas é vermelho e branco. Que o digam São Paulos, Barcelonas, Inters de Milão, Pachucas da vida. E que o diga o grande Estudiantes de La Plata.
Hoje é briga de cachorro grande. Vale título grande. Vale a América. Vale o orgulho de ser o único time brasileiro a conquistar todos os títulos que existem para um clube ganhar. Vale vaga na Recopa e na Copa do Sol Nascente no ano do Centenário. Vale a nossa existência maravilhosa torcendo por um time que nos dá muito mais alegrias do que tristezas nos últimos anos, conquistando taças e derrubando gigantes mundo afora. Gigantes sim. Mas não tão gigantes quanto o Sport Club Internacional.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Abduzido

Hoje pela manhã fui à dentista recolocar um braquete que havia caído do meu aparelho. Consegui fazer o braquete cair comendo um brigadeiro, vejam só! Pois bem, realmente acho o ato de ir ao dentista bastante peculiar. Me sinto como se tivesse sido abduzido, confesso. Não, não sou a Elba Ramalho, nunca fui levado por extra-terrestres para os confins do universo. Mas imagino como seja a abdução. E a cadeira do dentista, aquele processo todo, soa muito parecido com minha imaginação de seqüestros espaciais.
Sentamos naquela cadeira, e eu geralmente fecho os olhos, intercalando com algumas olhadelas. Ficamos ali, reféns, de boca aberta. E o dentista (no meu caso, "a" dentista) fica ali, com aquela máscara, mal o vemos, e vários aparelhinhos, várias coisinhas são colocadas em nossa boca, ferramentas cuja serventia não fazemos a menor idéia. Realmente é engraçado. Pelo menos eu acho. E permanecemos, reféns, meio letárgicos, na mão do dentista. Maquininhas, barulhinhos, e total falta de noção do que está se passando em nossa própria boca.
Idas ao médico, principalmente em hospital público, também têm um pouco de abdução. Em menos escala que os dentistas, é verdade. Mas aquelas idas de setor em setor, exames, raio x, ressonâncias, raios lasers, tudo isso também remete a uma aventura espacial. Somos menores e mais um. Seres deslocados de seus ambientes costumeiros para ambientes em que somos objeto, objeto da ciência, um número, um envelope, um relatório.
Enfim, terminei a colagem do braquete. Voltei ao mundo, fui liberado. Estou aqui relatando minha experiência espetacular de abdução numa cadeira de dentista. Mas foi mais. Foi fascinante, inspirador. Foi realmente uma viagem intergaláctica. Agora, não passa de uma viagem na maionese.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Série B

O Corinthians conquistou a segunda divisão! Vi em vários canais ontem a festa do coringão, Mano Menezes dando entrevistas tal qual um mestre sábio, o messias corintiano. Que beleza! A série B é do Corinthians! Mas, e daí? Grande e bela merda, com todo o respeito àqueles que acham grande coisa e fazem dvds. Mas é tudo de acordo com a grandeza dos clubes.
Reputo o Corinthians como um time grande. Antipatizo demais com o time do Parque São Jorge, que surrupiou o tetra-campeonato brasileiro da coleção de taças coloradas. Mas, que é grande, isso é. Por isso fiquei bastante surpreso com a festança. Esse é o tipo de conquista que um time que se imagine grande tem que colocar num cantinho do museu, bem escondidinho. Talvez tenha de ficar no almoxarifado.
Para o meu time, eu não quero essa taça. Jamais. Algumas páginas da história de um time de futebol devem ser esquecidas. Rasgadas. Queimadas. Ser campeão da segunda divisão é mais ou menos como ir a uma festa cheia de mulher bonita, tentar todas, não pegar nenhuma, às 5 da manhã pegar a maior baranga da festa, e sair espalhando para os amigos que é o pegador. Faz o seguinte, Corinthians: fazer festa já não é recomendável, mas, pela dignidade, pela grandeza do Corinthians, não façam dvd! Não registrem historicamente um momento que nunca será mais do que um momento constrangedor para um time grande: a passagem por uma segunda divisão. E chega de dar palpite para os corintianos. Deixa eu me preocupar com o meu colorado, da primeira divisão.

domingo, 23 de novembro de 2008

Dilemas Cotidianos- Capítulo 8

Um final de tarde qualquer, havia sol na rua, porém ventava bastante. Fernando estava bebendo uma cerveja, em um bar pouco movimentado. Observava a rua, e quase ninguém passava. Era uma segunda-feira. As moscas passeavam sobre os risólis e pastéis daquele boteco. E só Fernando estava sentado. Nada era confiável, e o dia era melancólico. Apesar do sol, aquele vento era melancólico. Soprava tristemente. Fernando praticamente não pensava. Contemplava o deserto na metrópole.
Adentrou o bar uma moça. Era a moça que marcava o cigarro com seu batom vermeho. Era Débora. Ela viu Fernando e sorriu. Sentou-se com ele. Fernando pediu mais um copo, meio sem saber como agir, meio sem saber o que, exatamente, esperar. Débora poderia ter sentado na cadeira à frente de Fernando. Mas escolheu a cadeira do lado dele, à direita. Conversavam, e pegaram-se na mão. Ali, já não mais interessava o que havia acontecido antes. Não mais interessava o entrelaçar de pernas de Débora com o rapaz com anel de lata de Coca-Cola no nariz. Aquele cara era um cara menos naquele momento. Que morresse, e nenhuma diferença haveria para Fernando. Seria bom, inclusive. Era um estorvo desagradável, que havia de ser esquecido.
A conversa andava, fluía, talvez como Fernando sequer imaginasse. Os dois se abraçaram, o rosto do rapaz ficava no meio dos cabelos loiros de Débora, e ele beijava seu pescoço, e beijava seu rosto, até que a boca de Débora procurou o boca de Fernando. Beijaram-se, com um fervor religioso. Fernando sentia-se realizado. Tudo estava recheado de sentido. E nada que não fosse a mesa daquele bar tinha importância nenhuma para ele. A vida dele, naquele momento, resumia-se àquilo. Era como a resolução de algo mal resolvido.
Fernando acompanhou a moça até a porta de sua casa. Beijavam-se, e não paravam. Débora chamou-o para dentro. Lá, beberam um vinho, conversavam, beijavam-se, sentiam seus cheiros, e o odor de Débora era extremamente agradável. Ela passava os lábios no pescoço de Fernando de uma forma que o fazia arrepiar-se por completo. Tudo aquilo culminou com uma transa. Suavam, sentiam cada centímetro, cada milímetro de seus corpos, tocando-se, suados, e se beijavam até faltar o ar. Dormiram e terminaram aquela noite. Fernando acordou direto para o trabalho. Tomou um banho, e Débora ainda ficou deitada. Beijaram-se, em despedida. Fernando gostaria de ficar ali, com ela. Mas não podia. Às vezes a vida possui forças superiores e inelutáveis. Uma delas era aquele dia de trabalho. Pegou o ônibus, pensando em tudo, feliz. Sentindo algo que ele gostaria de recolher, guardar, e nunca mais perder.

sábado, 22 de novembro de 2008

Tolices

Não sei o que dizer hoje. Não sei o que pensar. Muitas vezes, viver é a arte de morrer da forma mais lenta possível. Nada mais do que isso. Porque a vida é ingrata. Ela arranca tudo, tudo se transforma, e geralmente da pior forma possível. Quero pensar e refletir. Ao mesmo tempo, quero apenas dormir e esquecer tudo, esquecer absolutamente tudo, esquecer quem sou, quem fui, o que vivi, o que deixei de viver.
É engraçado perceber que acreditamos em felicidade. Essa porcaria não existe. Estou convencido disso. Jamais, jamais vai existir. Todas as coisas boas são sempre o prefácio da tragédia. Sempre. São o gosto doce antes do veneno amargo e letal. São a melhora que antecede a morte. É tolice acreditar na vida. É tolice esperar qualquer coisa da vida. Ela só nos dá migalhas para que possamos continuar nossas desgraças. Ela é tão cruel que não nos deixa morrer convictos. Mas hoje estou convicto. Tenho de estar convicto. Otários. Todos que um dia acreditaram na vida, essa política demagógica e mentirosa que é a vida, são uns otários. É simples. Chega de tudo, simplesmente sempre vai ser igual, simplesmente nunca, nunca, nunca as coisas se consolidarão. É inútil querer ter força, acreditar em qualquer brilhareco. A vida já nasce morta. Essa é a verdade. A irrefutável verdade. Esqueçamos esse lixo todo, todas essas ilusões bestas, tolas e infantis. Nada de bom jamais vai acontecer, porque tudo já está determinado. Tudo. Tudo. Tudo. Contentemo-nos com nada. Nada. Nada.
Amanhã é um novo dia. Ah, mentira. Amanhã é mais um dia fabricado em série. A vida é uma repetição industrial de dias. Consumimos o mesmo maldito produto, e tudo sempre vai ser igual com roupagens diferentes. Simples e angustiante. Somos marionetes, brinqudos de algo mais forte que nós, e que insiste em nos fazer passar as mesmas coisas. Sempre. Sempre. Sempre.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Sobre a felicidade

Ganhamos do Chivas. Um chocolate. Um jogo para a história, uma atuação perfeita. O Inter é finalista, e esse é um mérito que tem de ser dado à atual direção: o Inter voltou a ser protagonista. Dá orgulho de ser colorado. E D'alessandro é um craque. Definitivo e sensacional. Que jogador! E que atuação coletiva do Inter. Maravilhoso.
Estou feliz. A vida é incrível. Estou insuportavelmente feliz, irritantemente serelepe. Sim, sou um serelepe, um moleque, estou animado, estou feliz, e vejo beleza em tudo, e sinto vontade de sorrir com tudo. Tudo hoje é incrivelmente belo, indescritível, inexplicável. Simplesmente vejo tudo, não sei descrever nada, mas todas as coisas têm um significado em sua própria existência. Nada precisa fazer nenhum sentido, simplesmente não precisa. O sentido é a própria existência de tudo, a respiração, a vida que sinto em cada objeto que minha vista alcança. Sim, tudo, absolutamente tudo, é cheio de vida, sentido e existência. Amo o Inter. Amo tudo, amo até o que odeio. Como é bom ser colorado! Como é bom viver! Como é bom existir! Hoje não quero entender nada, e também não quero ser entendido. Só quero respirar. Simples assim. Contemplar a minha alegria e a minha existência. E o Inter vai ganhar a Sul-Americana.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

O templo

Vomitar é ritualístico. É algo poético e transcedental. Hoje acordei à força, sendo chamado pelo templo sagrado que é o banheiro. Sim, a arte de vomitar tem algo de religioso. Tem caráter de penitência. Temos que atender ao chamado. Caso contrário, somos submetidos à auto-humilhação, ao auto-flagelo, de limpar o chão, de contactarmos nossa sujeira, nossas vergonhas. É um chamado maior do que nossa reles existência. Corremos, em direção à luz. Chegamos ao vaso. Não, não é um vaso sanitário. É um totem, uma imagem, e ele nos faz curvar, solenemente, às vezes até nos ajoelhamos perante a imagem.
Ali, fazemos o expurgo. Ao mesmo tempo, refletimos sobre o que fizemos de errado. Ou o que comemos de errado. Sim, aqueles minutos são solenes. O vaso sanitário é sacrossanto. Revivemos emoções e sabores. É uma espécie de regressão espiritual e culinária. Sofremos um pouco. É, ao mesmo tempo, extremamente desagradável, e alentador. Chegamos a lacrimejar. E olhamos para aquilo. Foi, e não foi. Foi, desistiu e voltou. Cheio de significados. Às vezes ficamos mais alguns minutos, esperando mais uma parcela, mais emoções. Tantas vezes elas não vêm. Ao voltarmos para a cama, percebemos que, sim, havia mais a cumprir, mais penitências a pagar. A santidade, por sua sacralidade, também tem caprichos, e nos faz voltar a hora que ela quer.
E voltamos, sempre voltamos. Porque o vaso é transcedental, e o templo nos abraça na dor, na dificuldade, na azia. Benzemo-nos na sagrada pia. Lavamos os resquícios das impurezas e do expurgo. Voltamos mais aliviados, com o espírito em paz, à nossa cama. Podemos, finalmente, ter leveza na alma, no espírito, no estômago. Purificados estamos para prosseguir nossos descaminhos.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Albergue

Ontem pela noite revi, pela vigésima nona vez, o filme "O Albergue", de Eli Roth. E não canso de ver esse filme e pensar na profundidade dele. "O Albergue" é um filme incompreendido. Muita gente o classifica como violência e carnificina gratuita. O filme é um açougue, disso não restam dúvidas. É de uma violência inimaginável para quem via Jason e Chucky na infância e os achava malvados e monstruosos. Na verdade, eles são uns fofos na comparação. Mas o filme de Eli Roth é de uma profundidade que aqueles que o criticam não conseguem enxergar.
Claro que há sempre o etnocentrismo norte-americano envolvido nessas tramas de monstruosidades. Elas ocorrem geralmente em algum país da Europa Oriental e ex-comunista. Há um forte viés ideológico envolvido nisso, uma espécie de subliminaridade. Quando não ocorrem em países que foram comunistas, ocorrem em cidades fantasmas nos Estados Unidos, aquelas em que a democracia e a lei não podem existir por não existirem no mapa. Nos Estados Unidos que existem, em Los Angeles, Nova York ou São Francisco, esse tipo de monstruosidade jamais aconteceria. A exceção foi Jason em seu oitavo filme, que acabava em Nova York. Mas Jason era um morto-vivo... Também chama a atenção o fato de os estadunidenses serem as vítimas mais caras no filme. De novo aí, oposições e subliminaridades.
Abstraindo-se isso tudo, pode-se ver o quanto esse filme possui contato intrínseco com a realidade. E de certa forma, questiona certos valores da sociedade atual. Hoje em dia, tudo, absolutamente tudo, pode ser comprado por dinheiro. Menos os sentimentos. E olha que há controvérsias, mas tudo bem. Porque não seria plausível que mentes doentias pagassem para torturar pessoas? É tão absurdo? É tão inimaginável? Não, não é. Essa é a profundidade, a grande sacada do filme. Mostra o lado mais obscuro do ser humano, a sua animalização, e quanto o dinheiro pode transformar tudo em número e produto.
Pessoas, suas vidas, suas trajetórias, tudo que as envolve, viram um número do Clube dos Caçadores de Elite. Eles escolhem suas vítimas como quem escolhe um cãozinho numa pet shop. As vítimas gritam, esperneiam, desesperam-se. Para os torturadores, aquilo não faz a menor diferença. É pura diversão. Chega a ser emblemática a cena em que Josh, amarrado numa cadeira, acorda, e de repente vê um sujeito ligando uma furadeira (sujeito, que por sinal, já tinha cruzado seu caminho anteriormente), e grita, implora, pergunta "o que foi que eu fiz pra você? Por favor, não faça isso comigo!" Talvez essa cena sirva como a mais simbólica do filme. O desespero, uma vida que se torna um joguete na mão de um maníaco, ali, como um produto, como algo que se relaciona intrinsecamente com a vítima e para o assassino não passa de mais um grito, mais uma vida, mais alguma coisa banal.
E, no final do filme, somos também um pouco sádicos, um pouco monstruosos, pelo menos eu sempre sou. Quando Paxton, o sobrevivente da trama, que tinha perdido dois dedos na casa de torturas, pega um dos torturadores no banheiro de uma estação de trem, para se vingar e fazer o mesmo, eu fui ao êxtase. Vibrei e cortei os dedos da mão do sujeito junto com a vítima. Olho por olho, dente por dente, dedo por dedo.

domingo, 16 de novembro de 2008

Dilemas Cotidianos- Capítulo 7

O sol é irritante. O fim de semana de Fernando indica apenas desagrados. Tudo que ele vê na tela da tv é chato e apático. Tinha muitas cervejas em sua geladeira. Bebia uma a uma. Ele ora observava a rua, ora olhava aquela porcaria que passava na tv. Estava entediado. Resolveu telefonar para Julieta. Ligou, e o telefone chamava, chamava, chamava, e ninguém atendia. Uma especie de desespero tomou conta de Fernando, e ele queria porque queria ver Julieta. Saiu de casa. Pegou o ônibus. Resolvera ir até a casa de Julieta. Talvez ela o recebesse. Poderia ser bom. Essa era a sua expectativa.
O ônibus passava pelas ruas, e ele observava na verdade as pessoas que adentravam a condução. Havia uma bela mulher no banco do outro lado do corredor. Ele estava sozinho em seu banco, o lugar ao lado vago. Ao fundo, uma velha, vez por outra, gritava, esquizofrenicamente: "Seus desgraçados! Bando de desgraçados! Jesus voltará! Ele voltará e castigará a todos! Malditos! Oh, como vocês todos são malditos!" O cobrador observava, incomodado. Fernando também sentia-se incomodado. Sorria constrangidamente. Dois bancos à frente, uma moça de cerca de 30 anos amamentava seu filho. A seu lado, um homem, de uns 50 anos, cabelos predominantemente pretos, mas com fios brancos, olhava, desavergonhadamente, para os seios da moça. Aquilo era um desrespeito e uma invasão. Fernando sentia nojo ao ver aquilo. Ele não era santo. Era um observador de bundas. Mas, tudo tem um limite. Os próprios instintos masculinos têm o seu limite. Por isso, Fernando sentia-se um tanto enojado. Sentia vontade de arrancar os olhos daquele homem. E ele não parava! A moça fingia não perceber. Mas é óbvio que percebia. Aquela viagem pela cidade tornou-se um grande peso, um grande incômodo. Aqueles olhos, aquele homem. Que nojo sentia Fernando. Que asco.
Chegou à sua parada, e desceu. Tocou o interfone de Julieta.
- Quem é?- perguntou a moça.
- É o Fernando.-prontamente respondeu.
Ela abriu a porta, e Fernando subiu as escadas. Julieta estava em seu apartamento, linda, com uma roupa simples, aconchegante, mas belíssima. Fernando disse a ela que estava sem nada para fazer, entediado, e resolveu visitá-la. Julieta sorriu. Fernando sentou-se no sofá, e Julieta sentou-se a seu lado, as pernas flexionadas sobre o móvel. Ofereceu um vinho, e Fernando prontamente aceitou. Bebiam, olhavam-se, conversavam. Fernando adorava a atmosfera que se criava. Entretanto, não se sentia à vontade para ultrapassar aquela fronteira. Do jeito que estava, estava bom, pois, pensava ele, Julieta poderia ficar irritada se ele fizesse algo, ela podia nunca mais olhar para sua cara. E as coisas ficaram assim. Fernando, então, despediu-se. Enquanto os dois se despediam, deram as mãos. Foram uns 5 segundos. Mas foram 5 segundos marcantes. Fernando jamais tinha pensado que um tocar de mãos, que sentir os dedos de uma mulher tocando os seus, seria tão significativo. Foi bom. Ele sentiu-se nas nuvens. Foi embora sorrindo. Dormiu no ônibus sorrindo, misturando sonho e realidade, recordando o tato da mão de Julieta na sua. Terminava o modorrento dia de fim de semana com um saldo positivo.